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Receberemos muitos benefícios do sacramento, se este pensamento estiver profundamente enraizado e gravado em nossa mente: que nenhum dos irmãos pode ser ferido, desprezado, rejeitado, maltratado ou de qualquer forma ofendido por nós, sem ao mesmo tempo ferir, desprezar e rejeitar a Cristo pelas injustiças que cometemos; que não podemos discordar de nossos irmãos sem ao mesmo tempo discordar de Cristo; que não podemos amar a Cristo sem amá-lo nos irmãos; que devemos cuidar dos corpos de nossos irmãos da mesma forma que cuidamos dos nossos; pois eles são membros do nosso corpo; e que, assim como nenhuma parte do nosso corpo é atingida por alguma dor sem que essa sensação se espalhe por todas as outras partes, também não devemos permitir que um irmão seja afetado por algum mal, sem que sintamos compaixão por ele.
Assim, Agostinho com justa razão costuma chamar este sacramento de “o vínculo do amor”.
Para João Calvino, o principal benefício da Ceia do Senhor é que ela fortalece nossa fé e nossa união com Cristo. No entanto, a comunhão com Cristo não pode ser separada da comunhão dos santos. Calvino falou deste aspecto “horizontal” da Ceia do Senhor, seguindo Agostinho, como “o vínculo do amor”. A Ceia é algo que deve unir os crentes e incentivá-los a amar uns aos outros. Paulo nos ensina que Cristo tem apenas um corpo do qual Ele nos faz todos participantes; portanto, somos todos um só corpo (1 Co 10:17). Segundo Calvino, o pão na Ceia fornece uma ilustração da unidade que devemos ter. Devemos estar unidos, sem divisão, assim como os muitos grãos no pão estão unidos para formar um único pão.
Porém, o que isso significa? Calvino nos lembra que, quando nos reunimos como cristãos para participar da Ceia do Senhor, não apenas devemos lembrar da morte de Cristo, mas também devemos lembrar daqueles por quem Ele morreu, nossos irmãos e irmãs em Cristo. Jesus nos ama? Ele também os ama. Ele morreu por nós? Ele morreu por eles também. Somos parte do único corpo de Cristo? Eles também. Somos filhos adotivos de Deus? Eles também são. Como então podemos deixar de amar e cuidar daqueles que também fazem parte do corpo de Cristo? A Ceia do Senhor inscreve essa verdade em nosso coração e em nossa mente.
A exortação de Calvino é especialmente necessária em uma cultura cujo lema é “cuide de si mesmo em primeiro lugar.” Vivemos em uma cultura na qual a mentalidade de ascensão na hierarquia corporativa se infiltrou em todos os âmbitos. Homens e mulheres em nossa cultura não têm escrúpulos em pisar nos outros em uma busca frenética para chegar ao topo. Embora Paulo nos oriente a considerar “cada um os outros superiores a si mesmo”, o autoengrandecimento e a autopromoção continuam comuns até mesmo entre os cristãos (Fp 2:3). Não importa quem machucamos ou deixamos de lado, desde que saiamos na frente. Isso não deveria ser assim entre os cristãos.
Ainda pior, talvez, é a apatia generalizada em relação àqueles que entre nós estão sofrendo. Quando nos reunimos para adorar, adoramos com pessoas que estão sofrendo. Alguns estão doentes. Alguns estão de luto. Alguns estão lutando para sustentar suas famílias. Alguns não têm família. Mas, muitas vezes, não prestamos atenção a essas coisas. Estamos muito preocupados com os nossos problemas para nos preocuparmos com os problemas dos outros. Contudo, Calvino nos lembra que quando um membro do corpo sente dor, isso afeta o corpo todo. Quando nos reunimos para a Ceia do Senhor, isso deve nos lembrar da unidade do corpo e nos incitar à compaixão para que possamos fazer o que pudermos para compartilhar os fardos de nossos irmãos em Cristo.
João Calvino, Institutas, 4.17.38.↩
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

