Deus sente falta do nosso culto? - Ministério Ligonier
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Deus sente falta do nosso culto?

Muitos cristãos têm expressado decepção e frustração nas últimas semanas por não poderem se reunir para cultuar por causa da crise do COVID-19. Eu sou um deles. Eu sinto muita falta do sermão, dos cânticos, das orações e da comunhão. Eu também me questiono quando seremos capazes de voltar ao culto. No entanto, no último domingo uma pergunta me veio à mente: Deus sente falta do nosso culto?

Deus é soberano sobre todas as coisas. “Sucederá algum mal à cidade, sem que o S o tenha feito?” (Amós 3:6). Então Ele foi quem parou o nosso culto como a reunião do corpo de Cristo no Dia do Senhor. Talvez devêssemos nos perguntar se Ele não está nos ensinando algo que ainda não estamos aprendendo. Onde quer que a calamidade atinja, eu penso a respeito do ensinamento de Jesus que está registrado para nós em Lucas 13. A calamidade deve nos direcionar em considerar o julgamento de Deus e nos levar ao arrependimento. A calamidade de ter igrejas fechadas deveria nos levar a questionar se precisamos avaliar o nosso culto e quem sabe nos arrependermos?

Vários profetas em diferentes épocas criticaram o culto a Deus das pessoas do Antigo Testamento. Paulo criticou o culto da igreja em Corinto. Nós alguma vez nos questionamos se o culto que nossas igrejas prestam a Deus está agradando a Ele? Nós asseguramos que o culto é avaliado segundo o padrão da Palavra de Deus?

Talvez Deus esteja cansado dessas igrejas que tem sacerdotes oferecendo sacrifícios que Deus não aprovou. Talvez Deus esteja cansado de ouvir pregadores que apresentam ensinos que contradizem a Sua Palavra. Talvez Deus esteja cansado do barulho do nosso louvor falso e inventado. Talvez a aparência da forma do nosso culto seja apropriada, mas nossos corações e vidas como adoradores não sejam. Talvez eu esteja sendo muito crítico. Mas certamente podemos concordar que nós precisamos dar ouvidos novamente aos profetas, especialmente a Isaías e Amós quanto ao que pensamos sobre a adoração.

Isaías, no primeiro capítulo de seu livro, reclama do culto de Judá como sendo um dos principais elementos da controvérsia de Deus para com o Seu povo (Is. 1:10-20). Ele inicia chamando-os a ouvir a Palavra e aos ensinamentos de Deus (Is. 1:10). E então ele simula os pecados do culto deles. Ele rejeita os seus vários sacrifícios (Is. 1:11) e seus ajuntamentos para dias santos (Is. 1:12-14). Ele se recusa a ouvir suas orações (Is. 1:15). “Estou cansado de as sofrer” (Is. 1:14). Enquanto eles abandonavam o culto piedoso, eles também abandonavam a Deus: “Também está cheia a sua terra de ídolos; adoram a obra das suas mãos, aquilo que os seus próprios dedos fizeram” (Is. 2:8).

Amós faz vários dos mesmos apontamentos em sua denúncia contra Israel, às vezes até de maneira mais forte. Seus avisos de julgamento e apelos por arrependimento cobrem várias áreas de pecados na vida do povo, mas o refrão é, “contudo, não vos convertestes a mim” (Amós 4:6-11). Deus declara que se encontrará com eles em julgamento, pois eles não se encontraram com Deus em um culto correto: “prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus” (Amós 4:12). Em nome do Senhor, Amós, assim como Isaías, rejeita os sacrifícios e as assembleias deles. Em conhecidas e poderosas palavras, o Senhor declara:

“Aborreço, desprezo as vossas festas e com as vossas assembleias solenes não tenho nenhum prazer. E, ainda que me ofereçais holocaustos e vossas ofertas de manjares, não me agradarei deles, nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais cevados. Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos, porque não ouvirei as melodias das tuas liras.” (Amós 5:21-23)

O Senhor rejeita seus falsos deuses e idolatria (Amós 5:26), e Ele promete destruir os seus falsos lugares de culto: “Mas os altos de Isaque serão assolados, e destruídos, os santuários de Israel; e levantar-me-ei com a espada contra a casa de Jeroboão” (Amós 7:9). Eles têm desprezado o Seu Sabbath (Amós 8:5). A música que eles inventaram para eles mesmos, Deus irá tornar em lamento (Amós 8:3,10). “Ai dos que… cantais à toa ao som da lira e inventais, como Davi, instrumentos músicos para vós mesmos” (Amós 6:4-5).

A referência a Davi aqui é fascinante. Davi realmente acrescentou vários instrumentos ao culto a Deus no templo (veja 1 Cro. 26:25-29). Aparentemente, nos dias de Amós, Israel tinha tomado a liberdade de inventar música para o culto por causa do que Davi havia feito. No entanto, suas músicas auto dedicadas agradavam apenas a eles mesmos. E seus apelos a Davi eram inteiramente falaciosos. Davi não agiu para exercitar uma liberdade imaginária. Davi agiu de acordo somente com a revelação de Deus através dos profetas Natã e Gade (2 Cro 2.:25). Os pecadores em Israel atacados por Amós haviam desertado a casa de Davi (Amós se dirigiu a Israel do Norte que havia rejeitado o reinado dos filhos de Davi) e ao templo de Davi. Mesmo assim, eles tiveram a audácia de reivindicar o exemplo de Davi para justificar a sua desobediência.

Assim como podemos ver o cuidado de Deus para com a forma do Seu culto, nós estamos dispostos a parar e refletir por um momento no conteúdo do culto que estamos oferecendo a Ele? Temos questionado apenas o que nos agrada ao invés de questionar o que agrada a Ele? Já fizemos o esforço de olhar cuidadosamente para os ensinos da Bíblia sobre o culto e comparado com a liturgia das nossas igrejas? Nós temos atos de adoração pelos quais devemos nos arrepender?

Assim como os profetas claramente falaram das corrupções das aparências externas do culto, eles também falaram dos corações dos adoradores de Deus. Amós relembra o povo que Deus espera que eles se voltem para Ele (Amós 4:6) e Deus os chama: “Buscai-me e vivei” (Amós 5.4), um chamado no contexto do culto. Deus espera uma adoração que seja correta e sincera.

Mesmo no meio de tantos avisos sérios de julgamento por causa do culto de Israel, os profetas ofereceram esperança de perdão e renovação. As promessas de Isaías sobre purificação são poderosas: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal… Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã” (Is. 6:16,18). Aqui está um grande encorajamento para todos nós: onde tivermos pecado, incluindo em nosso culto, Deus nos perdoará por causa de Jesus.

Quando Isaías fala ao povo de Deus para se purificarem, ele não está ensinando que nos limpemos a nós mesmos ou nos salvemos. O profeta claramente ensina que é o Senhor quem lava e perdoa o Seu povo. Nós vemos isso no chamado de Isaías e Sua purificação (Is. 6:7) e também nesta promessa: “Será que os restantes de Sião e os que ficarem em Jerusalém serão chamados santos; todos os que estão inscritos em Jerusalém, para a vida, quando o Senhor lavar a imundícia das filhas de Sião e limpar Jerusalém da culpa do sangue do meio dela, com o Espírito de justiça e com o Espírito purificador” (Is. 4:3-4). Mas em Isaías 1:16-18, o profeta está indicando a responsabilidade dos pecadores a se voltarem para o Senhor e prometendo que quando eles o fizerem, eles encontrarão misericórdia. Amós fala o mesmo, “Buscai o bem e não o mal, para que vivais; e, assim, o Senhor, o Deus dos Exércitos, estará convosco, como dizeis” (Amós 5:14).

Agora é a hora que devemos examinar os nossos corações. Nós temos nos tornado frios e indiferentes em nossa adoração? De tempos em tempos temos seguido apenas pelos sentimentos? Nós sempre precisamos da misericórdia e graça de Deus para nos ajudar a sermos fiéis adoradores.

Formas e corações corretamente engajados na adoração preenchem o primeiro mandamento, que nós amemos a Deus. Mas aqueles que adoram de forma aceitável também devem viver vidas aceitáveis a Deus, lembrando também do segundo mandamento. Jesus ensinou claramente que nós não podemos amar a Deus de verdade e odiar ao nosso próximo (Mt. 22:34-40). Os profetas também claramente ensinam que você não pode se aproximar de Deus se você despreza a imagem de Deus no próximo. Logo após essas palavras abrasadoras sobre a adoração, Amós declara: “Antes, corra o juízo como as águas; e a justiça, como ribeiro perene” (Amós 5:24). Ele especifica o que essa justiça significa: “Portanto, visto que pisais o pobre e dele exigis tributo de trigo, não habitareis nas casas de pedras lavradas que tendes edificado; nem bebereis do vinho das vides desejáveis que tendes plantado. Porque sei serem muitas as vossas transgressões e graves os vossos pecados; afligis o justo, tomais suborno e rejeitais os necessitados na porta” (Amós 5:11,12). O povo de Deus não pode ter um coração duro para com o necessitado e ser opressor e injusto com eles. Como Isaías disse: “Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas” (Is. 1:17).

Nós também devemos ouvir aos profetas e examinar nossas vidas. Temos amado ao nosso próximo como deveríamos? Nós buscamos ser pessoas amorosas? Onde devemos nos arrepender?

Hoje nós estamos cercados por grandes perigos. Quantos de nós vemos a perda do culto como um dos nossos grandes perigos? E se Deus não abrir para nós o caminho de volta ao culto? Amós falou do maior perigo que um povo rebelde pode encarar: “Eis que vêm dias, diz o Senhor Deus, em que enviarei fome sobre a terra, não de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor” (Amós 8:11). Numa fome semelhante, pessoas irão odiar pregadores fiéis: “Aborreceis na porta ao que vos repreende e abominais o que fala sinceramente” (Amós 5:10). Para evitar tal calamidade, nós precisamos nos agarrar à Palavra de Deus com as suas direções, alertas e promessas. Precisamos orar pela misericórdia do Senhor, para que possamos adorá-lo da forma correta novamente. Precisamos orar por uma grande renovação nas igrejas e uma grande volta para Jesus na verdadeira fé ao redor do mundo. Nós precisamos relembrar o chamado de Isaías: “Ouvi a palavra do Senhor… prestai ouvidos à lei do nosso Deus” (Is. 1:10).

Este artigo foi publicado originalmente na Tabletalk Magazine.
W. Robert Godfrey
W. Robert Godfrey
O Dr. W. Robert Godfrey é professor da Fraternidade de Ensino de Ligonier Ministries, presidente emérito e professor emérito de História da Igreja no Westminster Seminary California. Ele é o professor destacado da série de seis partes de Ligonier, A Survey of Church History, e autor de vários livros, incluindo Saving the Reformation.