A igreja está cheia de hipócritas?

outubro 12, 2026

A igreja está cheia de hipócritas?

outubro 12, 2026

Quando sinto que estou estagnado

Quando eu estava crescendo na Irlanda, tínhamos mais do que a nossa cota justa de tardes chuvosas de quarta-feira. Preso bem entre os fins de semana, e com uma noite cheia de dever de casa pela frente, lembro-me de voltar da escola durante uma garoa encharcada. Carregado de livros, com suas páginas onduladas pela umidade, e meias encharcadas com a água que entrava pelos tornozelos e saía pelos dedos dos pés, eu estava tão feliz quanto um gato em um banho (embora não tão feroz).

A alma conhece suas próprias tardes chuvosas de quarta-feira. Todos os pródigos, caminhamos para casa através de um mundo arruinado pela escolha de Adão. A queda amortece toda alegria. Fardos pesados de culpa, vergonha e arrependimento mordem nossos ombros. Medos internos e problemas externos surgem negros como trovões. Ansiamos ouvir mais os passos apressados de um pai acolhedor, seus braços fortes nos envolvendo, suas lágrimas quentes e salgadas em nossas faces. Mas desejos desapontados nos seguem como companheiros constantes. Nossos melhores momentos são sempre interrompidos e, como o fim de semana para o estudante no meio da semana, o paraíso pode parecer longe o suficiente para parecer eternamente distante.

O pior desses tempos permanece sem explicação. Nenhum pecado, falha ou erro específico se destaca como o culpado. Sentimos um “vazio” e não sabemos por quê (Sl 42:5). Neste lugar distante, nos tornamos presas fáceis de uma teologia sombria baseada em sentimentos. Segue-se uma inevitabilidade deprimente: não sentimos Deus falando, então paramos de ler nossas Bíblias. Não sentimos Deus ouvindo, então paramos de orar. A inércia abafa tudo; não vamos a lugar nenhum. O que fazer?

Primeiro, lembre-se: você não está sozinho. Todos os filhos de Deus já percorreram esses caminhos antes. Quantas vezes os salmistas se sentiram abandonados, porém ainda assim buscavam a Deus em canção. Davi clamou: “Até quando, Senhor? Esquecer-te-ás de mim para sempre?” (Sl 13:1). Os filhos de Corá perguntaram: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim?” (Sl 42:5). Esses santos vinham diante do Senhor e perguntavam por quanto tempo Deus esconderia Seu rosto deles. Há uma lição aqui: homens bons muitas vezes se sentem piores do que realmente são. Esses homens começam em um momento de desespero sombrio, mas não terminam ali. Enquanto os salmistas agonizam, seus corações transbordam Escritura. Na escuridão, por trás do sentimento de abandono, Deus ainda está lá, dando-lhes palavras, ajudando-os a se voltarem para Ele, inspirando a Bíblia. O Senhor está sempre mais perto de nós do que sentimos.

Em segundo lugar, peça a Deus para procurar qualquer caminho “doloroso” que esteja bloqueando sua comunhão com Ele (Sl 139:24). As raízes do “sofrimento” remontam à amarga escolha de Adão (“sofrimento”, “trabalho” e “dor” são todas palavras hebraicas relacionadas; Gn 3:16-17). No jardim, nosso primeiro pai iniciou uma tradição familiar de buscar uma vida melhor além de Deus. Um mundo cheio de cemitérios conta a história de seu sucesso. Contudo não se desespere: o Bom Médico morreu para acabar com a “vontade” e o “fazer” de tais escolhas ímpias de você (Fp 2:12-13).

Além do pecado, também devemos procurar ervas daninhas em nossos corações, desejos tóxicos que sufocam a vida da alma. Jesus identifica três na parábola do semeador: a correria da vida, as mentiras que o dinheiro conta e o desejo por outras coisas (Mc 4:19). Com o aumento das ervas daninhas, nunca nos sentiremos bem. Para matá-las, o Espírito Santo está pronto com o herbicida celestial de pensamentos mais ricos de uma vida melhor (Rm 8:5; Fp 4:8; Cl 3:1-4). Unidos a Cristo, caminhamos na novidade de vida (Rm 6:1-14).

Em terceiro lugar, examine-se: você está em paz com a providência? É difícil se aproximar de um Deus com quem você está secretamente zangado. Fardos indesejados podem ser amigos da oração, que estimula nosso desejo e nos aproxima (Sl 55:22). Mas se preferirmos mantê-los, lotam o espaço de oração como um problema grande e óbvio que todos percebem, mas ninguém comenta e entorpece nosso desejo de nos aproximar. Seja honesto com Deus; Ele pode carregar todo fardo que você tem para dar.

Reconhecer Deus como a primeira causa de cada dor provoca grande paz. As ondas quebrando que nos afogam pertencem todas a Ele (Sl 42:7). Ele é o ator principal em cada dificuldade (Sl 66:10-12). No entanto, mesmo assim, Deus está a nosso favor. A negação de si mesmo e a submissão à vontade de Deus são as primeiras e últimas lições a serem aprendidas na vida de fé. Entretanto John Newton estava certo, poucos estão dispostos a aprender essas lições “sem serem treinados por um tempo na escola da decepção.”

E se a escuridão não se dissipar? Muitas vezes, o melhor caminho para avançar é apenas confiar e obedecer. Considere a paciência de Jó (Jó 23:8-12). No meio de uma escuridão hostil, observe-o passar da confusão (vv. 8-9) através da convicção (v. 10) para a consagração (vv. 11-12). Em um mundo caído, Jó percebe que sempre saberá mais teologia do que pode sentir. A fé faz a ponte, levando-o a um reino que a mão dos sentimentos nem sempre pode tocar (Hb 11:1).

“Mas ele sabe o meu caminho; se ele me provasse, sairia eu como o ouro” (Jó 23:10). A fé tem uma garantia para esta jornada que é mais verdadeira do que nossos piores medos, e assim continuamos nos apegando a Ele, pois Ele se apega a nós (vv. 11-12). Como um terrier com um brinquedo, Jó agarra essa verdade por tudo que vale. Ele não consegue se sentir segurando-se em Deus, mas a fé vê uma mão mais forte segurando-o: uma mão que nunca o deixará ir.

No final, a melhor pergunta para as tardes chuvosas de quarta-feira não é “o que eu sinto?” mas “o que eu sei?”


  Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

Neil Stewart

Neil Stewart

O Dr. Neil Stewart é pastor da First Presbyterian Church in Columbia, S.C.