
Quem escreveu a Bíblia?
abril 13, 2026A vida cristã como peregrinação
Quem quiser conhecer a coragem de verdade,
que se aproxime;
há quem permaneça firme,
fazendo frente a vento e tempestade;
nada poderá desanimá-lo
de cumprir o seu primeiro propósito: ser um peregrino.
Há meio século, cantei estas palavras em reuniões escolares com música composta por Ralph Vaughan Williams. As palavras aparecem na parte 2 de O Peregrino, de John Bunyan, como parte do testemunho do Sr. Valoroso-pela-Verdade. Mais cedo, Valoroso havia se apresentado ao Sr. Bom-coração e seus companheiros com as palavras: “Sou um Peregrino e estou indo para a cidade celestial.”
Todos os cristãos são peregrinos a caminho da cidade celestial. Bunyan estava simplesmente refletindo a Bíblia que ele amava. A Escritura afirma que os cristãos são peregrinos. Na aliança paradigmática feita com nosso pai Abraão, Deus prometeu-lhe Canaã como “a terra das tuas peregrinações” (Gn 17:8). No NT, Pedro reflete a mesma ideia quando descreve seus leitores como “eleitos que são forasteiros” (1 Pe 1:1; cf. 1:17, “o tempo da vossa peregrinação”). Da mesma forma, ao rever os fiéis da história do Antigo Testamento, o autor de Hebreus refere-se a eles como “estrangeiros e peregrinos” (Hb 11:13).
A vida cristã é uma viagem, uma jornada do tipo mais emocionante. Tem um ponto de partida e um término. É uma metáfora de movimento. Os cristãos não permanecem em um lugar por muito tempo, pois estão destinados a outro local. Os primeiros cristãos eram conhecidos como seguidores do “Caminho”, uma percepção de que pareciam determinados a seguir um caminho diferente (At 9:2; 24:14).
Vários problemas surgem. Primeiro, há a ideia de uma aventura. Sim, aventura. Se Bilbo Bolseiro em O Hobbit inicialmente evitou a aventura, pois isso perturbava o equilíbrio de sua rotina de vida no Condado, ele mais tarde registraria sua extraordinária jornada em um conto emocionante com o subtítulo Lá e de volta outra vez.
Os cristãos exploram uma jornada um pouco diferente: de cá para lá, talvez. No entanto, é uma jornada também emocionante, repleta de histórias de coragem e perigo. Há algo empolgante sobre a vida cristã. Em cada momento, novos sinais da provisão, ação e livramento de Deus se revelam. Não sabemos o que um dia pode trazer (Pv 27:1), mas podemos ter a certeza de que nada acontece sem que nosso Pai celestial queira que aconteça. Somos chamados a seguir nosso Mestre onde quer que Ele nos conduza: em pastos verdejantes junto das águas de descanso, assim como na presença de adversários e no vale da sombra da morte (Sl 23).
Meu amigo e antecessor na igreja que agora sirvo, um nome bastante familiar para os leitores da Tabletalk, Sinclair Ferguson, de modo frequente terminava seus sermões com uma exclamação: “Que maravilhoso é ser cristão!” Sim, é algo extraordinário, uma aventura emocionante a cada segundo do caminho.
Em segundo lugar, a peregrinação evoca a natureza transitória desta vida. “Na verdade, não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir” (Hb 13:14). “Nas coisas que se veem […] porque as que se veem são temporais” (2 Co 4:18). O que significa se referir a esta vida como “temporária”? A resposta está na tensão presente no Novo Testamento entre o “agora” e o “ainda não”. Os cristãos são aqueles sobre os quais “os fins dos séculos têm chegado” (1 Co 10:11). Algo do mundo vindouro já perfurou nossa existência no espaço-tempo e nos reivindicou como cidadãos de outro reino (Fp 3:20).
Esta perspectiva provoca tensões fundamentais. Em certo sentido, vivemos aqui com uma variedade de responsabilidades como cidadãos deste mundo. A vida reclusa de isolamento e abstinência não representa uma cosmovisão bíblica. Essa visão bizarra da vida é caricaturada em Simeão Estilita, o Antigo, um homem que subiu em um poste na Síria em 423 d.C. e lá permaneceu por trinta e sete anos até morrer. Esta é uma negação do cristianismo, não sua afirmação. Os cristãos se envolvem na sociedade. Os cristãos remodelam a sociedade. São luzes em lugares escuros. Uma nova afeição tomou conta dos cristãos que faz com que todo o resto pareça sem importância e superficial. Nas palavras de Thomas Chalmers, a vida cristã é acesa pelo “poder expulsivo de uma nova afeição.”
Um terceiro aspecto da peregrinação é um senso de direção, um objetivo, um ponto final. A jornada tem um destino. O cristianismo oferece um shalom, a sensação de ser completo e pleno. Os cristãos sabem quem são e para onde estão indo. A ausência de Cristo torna a vida marcada pela deriva e pela falta de propósito.
Os cristãos “atentam” por coisas “que não se veem” (2 Co 4:18, onde o verbo grego “atentar” sugere um olhar intenso e fixo). Parece um paradoxo: procuramos algo que não pode ser visto. A glória aguarda, e os peregrinos cristãos mantêm uma disciplina constante, mas determinada, de olhar para frente. O que está por vir enche nossa visão e nos mantém expectantes. O que aguarda os peregrinos constantes supera as expectativas e desafia a explicação.
“Sigamos adiante! Para Nárnia e para o Norte!” é uma declaração no conto de Nárnia de C. S. Lewis, O cavalo e seu menino. Todos os peregrinos da cruz concordam: sigamos adiante!
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

