O cetro de Judá | Ministério Ligonier
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O cetro de Judá

Não há dúvida de que os reinados do Antigo Testamento atingiram seu clímax com a ascensão da monarquia davídica. O que fica claro também é que a promessa do reinado não começou com Davi; isso remonta a Abraão. Lembre-se de que o Senhor prometeu a Abraão que “reis procederão de ti” (Gn. 17:6), uma promessa que foi reiterada com Jacó (Gn. 35:11). Essa promessa de monarquia assume uma forma proeminente nas palavras finais de Jacó a seus filhos em Gênesis 49, quando pronuncia a bênção do domínio sobre Judá. Vamos analisar essa bênção de Jacó e como ela antecipou o surgimento da monarquia para o povo de Deus.

No versículo 8, Judá se torna objeto de louvor e é munido de domínio mundial. O versículo 9 continua com o retrato do governo de Judá, retratando-o vividamente como um leãozinho e que está crescendo. Ele persegue sua presa, volta para sua toca com a mesma e repousa poderosamente, onde ninguém ousa desafiá-lo.

Isso nos leva às imagens intrigantes do versículo 10. Jacó associa dois símbolos da realeza a Judá: um “cetro” (Nm. 24:17; Is. 11:4; Sl. 45:6; Zc. 10:11) e um “bastão” (Nm. 21:18; Sl 60:7). A frase “entre seus pés” é um eufemismo para o órgão reprodutor masculino (Jz. 3:24; 1 Sm. 24.3; Is. 7:20) e, portanto, representa a descendência de Judá. Em outras palavras, um judeu sempre será o comandante nacional do povo de Deus. Isso permanecerá verdadeiro “até que venha Siló” (Gn. 49:10).

A figura de “Siló” ou “Shiloh” atraiu o interesse de estudiosos ao longo dos tempos, e várias interpretações foram propostas. Alguns entendem o sh como um pronome relativo e loh como “para ele”; assim, “até que ele venha a quem [o cetro/bastão] pertence.” Outros veem o sh como o raro substantivo hebraico shay, que significa “tributo”; assim, “até que o tributo chegue até ele [Judá].” Ainda uma terceira opção é entender a referência a “Shiloh” como o nome pessoal de um futuro filho proeminente de Judá. Outras interpretações foram oferecidas, mas essas três representam as opções mais populares. Independentemente da opinião, essas três compartilham um tema comum: um indivíduo proeminente da linhagem de Judá estabelecerá seu domínio que não será limitado a Israel; senão que, “a ele obedecerão os povos” (v. 10).

Embora qualquer uma dessas opções messiânicas seja possível, sou a favor da visão que vê “Shiloh” como uma referência a um nome pessoal. A raiz hebraica sh-l-h aparece com frequência no Antigo Testamento, significando “tranquilidade, quietude, paz”. Assim, “Shiloh” ou “Siló” é uma figura que é, em essência, um príncipe da paz (veja Is. 9:6). A imagem da prosperidade e da bênção de paz que ele traz continua em Gn. 49:11-12. O reinado universal de Siló resultará na prosperidade de seu reino, onde as vinhas são tão abundantes que os jumentinhos podem ser amarrados a elas em vez de arbustos. O vinho, fruto da vinha, já não precisa ser guardado para ocasiões especiais. No reino de Siló, é tão abundante que pode ser usado para tarefas cotidianas, como lavar roupas (v. 11). Na verdade, bebidas que dão prazer, como vinho e leite, serão superabundantes para que todos possam desfrutar (v. 12).

Essa imagem de paz e prosperidade, entretanto, terá um preço muito alto, isto é, o sacrifício do próprio Siló. Há alusões a tal ato no texto. Uma é a imagem do “sangue de uvas” (v. 11; veja Is. 63:2). Outro é o “jumentinho”, que no mundo antigo era comumente usado na ratificação de juramentos de lealdade. O uso deste termo neste contexto sugere que Siló trará paz às suas próprias custas (veja Gn. 15). Este “jumentinho” é mencionado em uma passagem semelhante em Zc. 9:9, onde o rei messiânico entra na cidade de Jerusalém montado neste jumentinho. Não há dúvidas sobre o significado de Zacarias 9:9, visto que se cumpriu com a entrada de Jesus na cidade de Jerusalém (Mt. 21:5). Assim, Cristo entrou em Jerusalém montado em um animal que representava Seu sacrifício iminente.

Embora Gênesis 49:8-12 seja o registro da bênção final de Jacó ao seu filho Judá, sua recepção na história da redenção a retrata como uma grande profecia que encontra seu cumprimento final em Jesus Cristo. Ela diz que a autoridade real será associada a Judá e sua família. Isso atingirá um ponto culminante quando um de seus filhos chegará para estabelecer a paz e a prosperidade universais. Embora a paz tenha sido estabelecida por reis da Judéia como Davi e Salomão, seus reinados não poderiam estabelecê-la universalmente de forma que “a eles obedecerão os povos” (v. 10), nem poderiam trazer uma prosperidade ao reino que fornecesse abundância escatológica (vv. 11-12). Eles eram a imagem de um filho supremo de Judá, o verdadeiro Príncipe da Paz, que traz todas as bênçãos de Seu glorioso reino. Jesus é aquele filho supremo da Judéia, o messiânico Siló cuja morte estabeleceu a “paz com Deus” (Rm. 5:1). Ele ascendeu aos céus para estar com Seu Pai, mas retornará “com os exércitos que há no céu” (Ap. 19:14), vestindo um “manto tinto de sangue” (Ap. 19:13) para derrotar todos aqueles que ousarem se opor a Ele. Em nossa união com Cristo, somos “coerdeiros com Cristo” (Rm. 8.17) e aguardamos Seu retorno, quando Ele irá estabelecer a verdadeira pátria celestial e usaremos vestiduras brancas lavadas “no sangue do Cordeiro” (Ap. 7:14).

Este artigo foi publicado originalmente na Tabletalk Magazine.

Peter Y. Lee
Peter Y. Lee
O Dr. Peter Y. Lee é professor de Antigo Testamento e reitor de alunos do Reformed Theological Seminary em Washington, D.C.