
As provações, tentações e testes de Jesus
março 31, 2025Caminhar por provações, tentações e testes

Nota do editor: Este é o décimo primeiro de 18 capítulos da série da revista Tabletalk: Provas, tentações e o teste da nossa fé.
Nunca esquecerei a manhã depois do nascimento do meu primeiro filho. Depois de um parto seguro em casa, a parteira fez as malas e nos deixou dormir. Meu marido ficou agradavelmente surpreso com o quão bem dormimos naquela noite, e acordou disposto a encarar a paternidade e trocar uma fralda. Foi nesse momento que percebemos que, em todo o nosso planejamento inicial dos nove meses anteriores, não havíamos comprado nem um pacote de lenços umedecidos.
A preparação é fundamental, quer estejamos a receber um recém-nascido ou a querer ter o jantar pronto até às 17h30. A vida cristã não é exceção. Provas, testes e tentações de todas as formas e tamanhos são inevitáveis deste lado do céu. Todos os dias, somos confrontados com a realidade de que somos criaturas caídas que vivem em um mundo caído de máquinas de lavar louça quebradas, demência e o fardo diário de nossos próprios pecados restantes. Sem mencionar que temos um inimigo que está ferozmente decidido a nos impedir do menor crescimento na piedade ou do menor deleite em Deus. Para muitos de nós, essas realidades não são uma surpresa chocante. A pergunta é: o que estamos fazendo para nos preparar?
Em sua primeira epístola, Pedro escreve aos cristãos que sofrem perseguição. Eles são “contristados por várias provações” que testam bastante sua fé (1 Pe 1:6). A dificuldade envolve mais do que perseguição externa. Afinal, terão que responder a essa perseguição, e o pecado restante sem dúvida os tentará a pensar, falar e agir de maneira profana. Na verdade, estão em grande dificuldade. Curiosamente, Pedro não passa a maior parte do tempo dando explicações sobre o porquê das provações estarem acontecendo ou conselhos sobre como escapar delas. Em vez disso, ele lembra seus leitores sobre o que é verdade no evangelho e lhes ensina como ser santos ao seguir os passos de Cristo. Pedro não escreve com o objetivo de libertar seus leitores das provações; ao contrário, ele age para ajudá-los a estarem prontos.
Essa é uma distinção importante. A prontidão do cristão não é uma tentativa de ser soberano, de prever e evitar todas as situações que podem causar dor ou frustração. Nós nos preparamos para provações e testes não para que não haja nenhum; nos preparamos para que, quando vierem, sejamos mais propensos a responder de uma forma sensata e firme, em vez de pecaminosa e míope. Em outras palavras, a preparação não impede que nossas circunstâncias sejam difíceis, porém ajuda a tornar nossa resposta mais piedosa.
É exatamente isso que Pedro deseja transmitir para seus leitores:
Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo […] segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento (1 Pe 1:13, 15).
Pedro está chamando seus leitores para um “sofrimento sóbrio”, uma prontidão que começa com um pensamento bíblico claro e termina em conduta santa. Suas mentes não podiam ser confundidas por meias verdades e emoções impulsivas. Não é isso que as provações costumam fazer com nossas mentes? Precisamos colocar nossas mentes para trabalhar, mas nossas circunstâncias dolorosas ou ameaçadoras e os padrões de pensamento e emoções que evocam dificultam que pensemos e respondamos da maneira que deveríamos. Porém um cristão preparado vive em alerta e sobriedade bíblica. Sua mente é organizada e capaz de avaliar e responder a uma situação segundo a verdade.
A prontidão mental sóbria não é algo que pode ser cultivado da noite para o dia. Não é algo que podemos alcançar por meio de nossos esforços, contudo é algo que o Espírito Santo deve formar em nós. Isso não significa que devemos ficar de braços cruzados e não fazer nada. Deus nos entregou meios simples e diretos de graça para nos ajudar em nossa jornada cheia de aflições em direção ao céu. Colocar esses meios em uso todos os dias nos ajuda a desenvolver uma mente — e uma vida — ancorada nas realidades celestiais, para que estejamos preparados para enfrentar provações e tentações quando elas surgirem.
Culto privado
Ler, estudar, memorizar e meditar na Palavra de Deus são as armas mais poderosas que o crente possui. Quer estejamos enfrentando uma tentação conhecida ou tropeçando em uma provação inesperada, a Escritura é um farol de luz que nos guia através de águas escuras e nos ajuda a chegar ao porto desejado.
Às vezes, nosso pensamento em meio à provação está “no caminho certo”, no entanto, precisamos de mais compreensão. Quando eu tinha quinze anos e estava perdendo a audição devido a uma doença neurológica que acabaria me deixando surdo, comecei a imaginar Deus atirando flechas em mim, considerando-o como alguém que remove gradualmente tudo o que mais amo. Isso provocou uma relação com Deus marcada por altos e baixos emocionais durante um período. Em certo sentido, meu entendimento estava correto. A mão de Deus estava na circunstância dolorosa. Ele tirou coisas. Porém o mero conhecimento da soberania de Deus não seria suficiente. Se quisesse sair ileso deste julgamento, precisava perguntar: o que mais é verdade? Qual é a Sua vontade em relação a mim? Como Satanás se encaixa nisso? Devo esperar que Deus me cure soberanamente?
Deus é soberano, o pecado permanece e o sofrimento deve ser esperado deste lado do céu. Verdade, mas tem mais. Submergir-nos na Palavra de Deus (e em livros sólidos que a explicam) expande e, quando necessário, corrige nosso entendimento.
Um dos exemplos mais claros de uma “mente preparada” nas Escrituras é a tentação de Jesus no deserto. Quando Satanás tentou distorcer a Palavra de Deus, Jesus precisava saber naqueles momentos o que mais era verdade. E Ele sabia. A Palavra de Deus estava guardada em Seu coração, e uma compreensão correta dela era uma arma eficaz em tempos de tentação. Paulo afirma em 1 Coríntios 10:13 que em tempos de tentação, Deus “vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar”. Muitas vezes imaginamos esse “livramento” como uma força externa nos agarrando pelos ombros e nos afastando da tentação. Na maioria das vezes, o livramento que Deus pretende não é um resgate extraordinário, porém uma rápida lembrança das Escrituras, que o Espírito Santo usa com poder para nos ajudar a permanecer firmes.
À medida que nossas mentes são treinadas e controladas pela verdade bíblica, isso afeta a maneira como oramos. A liberdade de nos aproximarmos do trono de Deus e derramar nossos corações diante dEle é um grande conforto quando estamos imersos nas provações da vida. Contudo, se não tomarmos cuidado, nossas orações carregadas de emoção podem acabar nos fazendo tropeçar, quando deveriam estar nos ajudando a permanecer firmes. Muitas vezes somos atraídos pelas orações de Davi nos Salmos e pela honestidade que ele expressou para com Deus em seus momentos mais difíceis. Ele não era estoico e nem tinha um sorriso falso estampado no rosto. Mas as orações de Davi eram mais do que declarações honestas de como ele se sentia ou do que desejava. Eram declarações honestas e sóbrias da verdade, principalmente sobre o caráter e os caminhos de Deus. A verdade — não o sentimento — teve a última palavra. Quando uma mente imersa nas Escrituras molda cada vez mais nossas orações fervorosas, a comunhão com Deus se torna um lugar seguro de louvor, confiança e conforto, em vez de uma pedra de tropeço de expectativas antibíblicas e palavras ditas apressadas.
Culto público
Nem sempre desejo estar na igreja aos domingos. Ser surdo significa que o sermão será lido como legendas no meu celular, o canto será silencioso e a comunhão será cansativa na melhor das hipóteses e estranha na pior. Entretanto, Deus escolheu que eu fosse esposa de pastor, então costumo comparecer. À medida que enfrentei o desafio desta doença neurológica nas últimas duas décadas, uma das maiores tentações foi me isolar do corpo de Cristo. Eles não entendem. É muito estranho. Não posso nem participar. Isso pode ser mais confortável, mas nunca foi tão proveitoso. Deus nos deu o dom da adoração corporativa com o corpo de Cristo como um meio valioso de encorajamento, crescimento e fortaleza para nos encorajar em direção ao céu.
Quando damos prioridade à participação e à frequência regular em uma igreja biblicamente fiel, temos uma oportunidade semanal de desenvolver nossa prontidão mental sóbria enquanto absorvemos os vários elementos do culto, em especial, a pregação. Nos dedicar à adoração no Dia do Senhor também serve como um lembrete humilhante — por mais doloroso que seja — de que Deus, não eu, está no centro de todas as coisas. Há algo maior acontecendo do que minha própria luta, e preciso dessa verdade para reorientar meus pensamentos.
Uma coisa é sentar no banco e ficar ali até a bênção final, mas outra coisa é ir até a sala de café e procurar pessoas para confraternizar. A comunhão é complicada, pois envolve pessoas, e elas são complicadas porque são pecadoras. Nos comunicamos mal, ficamos ocupados e esquecemos das necessidades, além de conversar sobre o clima logo depois de ouvir um sermão sobre a Trindade. No entanto, nosso Deus que opera milagres usa até mesmo essa parte confusa da adoração corporativa para fortalecer nossas almas e endireitar nosso pensamento, quando ficar em casa nos deixaria em um lugar de desânimo e desespero. Faríamos bem em orar nas manhãs de domingo: “Senhor, me ajuda a ouvir com paciência e a falar com cuidado. Usa as interações que tenho hoje para me tornar e aos outros mais piedosos na próxima semana.”
Rumo à nossa perseverança
A vida cristã é um caminho estreito de sofrimento e santificação, e cultivar uma prontidão sóbria nos impede de nos desviar do caminho quando ele se torna especialmente difícil. Aqueles que estão longe de Cristo se perguntam por que nos esforçamos para permanecer no caminho. Talvez às vezes estejamos nos perguntando a mesma coisa. A realidade é que às vezes o caminho continua difícil e não há fim para o sofrimento. A dor é crônica, o relacionamento continua tenso e a superação desse pecado é dolorosamente lenta. Por que continuar?
Talvez os leitores de Pedro estivessem fazendo a mesma pergunta, e ele não deixa de responder: sofrer de forma sóbria significa suportar a dor com a esperança clara do que está por vir. De fato, esse é o padrão que vemos em todas as Epístolas do Novo Testamento. Em todas as suas preocupações sobre o presente, os escritores estavam, em última análise, visando o retorno de Cristo, a renovação da criação e a glorificação do crente. Cada mandamento, cada encorajamento do evangelho, cada repreensão e afirmação, cada explicação do caráter e dos caminhos de Deus, em todos esses aspectos, o objetivo final não é uma vida cristã feliz na Terra, mas uma vida eterna e vindoura com Cristo no céu. Essa é a feliz perspectiva do cristão: o evangelho no qual cremos agora pela fé se tornará visível naquele dia. Veremos os braços abertos do Pai e nos curvaremos diante das mãos marcadas pelos pregos de Cristo. A santidade que buscamos agora será aperfeiçoada e, ao fixarmos nosso olhar na santidade perfeita de Cristo, “seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” (1 Jo 3:2).
Este artigo foi publicado originalmente na TableTalk Magazine.