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É aceitável que os cristãos vivenciem o lamento?

Acontece com uma regularidade irregular: o sofrimento surge em nossa vida, geralmente tranquila, e as perturba outra vez. Experiências dolorosas têm uma forma indesejável de fazer isso. Chegam sem convite, e deixam aqueles que sofrem o impacto em luto, tristes e com a sensação de fragilidade. Essas providências dolorosas causam danos e perdas genuínas. Além disso, nunca surgem em um momento adequado, pois, honestamente, não há um momento desejável para enfrentar dificuldades.

E ainda assim, às vezes há uma mentalidade na igreja de que devemos procurar esconder nossa tristeza, colocar um sorriso no rosto e seguir a vida como se esses desafios que enfrentamos estivessem “bem”. Respondemos à saudação habitual “como você está?” com “estou bem, obrigado(a),” quando por dentro estamos longe de estar “bem.” Vamos adorar e cantar músicas que parecem um pouco alegres demais para nossa situação atual.

Parece haver a ideia de que os cristãos, sustentados pela força do Senhor, não precisam (talvez não devam) aceitar a tristeza, que há força em minimizar tal angústia diante das dificuldades da vida. Afinal, devemos considerar isso uma alegria pura quando enfrentamos provações de diferentes tipos (Tg 1:2).

No entanto, com essa perspectiva, os crentes ficam se perguntando se há espaço para o lamento. Eclesiastes 7:2-4 está visivelmente ausente em nossa teologia do dia a dia:

Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração. Melhor é a mágoa do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração. O coração dos sábios está na casa do luto, mas o dos insensatos, na casa da alegria.

Podemos entender que o mundo não quer se entristecer, pois eles se entristecem como aqueles que não têm esperança (1 Ts 4:13). Essa tentativa de se livrar da dor faz sentido na perspectiva do mundo. Porém e a igreja? Por que somos tentados a acreditar na mentira de que o sofrimento deve ser tratado como algo menor e trivial? E por que evitamos a casa onde há luto e, em vez disso, corremos com pressa para a casa onde há banquete, riso e alegria?

Talvez estejamos começando a adotar a solução do mundo: “Comer, beber e alegrar-se” (Ec 8:15) “que amanhã morreremos” (Is 22:13). De fato, passamos a aceitar como normal aquilo que é abominável; aquilo que contradiz o desígnio e a criação originais de Deus; aquilo que invadiu tudo o que Ele fez “muito bom” e manchou esta esfera de vida, bênção e abundância; e transformamos esse intruso em algo que não é. Acabamos dizendo ao inimigo, o Sofrimento: esse invasor que perverteu o bom desígnio de Deus, e que apareceu por causa do nosso pecado: “Você não é tão ruim assim.” Contudo, a verdade divina é muito mais gloriosa do que tentar enfrentar a tristeza com mero estoicismo.

Na economia de Deus, o crente pode corretamente chamar a angústia pelo que ela é: terrível e desagradável. Podemos ir à casa onde há luto, e levar corretamente essas tristezas ao Senhor (1 Pe 5:7) e considerá-las devidamente (Ec 7:2). Afinal, os Salmos estão repletos de expressões piedosas de lamento. Na verdade, a Bíblia tem um livro inteiro que se dedica a isso (Lamentações)!

Também mantemos, ao mesmo tempo, a verdade cheia de esperança de que Deus venceu a maldição por meio de Jesus Cristo. Ele triunfou sobre este domínio de pecado e miséria, e redimiu até mesmo todas as nossas aflições, e comanda as dificuldades para Seus bons propósitos em nossas vidas. Portanto, não nos entristecemos como aqueles que não têm esperança. É correto lamentarmos, mas também é correto confiar na providência bondosa do Senhor em meio à dor. Essas verdades coexistem em uma união piedosa, e não em tensão contraditória.

Então, caro cristão, vamos viver o lamento da forma correta. Choremos e lamentemos, mas sem desespero. Permitamos que nossos irmãos e irmãs vivenciem o lamento sem estabelecer um prazo para o seu luto, um período que seja aceitável do ponto de vista cristão antes de que se vejam compelidos a sorrir outra vez. E que todos nós tenhamos ânimo, pois, embora enfrentemos vários tipos de problemas neste mundo, Cristo venceu o mundo (Jo 16:33).

Um dia, já não haverá luto (Ap 21:4). Porém hoje não é esse dia. Até então, expressamos: “Vem, Senhor Jesus.”


Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

Keith Evans
Keith Evans
O Dr. Keith A. Evans é professor associado de aconselhamento bíblico no Reformed Theological Seminary em Charlotte, Carolina do Norte, e é um ministro ordenado na RPCNA.