Os principais temas das Escrituras - Ministério Ligonier
O sofrimento como cristãos
maio 29, 2023
Como amar as Escrituras
junho 2, 2023

Os principais temas das Escrituras

aliança

Nota do editor: Este é o último de 19 capítulos da série da revista Tabletalk: Sal e luz.

Como você vai de Londres a Edimburgo? Mesmo que você nunca tenha visitado nenhuma das duas cidades, provavelmente saberá que há mais de uma resposta para a pergunta. Conecte os destinos em um programa de mapas e você receberá uma série de rotas, e essas serão apenas as principais. Na verdade, existem milhares de trajetos entre as duas capitais, um número quase infinito de caminhos que você pode percorrer entre elas. Claro, alguns são mais óbvios do que outros, as grandes rodovias que percorrem uma rota mais clara do que as sinuosas estradas rurais. Mas o argumento permanece: há muitas maneiras de fazer a viagem.

Quando se trata das Escrituras, o que une Gênesis ao Apocalipse? Sabemos que a Bíblia é um livro, que dá uma mensagem coerente e unificada. Em última análise, é o produto de um único Autor, que revela o caminho de salvação para a humanidade. Mas existe apenas um tema que une a Bíblia? A resposta, com certeza, é não. Assim como em qualquer outra jornada, existem vários caminhos que podemos seguir ao traçarmos a grande história da redenção de Deus. Para mudar a ilustração, a Escritura é um livro tecido por muitos fios, uma corda de muitos cordões entrelaçados. Procurar “o único tema” da Bíblia é um exercício inútil; em vez disso, podemos gostar de descobrir dezenas, talvez centenas, de diferentes melodias que se combinam para criar a sinfonia final.

Vamos considerar algumas das principais estradas. Às vezes é observado que a Bíblia em nenhum lugar usa aquela frase evangélica comum “relacionamento com Deus”. É claro, isso não significa que não há relacionamento com Deus. Em vez disso, a expressão usada na Bíblia para esse vínculo entre Jesus e Seu povo é “aliança”.

Portanto, não é de surpreender que a aliança seja um caminho importante através das páginas das Escrituras. A partir do jardim do Éden, Deus fez uma aliança com Adão. Embora a palavra “aliança” de forma explícita não apareça no texto de Gênesis 2, todos os elementos que compõem uma aliança estão lá: as duas partes (Deus e Adão), os termos do relacionamento (obediência de todo o coração, expressa no mandamento não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal), penalidades se a aliança for quebrada (morte), e recompensas se for mantida (vida eterna, simbolizada pela árvore da vida; Gn 3:22) De fato, Oséias mais tarde se refere a este acordo como uma aliança (Os 6:7).

Uma vez que Adão desfaz essa aliança de obras, como tem sido mais comumente conhecido, Deus não abandona a ideia de pacto. Em vez disso, Ele continua a vincular-se a Seu povo por meio da aliança, desta vez não de obras, mas de graça. Abraão recebe promessas incríveis e entra em tal união pactual com Deus (Gn 15:17). Mas Abraão não é chamado para a perfeita obediência como os termos desta aliança. Em vez disso, ele “creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça” (Gn 15:6). Com o tempo, a família de Abraão cresceu e acabou na escravidão no Egito. Mas “lembrou-se [Deus] da sua aliança com Abraão” e veio em socorro (Êx 2:24). Como resultado desse resgate, Ele revigorou e expandiu Sua aliança com Israel, desta vez no Monte Sinai. As mesmas promessas feitas a Abraão foram reeditadas (terra, descendentes e proteção), em conjunto com a promessa da aliança: “Tomar-vos-ei por meu povo e serei vosso Deus.” Ao avançar várias centenas de anos, Davi e seus descendentes são adicionados à história da aliança: de agora em diante, ele e sua descendência governarão o povo de Deus.

E assim, finalmente, chegamos à nova aliança. Jesus inaugurou isso com Sua morte, ressurreição e ascensão e o derramamento de Seu Espírito no Pentecostes (Mc 14:24). Mas a forma permanece como sempre foi: o povo de Deus confia em Suas promessas do evangelho e Ele os abençoa por pura graça. A promessa de uma terra é expandida para incluir todos os novos céus e terra. O povo em grande parte etnicamente judeu do Antigo Testamento cresce para incluir pessoas de todas as nações. Mas, fundamentalmente, a obra de Jesus na nova aliança é, como canta Zacarias, porque Deus veio “para usar de misericórdia com os nossos pais e lembrar-se da sua santa aliança e do juramento que fez a Abraão, o nosso pai” (Lc 1:72-73).

Também podemos considerar o tema da presença de Deus com Seu povo. No jardim do Éden, Deus se encontrou com Adão e Eva, caminhando no frescor do dia. A queda levou à expulsão do homem da presença abençoada de Deus, e o jardim ficou guardado por querubins empunhando uma espada de fogo. Deus prometeu estar com Abraão, e houve teofanias ocasionais, aparições de Deus, ao longo de Gênesis e Êxodo, pense nos visitantes misteriosos de Abraão (Gn 18) ou na sarça ardente (Êx 3). Mas é com a construção do tabernáculo, a morada portátil de Deus, que damos o próximo grande passo à frente. No final do Êxodo, o fogo cai sobre o Lugar Santíssimo, o centro perfeitamente cúbico do tabernáculo, a sala do trono de Deus. Javé está de volta com Seu povo, embora distanciado pelas várias zonas de proteção da tenda. Este tabernáculo é de fato uma reminiscência do Éden: a entrada é a leste, assim como a entrada do jardim. Os querubins são costurados na cortina que guarda a entrada. Os castiçais têm a forma de árvores.

Este tema do jardim-templo continua com a construção do templo permanente sob o rei Salomão. Agora os israelitas têm uma pátria e uma capital, o filho de Davi constrói um lar “permanente” para seu Deus, e outra vez o fogo cai quando o Senhor “se move” (2 Cr 7). Deus está presente com Seu povo dessa maneira, até as visões dramáticas de Ezequiel, nas quais o profeta vê a glória do Senhor partir. Juntamente com a destruição do templo, parece que Deus havia deixado Seu povo. Daí a maravilhosa abertura do evangelho de João, onde lemos: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1:14) Deus voltou a habitar na terra; de fato, o próprio Jesus é o verdadeiro templo (2:21). Quando Seu corpo é  moído e depois ressuscitado, Ele ascende para derramar Seu Espírito sobre a igreja e assim pode prometer-lhes que estará com eles sempre, até o fim dos tempos (Mt 28.20). Entre a primeira e a segunda vinda de Cristo, Deus está presente com Seu povo de uma forma que significa que tanto o crente individual quanto a igreja podem ser descritos como templos do Espírito Santo (1 Co 3:16; 6:19). Finalmente, no dia da volta de Jesus, a morada de Deus estará outra vez com o homem, quando o céu e a terra forem reunidos. De fato, a nova Jerusalém é descrita como um cubo perfeito para simbolizar que toda a nova terra se tornou um Lugar Santíssimo, pois Deus vive com Seu povo.

A “aliança e a presença de Deus” são apenas duas “estradas principais” através da Bíblia. Poderíamos ter rastreado o tema do povo de Deus, desde Adão e Eva no Éden, passar pela linhagem piedosa de Sete, a família de Abraão, os israelitas no Sinai, até a igreja multinacional de nossos tempos. Podemos considerar o reino de Deus. Adão recebeu domínio sobre toda a criação, mas perdeu seu trono ao se submeter à palavra de Satanás. Israel como nação era um “reino de sacerdotes”, mas falhou em exercer bem seus deveres. Davi, que junto com seus descendentes teve o privilégio de ser chamado de “filhos de Deus”, foi na melhor das hipóteses uma bênção confusa para o povo de Deus e o reino de Israel foi dividido, conquistado e, em grande parte, destruído sob seus sucessores. Mas com a ressurreição de Jesus, por fim encontramos um Rei que recebeu toda a autoridade e pode, portanto, governar um reino que não conhece o fim. Por enquanto, esse reino é encontrado na igreja (Mt 16:18-19), embora um dia abranja toda uma nova criação.

Portanto, as Escrituras estão unidas por uma miríade de temas entrelaçados. Puxar até mesmo fios menores pode ser proveitoso. Pense nos espinhos que encontramos pela primeira vez como parte da maldição, mas que finalmente encontramos entrelaçados em uma coroa adornando a testa do Messias enquanto Ele carregava a maldição por Seu povo. Da mesma forma, a queda leva ao suor: o trabalho tornou-se desagradável e cansativo, o que força a vida a esvair-se de nós. Por conseguinte, que alívio saber que Jesus suou sangue por nós no jardim do Getsêmani, um lembrete de que a obra de nossa salvação está somente em Suas mãos enquanto derrama Sua vida por Seu povo. O casamento também vai de Gênesis a Apocalipse, e retrata a história da redenção. O casamento foi criado para retratar o amor e a união de Jesus com Sua noiva, a igreja, mas essa imagem é distorcida no Israel adúltero antes de atingir o clímax na morte sacrificial de Cristo e será consumada na grande ceia das bodas do Cordeiro (Ap 19:6-7).

Esses últimos exemplos são claramente menos centrais do que os da aliança, reino ou presença de Deus. Mas ajudam a mostrar que, embora não haja um único tema que una a Bíblia, há um personagem principal no qual tudo se concentra. Embora existam vilões, vítimas, servos e ajudantes em abundância, há apenas um Herói. Onde quer que nos encontremos nas Escrituras, os holofotes estão sempre brilhando no Deus trino e na obra de resgate do Senhor Jesus Cristo. Todas as melodias da grande sinfonia de Deus se combinam para cantar Seu louvor.

Este artigo foi publicado originalmente na Tabletalk Magazine.

Jonty Rhodes
Jonty Rhodes
O Rev. Jonty Rhodes é ministro da Christ Church Central Leeds, em Leeds, na Inglaterra. Ele é autor de Covenants Made Simple: Understanding God's Unfolding Promises to His People [Pactos simplificados: entendendo as promessas reveladas de Deus ao Seu povo].