Quem foi John Knox?
fevereiro 20, 2026
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Quem foi Pierre Courthial?

Nota do Editor: Este artigo faz parte da série Personagens históricos.

Pierre Courthial¹ foi um teólogo reformado e pastor de convicções firmes na França no século XX. Ele nasceu em 1914 em Saint Cyr-au-Mont-d’Or, no lado norte de Lyon, em uma família religiosamente mista: seu pai era reformado francês e sua mãe católica romana. Ele foi criado na igreja reformada francesa e, aos dezesseis anos, encontrou os escritos de João Calvino e Pierre Viret. A visão teológica combinada deles exerceria uma influência dominante sobre sua própria visão.

Serviço no ministério eclesiástico

Como estudante na Faculdade Protestante de Teologia em Paris, Courthial foi influenciado pelo grande teólogo reformado francês Auguste Lecerf e criou um laço de amizade permanente com Pierre Charles Marcel, seu companheiro de estudos e futuro teólogo da tradição reformada.² Courthial se formou com uma bolsa de estudos para prosseguir seu doutorado na Free University de Amsterdã. No entanto, seu doutorado em Amsterdã não se concretizou. Courthial atendeu a um chamado inesperado para servir como pastor interino em Lyon, o que inaugurou uma vida inteira de serviço no ministério eclesiástico, a única interrupção foi seu serviço militar no Exército Francês na Segunda Guerra Mundial, durante a qual participou da conhecida evacuação de Dunquerque.

Em 1941, ele se tornou o pastor de uma paróquia reformada em La-Voulte-sur-Rhône, uma cidade na região da França, que estava sob controle do regime nazista. Em meio aos seus deveres pastorais e às tensões incomuns daquela época, Courthial dedicava, mesmo assim, duas horas todas as manhãs ao estudo pessoal, uma prática que ele manteria durante todo o seu ministério. Ele leu bastante sobre teologia, filosofia e literatura, teve acesso a obras escritas em francês, holandês, alemão e inglês.

Em 1951, Courthial se juntou à equipe pastoral da eminente Igreja Reformada da Anunciação em Paris, no sofisticado décimo sexto distrito da cidade, não muito longe do Arco do Triunfo. Em 1956, ele se tornaria o pastor principal daquela congregação, exerceu suas funções até 1973. Durante esses anos de ministério, Courthial foi um líder importante ao promover o diálogo interdenominacional com uma abordagem biblicamente séria, tanto em seus escritos quanto em suas iniciativas de ministério. Ele declarou: “Rejeitamos o ecumenismo popular da atualidade, visto que é infiel, insípido, brando e sem espinha dorsal. Em vez disso, seguimos com determinação no ecumenismo fiel, vigoroso e confessional que Cristo Jesus e as Escrituras nos incitam a adotar.”³

Escritos

Um homem corajoso e admirador de outros igualmente corajosos, Courthial muitas vezes se frustrava ao ver que aqueles que afirmavam crer na autoridade das Escrituras hesitavam em aplicá-las concretamente em sua vida e trabalho. Porém também mantinha sua típica cordialidade e bom humor, sustentados por uma esperança viva na promessa de Deus de que, apesar de tudo, “a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Hc 2:14). Seus escritos nesse período, reunidos e publicados como Fondements pour l’avenir [Fundamentos para o futuro], refletem sua ampla gama de interesses em teologia, estudos bíblicos e ética, entre eles sua refutação contundente da teologia neo-ortodoxa de Karl Barth.

Após vinte e cinco anos de ministério notável em Paris e além, Courthial foi convidado a emprestar seu nome formidável à fundação de uma pequena faculdade conservadora de teologia protestante em Aix-en-Provence (agora chamada de Faculté Jean Calvin). William Edgar expressa: “O seu propósito declarado no início era renovar as igrejas Reformadas da França formando homens profundamente comprometidos com o evangelho, que assumiriam púlpitos de influência”. Courthial se empenhou nessa missão, se mudou para Aix, onde serviu como professor e reitor. Em 1979, ele viajou para os Estados Unidos para receber um doutorado honorário do Westminster Theological Seminary por ocasião dos cinquenta anos do seminário. Depois de uma década de serviço em Aix, Courthial se aposentou em Paris em 1983.

Aposentado do ministério ativo, Courthial escreveu suas duas principais obras em Paris, A New Day of Small Beginnings [Um novo dia de pequenos começos] e The Bible: The Sacred Text of the Covenant [A Bíblia: o texto sagrado da aliança]. O primeiro livro foi escrito para encorajar os cristãos ocidentais que vivem em uma era de secularismo onipresente, mas cada vez mais desgastado, a manterem sua confiança e servirem ao Senhor com obediência em todas as áreas da vida. G.I. Williamson considerou-o “um dos melhores livros que já li” e Douglas F. Kelly previu que “seria um livro muito importante na igreja pelos próximos cinquenta anos”. Cercado por uma atmosfera de total secularismo em Paris, Courthial defendia um tipo de cristianismo total que tem sua base não apenas em sola Scriptura [a Escritura somente], mas tota Scriptura (a Escritura toda, tanto o Antigo Testamento quanto o Novo) e constrói sobre a traditio e Scriptura fluens (a tradição dogmática da igreja que flui das Escrituras).⁴ Ao traçar a história das ações pactuais de Deus desde a criação até Cristo e através das convulsões do século XX, Courthial convoca a igreja no início do século XXI a responder ao humanismo, com seu compromisso ideológico com a autonomia na lei e na ética, com uma articulação abrangente e doxológica da lei divina aplicada a todas as áreas da vida.

Impacto

Courthial esperava que esse esforço, assim como o desenvolvimento dos grandes dogmas da Trindade e de Cristo na igreja primitiva, e os grandes dogmas das Escrituras e da salvação no período da Reforma, levasse tempo. Contudo, ele também esperava que o Senhor abençoasse aqueles que com humildade submetem toda a sua vida, que começa com seus corações, lares e igrejas, e se estende para suas esferas de influência, à totalidade da Sua Palavra.

Com base na aliança de graça de Deus que é permanente, Courthial esperava que uma obediência humilde e fiel no presente — uma obediência de “pequenos começos” — fosse vista, em retrospectiva, como o plantio das “sementes da próxima Reforma.”⁵ Ele escreveu: “Enquanto o Humanismo segue em direção, talvez rapidamente, ao fim de sua jornada marcada pela ruína e pela morte, é a próxima Reforma que virá para substituí-lo. Dessa renovação depende o futuro da vida do mundo.”⁶ Em seu segundo livro, The Bible: The Sacred Text of the Covenant [A Bíblia: o texto sagrado da aliança], Courthial explicou de maneira mais detalhada a ampla “visão teocosmonômica” que, segundo ele, serviria de alicerce para a renovação vindoura.⁷

Courthial morreu em 23 de abril de 2009. No serviço memorial, o teólogo Paul Wells proferiu as seguintes palavras:

Em uma França que se secularizou de maneira tão rápida e profunda após 1968, era impossível que os dons e capacidades de um homem com as convicções de Pierre Courthial fossem apreciados e utilizados. Se ele tivesse vivido no século XIX, estaríamos falando de Courthial ao lado de Spurgeon; no século XVIII, ao lado de Whitefield; no século XVI, ao lado de Calvino, Lutero e Bucer; e no século IV, falaríamos de Courthial ao lado de Atanásio.

No entanto, no século XX, o cristianismo na Europa não experimentou um renascimento, mas apenas um declínio contínuo. Quem queria levar a sério um pastor-teólogo que ansiava para que a igreja “fosse reformada segundo a Palavra de Deus”?

De fato, Courthial ansiava com esperança inabalável que a igreja “fosse reformada segundo a Palavra de Deus.” Se sua pregação e escrita não foram levadas a sério por seus compatriotas em sua geração, pode ser que nosso soberano Senhor tenha planejado, em vez disso, como fez com outro francês chamado Calvino, estabelecer a obra das mãos de Seu servo em regiões além das suas.


 ¹ Créditos da imagem: Pierre Courthial, Sala de Aula/Pierre Courthial, Seminário de Aix-en-Provence

² Quatro das obras de Marcel foram traduzidas para o inglês: Baptism: Sacrament of the Covenant of Grace [Batismo: sacramento da aliança da graça]. Philip Edgcumbe Hughes (Mack, 1951); The Relevance of Preaching [A relevância da pregação]. Rob Roy McGregor (Baker, 1963); In God’s School: Foundations for a Christian Life [Na escola de Deus: fundamentos para uma vida cristã]. Howard Griffith (Wipf & Stock, 2009); e o estudo monumental de Marcel sobre Herman Dooyeweerd, A filosofia cristã de Herman Dooyeweerd. Colin Wright (Wordbridge, 2013).

³ Pierre Courthial, De bible en bible (Lausanne: L’Age d’Homme, 2002), 153. Em breve como The Bible: The Sacred Text of the Covenant [A Bíblia: o texto sagrado da aliança] (Tallahassee: Zurich Publishing, 2023).

4 Pierre Courthial, A New Day of Small Beginnings [Um novo dia de pequenos começos] (Tallahassee: Zurich Publishing, 2018), 162-165. 

5 “Quando dizemos ‘segundo a Sagrada Escritura’, devemos querer dizer segundo toda a Escritura—nada mais (sola), nada menos (tota)” (164).

6 Ibidem, 305.

7 Ibidem

8 Courthial propõe o termo “teocosmonômico” ao adicionar “theos” (Deus) a “cosmonômico” (cosmos, mundo + nomos, lei), que era um conceito central na obra do filósofo reformado holandês Herman Dooyeweerd (1894-1977).

Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

Matthew Miller
Matthew Miller
O Rev. Matthew S. Miller é professor associado de Teologia Pastoral e Histórica e diretor do programa de mestrado no Erskine Theological Seminary, além de presbítero docente na Associate Reformed Presbyterian Church. Ele é tradutor de A New Day of Small Beginnings [Um novo dia de pequenos começos] de Pierre Courthial, e The Bible: The Sacred Text of the Covenant [A Bíblia: o texto sagrado da aliança].