A descendência da mulher | Ministério Ligonier
O verdadeiro Israel de Deus
maio 16, 2022
O cetro de Judá
maio 18, 2022

A descendência da mulher

A maldição sobre a serpente em Gênesis 3:14-15 prepara o cenário para o curso subsequente da história da redenção. Alusões óbvias do Novo Testamento a essa passagem ocorrem em lugares como Lucas 10:19; Romanos 16:20 e Apocalipse 12:17. No entanto, a partir desse ponto no livro de Gênesis o tema da “inimizade entre descendência/semente” caracteriza a narrativa bíblica. Essa passagem é finalmente cumprida em Jesus Cristo, a consumada “descendência da mulher” que esmaga a cabeça da serpente. Nos três discursos de maldições dados em Gênesis 3:14-19, o enredo da história é esboçado.

A intensidade desses discursos pode ser traçada da seguinte maneira. No clímax, uma maldição é dada diretamente à serpente: “Maldita és” (v. 14). Com Adão há uma leve atenuação: a terra é maldita por causa de Adão, mas ele não é amaldiçoado diretamente como a serpente foi (v. 17). Finalmente, com Eva, a palavra maldição nem é usada.

A maldição da serpente chega ao clímax no versículo 15: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” Eva não morreu no exato dia em que comeu da árvore (ver 2:17). Ela viveu o suficiente para dar à luz filhos. A dor de parto foi multiplicada, mas o parto em si ocorreu (3:16). Adão deu nome a Eva apropriadamente: “E deu o homem o nome de Eva a sua mulher, por ser a mãe de todos os seres humanos” (v. 20). Através de Eva viria a vida.

Desse ponto em diante, Gênesis retrata duas linhagens de “descendência” engajadas em uma guerra santa. Quando Eva deu à luz Caim, sua confiança na promessa de Deus era forte: “Adquiri um varão com o auxílio do SENHOR” (4:1). Ainda assim, esse homem, Caim, na verdade era do Maligno (1 Jo 3:12) e assassinou Abel, seu irmão que era justo. Caim provou ser da linhagem da serpente, que parecia inicialmente estar em vantagem. O juízo de Deus sobre Caim fez referência às maldições de Gênesis 3: “És agora, pois, maldito por sobre a terra” (4:11). Caim era como seu pai biológico, Adão, em ser amaldiçoado pela terra, mas ele também era como seu pai espiritual, o diabo, no sentido que ele mesmo recebeu a maldição: “És (…) maldito por sobre a terra” (v. 11, ênfase adicionada).

O que vemos a seguir é o contraste entre o que podemos chamar de dois “patriarcas” de descendências diferentes. Caim era o cabeça da linhagem da serpente, e Sete da linhagem da promessa.

Caim prosseguiu na construção de um império maligno. Apesar de Adão e Eva terem sido enviados ao leste do Éden, Caim voluntariamente foi ainda mais longe ao leste da presença de Deus. Ele construiu uma cidade, teve um filho, Enoque, e nomeou a cidade (literalmente “a chamou”) em homenagem a ele. (Note que na próxima vez que lemos sobre alguém construir uma cidade, é uma outra cidade da serpente no leste, Babel [Gn. 11]). Apesar das conquistas culturais da linhagem de Caim (4:18-24), vemos isso culminar no nascimento de Lameque, a sétima geração. Deus prometeu vingança sete vezes em Gênesis 4:15 sobre qualquer pessoa que assassinasse Caim, mas Lameque agiu como se ele fosse maior que Deus, capaz de aplicar vingança setenta vezes. Será que a descendência da serpente de Caim montou um verdadeiro desafio à promessa de Deus?

Em Gênesis 4:25, lemos sobre a linhagem da promessa. Eva deu à luz um substituto do justo Abel: Sete. Com o filho de Sete, há um interesse contínuo nos nomes das pessoas: “A Sete nasceu-lhe também um filho, ao qual pôs o nome de Enos; daí se começou a invocar o nome do SENHOR” (v. 26). A linhagem de Sete culmina no nascimento de um Enoque melhor que o Enoque cainita. Esse Enoque foi o sétimo na geração de Sete, mas ele foi o oposto do cainita da sétima geração: Lameque. Onde Lameque se gabou de ser maior que Deus, Enoque andou com Deus (5:22) e não experimentou a morte (v. 24; Hb. 11:5). Em seguida veio um melhor e diferente Lameque, um setita que teve um filho: Noé (Gn. 5:28-29). Após o nascimento de Noé, Lameque disse: “Este nos consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas mãos, nesta terra que o SENHOR amaldiçoou.” Noé era um tipo de Cristo, sendo um homem justo no meio de um povo adúltero. Sua linhagem foi salva, mas a da serpente na maior parte pereceu.

O dilúvio, entretanto, não foi o golpe final na cabeça da serpente. Um filho de Noé, Cam, iria levar a linhagem da serpente adiante. No entanto, chegaria o dia em que a descendência prometida, o próprio Cristo viria (Gl. 3:16). Esta descendência daria o golpe definitivo na serpente. Na nova criação, nenhum Cam será deixado para conduzir uma nova resistência. Gênesis 3:14-15 contém o enredo da redenção de toda a Bíblia, prometendo que embora a guerra santa seja travada entre as duas linhagens, Deus proverá salvação completa e final na obra de Cristo. Que conforto é saber que em Cristo, Deus nos reconciliou consigo mesmo.

Este artigo foi publicado originalmente na Tabletalk Magazine.

R. Andrew Compton
R. Andrew Compton
O Rev. R. Andrew Compton é professor assistente de estudos no Antigo Testamento e diretor do programa de mestrado de estudos teológicos no Mid-America Reformed Seminary e pastor auxiliar da Redeemer United Reformed Church em Dyer, Indiana.