
A preguiça e a diligência
outubro 11, 2026A igreja está cheia de hipócritas?
Há cerca de trinta anos, meu amigo próximo e colega, Archie Parrish, que na época liderava o programa Evangelism Explosion (Explosão de evangelismo) em Fort Lauderdale, veio até mim com um pedido. Ele indicou que, nas milhares de visitas evangelísticas que as equipes do programa realizaram, mantiveram um registro das respostas das pessoas às discussões sobre o evangelho. Compilaram as perguntas e objeções mais frequentes que as pessoas fizeram sobre a fé cristã e agruparam essas indagações ou objeções nas dez mais frequentemente encontradas. O Dr. Parrish perguntou se eu escreveria um livro respondendo a essas objeções para que os evangelistas o utilizassem em seu evangelismo. Esse esforço resultou no meu livro Objections Answered [Respostas às objeções], agora chamado Razão para crer. Entre as dez principais objeções levantadas estava a objeção de que a igreja está cheia de hipócritas. Naquele momento, o Dr. D. James Kennedy respondeu a essa objeção dizendo: “Bem, sempre há espaço para mais um.” Ele advertiu as pessoas que, se encontrassem uma igreja perfeita, não deveriam se unir a ela, pois isso a arruinaria.
O termo hipócrita veio do mundo do drama grego. Era usado para descrever as máscaras que os atores usavam para dramatizar certos papéis. Até hoje, o teatro é simbolizado pelas máscaras gêmeas da comédia e da tragédia. Na antiguidade, certos atores desempenhavam mais de um papel e indicavam seu papel segurando uma máscara na frente do rosto. Essa é a origem do conceito de hipocrisia.
Porém a acusação de que a igreja está cheia de hipócritas é claramente falsa. Embora nenhum cristão alcance a plena medida da santificação nesta vida, o fato de todos lutarmos contra o pecado contínuo não justifica o veredicto de hipocrisia. Um hipócrita é alguém que faz coisas que afirma não fazer. Observadores externos da igreja cristã veem pessoas que professam ser cristãs e observam que elas pecam. Como veem pecado na vida dos cristãos, apressam-se a julgar que, portanto, essas pessoas são hipócritas. Se uma pessoa afirma estar sem pecado e depois peca, sem dúvida essa pessoa é hipócrita. Contudo para um cristão simplesmente demonstrar que é um pecador não o condena por hipocrisia.
A lógica invertida é algo assim: todos os hipócritas são pecadores. João é um pecador; em vista disso, João é um hipócrita. Qualquer pessoa que conheça as leis da lógica sabe que este silogismo não é válido. Se simplesmente mudássemos a acusação de “a igreja está cheia de hipócritas” para “a igreja está cheia de pecadores”, seríamos rápidos em nos declarar culpados. A igreja é a única instituição que conheço que exige uma admissão de ser pecador para ser membro. A igreja está cheia de pecadores, pois a igreja é o lugar onde pecadores que confessam seus pecados vêm para encontrar redenção de seus pecados. Assim, nesse sentido, apenas porque a igreja está cheia de pecadores não justifica a conclusão de que ela está cheia de hipócritas. Novamente, toda hipocrisia é pecado, mas nem todo pecado é o pecado da hipocrisia.
Quando olhamos para o problema da hipocrisia na era do Novo Testamento, vemos isso mais evidente nas vidas daqueles que afirmavam ser os mais justos. Os fariseus eram um grupo de pessoas que, por definição, se viam como separados da pecaminosidade normal das massas. Eles começaram bem, ao buscar uma vida de piedade devota e submissão à lei de Deus. Contudo, quando seu comportamento não alcançou seus ideais, começaram a se envolver em pretensão. Fingiam ser mais justos do que eram. Tinham uma fachada externa de justiça, que apenas servia para ocultar uma corrupção radical em suas vidas.
Embora a igreja não esteja cheia de hipócritas, não se pode negar que a hipocrisia é um pecado que não se limita ou restringe aos fariseus do Novo Testamento. É um pecado com o qual os cristãos devem lidar. Um alto padrão de comportamento espiritual e justo foi estabelecido para a igreja. Muitas vezes, ficamos envergonhados por nossas falhas em alcançar esses altos objetivos e somos inclinados a fingir que atingimos um patamar mais elevado de justiça do que realmente alcançamos. Quando fazemos isso, colocamos a máscara do hipócrita e caímos sob o juízo divino por esse pecado específico. Quando nos encontramos envolvidos nesse tipo de fingimento, um alarme deve soar em nossas mentes, que indica que precisamos correr de volta à cruz e a Cristo e entender onde reside nossa verdadeira justiça. Temos que encontrar em Cristo, não uma máscara que esconda nosso rosto, mas um guarda-roupa inteiro de vestimentas, que é a Sua justiça. De fato, é somente sob o disfarce da justiça de Cristo, que recebemos pela fé, que qualquer um de nós pode ter esperança de estar diante de um Deus santo. Vestir as vestes de Cristo com fé não é um ato de hipocrisia. É um ato de redenção.
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

