
O consolo que há nas orações de Jesus
maio 18, 2026O consolo que há nas orações de Jesus
Dezoito anos atrás, meu queixo caiu figurativamente no chão enquanto estava sentado no primeiro curso de Antigo Testamento da minha carreira acadêmica. Frequentei uma universidade secular, então não esperava muito ensino bíblico verdadeiro. No entanto, tinha esperança de que as Escrituras fossem tratadas de forma justa, porque meu professor era um judeu ortodoxo. Você pode imaginar minha surpresa, então, quando meu professor disse que os antigos israelitas fiéis não negavam a existência de outros deuses. Adoravam Yahweh acima dos outros deuses, ele comentou, mas acreditavam que esses deuses eram reais.
Os círculos liberais “altamente críticos” aceitam como dogma a visão do meu professor, que é o henoteísmo. O verdadeiro monoteísmo — a crença de que existe apenas um Deus — surgiu mais adiante na história de Israel, expressam esses críticos. A defesa do henoteísmo se baseia amplamente na leitura de referências a “outros deuses” no Pentateuco como prova de que Moisés atribuía existência verdadeira às divindades de outros povos, porém acreditava que Israel deveria adorar apenas a Yahweh (p. ex., Êx 20:3).
A erudição incrédula deve se concentrar em minúcias e ignorar contextos mais amplos para “encontrar” o henoteísmo nas Escrituras. Que Moisés afirmou a existência de apenas um Deus é claro desde o primeiro capítulo do Pentateuco. Ao contrário de outros relatos de criação do antigo Oriente Próximo, não lemos que batalhas entre divindades deram origem à terra. Gênesis 1 apresenta um Deus que “criou […] os céus e a terra” (Gn 1:1). Yahweh, o único ator na narrativa, formou o universo por Sua Palavra.
Dada a prevalência do politeísmo no antigo Oriente Próximo, os autores bíblicos insistem várias vezes que há apenas um Deus. Logo antes do Shema e sua afirmação do monoteísmo, lemos que “só o Senhor é Deus […] nenhum outro há” (Dt 4:39). Apenas Yahweh responde no confronto entre Elias e os profetas de Baal, pois Yahweh existe e Baal não (1 Rs 18:20-40). Isaías diz: “Além de mim não há Deus” e aponta a insensatez de servir a divindades representadas por ídolos de madeira (Is 44).
Os apóstolos proclamaram o monoteísmo de forma mais enfática quando encontraram o paganismo grego. Paulo continua a negação do AT da existência de outros deuses em Rm 1, e explica que o politeísmo surge à medida que as pessoas suprimem seu conhecimento do único Deus verdadeiro e criam divindades que podem manipular (Rm 1:18-23). O mesmo apóstolo lembra a Timóteo, que ministrava em um contexto pagão, que “há um só Deus” (1 Tm 2:5). Ao longo de Apocalipse, João destaca a futilidade da religião romana, e descreve a eventual queda de qualquer pretendente ao trono do Senhor Todo-Poderoso.
O único Deus que se revela à Sua criação sustenta o monoteísmo bíblico. De que adiantaria saber que um Deus existe sem saber mais nada sobre Ele? Esta divindade estaria funcionalmente ausente, nos deixaria por nossa conta para descobrir Sua vontade, se Ele sequer se importasse que a seguíssemos. No entanto, o Deus das Escrituras se revela, de fato, Ele deve se revelar se quisermos conhecê-lo. Esta revelação vem através da própria criação (Sl 19; Rm 1:18-32), mas o conhecimento salvífico do Criador é possível apenas através da revelação especial que é a Bíblia (Mt 11:27; 2 Tm 3:16-17).
E então?
O monoteísmo bíblico não é mera especulação abstrata, contudo, tem pelo menos quatro consequências práticas para a vida e o ministério:
Certeza: Deus se revela de forma clara e verdadeira, portanto, não somos deixados a adivinhar o que Ele espera de nós. As pessoas modernas com frequência se veem como “buscadores” fazendo o melhor para entender Deus. No entanto, mera conjectura é uma base instável para o destino eterno de alguém.
Coragem: os cristãos ocidentais ainda não estão sendo lançados aos leões. Entretanto, se algum dia enfrentarmos um sofrimento sério, não perseveraremos se não estivermos convencidos de que o Deus das Escrituras é o único Deus. Negaremos Cristo ao primeiro sinal de problema se vacilarmos no fato de que um Deus significa um Salvador para o mundo. Sem essa base, nos curvaremos ao relativismo religioso. O compromisso de Daniel com o monoteísmo o fortaleceu para resistir ao paganismo. Pela graça de Deus, seguimos o seu exemplo. Não tememos o que nossos inimigos podem fazer aos nossos bens, parentes ou vidas mortais, pois se há apenas um Deus e estamos do Seu lado, a perseguição é apenas uma “leve e momentânea tribulação” comparada ao “eterno peso de glória” que nos está reservado (2 Co 4:7-18).
Convicção: convicção e coragem são inseparáveis e mutuamente dependentes. A coragem nos permite perseverar no amor pelo único Deus verdadeiro. A convicção nos permite ter uma postura mesmo antes que os problemas surjam em nosso caminho. Se a nossa fé está fundamentada no fato de que há apenas um Deus e, portanto, uma verdade, então nossa pregação, ensino, evangelismo e envolvimento cultural serão fortes. Confrontaremos as fortalezas da humanidade caída, e o Espírito usará nossas palavras para abrandar os corações dos pecadores. A igreja precisa com urgência de homens e mulheres de convicção piedosa. Tal convicção começa com um compromisso inabalável com o monoteísmo bíblico.
Clareza: compreender o monoteísmo bíblico nos ajuda a ser claros sobre o que acreditamos e o que devemos ensinar. Não acreditamos em um Deus que é conhecido por muitos nomes e que oferece muitos caminhos de salvação. Não afirmamos que basta acreditar que um Deus existe. Confessamos que devemos confiar no Deus da Bíblia, que não é adorado nem pelos muçulmanos mais bem-intencionados, nem pelos mórmons, testemunhas de Jeová, animistas ou judeus modernos.
Não é unitarismo
Quanto à clareza, o monoteísmo bíblico não é unitarismo. A plenitude do testemunho do Shema sobre a unicidade de Deus está no ensinamento da Bíblia de que Sua unicidade não é uma unidade sem distinções. A sua unicidade diz respeito à sua essência divina, contudo, esta única essência divina é compartilhada plena e igualmente por três pessoas distintas. Pai, Filho e Espírito Santo são plenamente e igualmente divinos, porém o Pai não é o Filho, e o Filho não é o Espírito Santo (Jo 1:1; Jo 14:16-17; 2 Co 13:14).
A salvação é obra do Deus triúno. O Pai envia o Filho; o Filho expia o pecado; e o Espírito Santo aplica essa expiação a nós. O Espírito Santo regenera Seu povo; assim, confiam apenas no Filho; e o Filho apresenta o reino dos eleitos do Senhor ao Pai “para que Deus seja tudo em todos” (Jo 3:5, 16; 1 Co 15:20-28; Hb 1:1-4).
Não precisamos ter uma compreensão plena sobre a Trindade para sermos salvos. Tal compreensão é impossível para as criaturas. Mas, como afirma o Credo de Atanásio, ninguém pode ser salvo se negar que adoramos um Deus em Trindade, e Trindade em Unidade.
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

