
Quem foi Apolo?
julho 1, 2026Quem foram Ananias e Safira?
No início do capítulo 5 de Atos, Ananias e Safira aparecem na presença do apóstolo Pedro. Lucas, o autor de Atos, já explicou que, devido ao derramamento do Espírito Santo e ao trabalho dos apóstolos, a igreja primitiva estava crescendo em número e fé (At 2:41; 4:32). De fato, esse crescimento era tão poderoso e genuíno que os cristãos estavam compartilhando seus bens uns com os outros, vendendo ativos e confiando os fundos à discrição dos apóstolos (At 4:34-35). Lucas até dá o exemplo de Barnabé, natural da ilha de Chipre, que vendeu um campo e colocou todo o valor obtido aos pés dos apóstolos. Barnabé acabou alcançando relativa proeminência na igreja primitiva e acompanhou Paulo a Antioquia e em sua primeira viagem missionária (At 11:25-26; 13:2-3).
Não querendo ficar de fora, Ananias e Safira também colocaram uma oferta financeira aos pés dos apóstolos (At 5:2). Os dois possivelmente foram motivados pela oportunidade de impressionar a comunidade cristã e ganhar uma posição de destaque como Barnabé. Porém, qualquer que fosse a intenção deles, é evidente que sua oferta não foi motivada por uma fé genuína. Lucas explica que, assim como Barnabé, este casal vendeu uma propriedade, mas trouxeram apenas uma parte do valor em vez da quantia total. A questão não era que os apóstolos exigiam que o casal esvaziasse toda a sua conta bancária, mas sim que Ananias e Safira insinuaram que tinham feito a mesma coisa que Barnabé, quando, na verdade, secretamente “retiveram” uma parte do preço para si mesmos (At 5:2).
Pedro percebeu de imediato essa enganação e confrontou a intenção maligna de Ananias, motivada pelo próprio Satanás (At 5:3-4). Com este pronunciamento apostólico de juízo, Ananias caiu morto no chão (At 5:5-6). Pouco depois, Safira apareceu, e Pedro a testou perguntando quanto eles receberam pela propriedade. Quando ela mentiu na sua cara, também caiu morta como seu marido, o que chocou toda a igreja (At 5:7-11).
O relato de Ananias e Safira é uma passagem bíblica importante por pelo menos três razões.
1. Este evento revela a seriedade da enganação maliciosa, especialmente entre o povo de Deus.
Esta história de Ananias e Safira faz alusão a Josué 7. Após a queda de Jericó, Acã, um israelita, “reteve” (esta mesma palavra é usada na Septuaginta, a tradução grega do AT) uma parte dos despojos de Jericó e escondeu-a debaixo de sua tenda (Js 7:1, 21). Após esse movimento astuto, Israel entrou em batalha contra Ai, e o exército israelita foi derrotado (Js 7:4-6). Deus revelou o pecado de Acã e ele e sua família foram mortos (Js 7:7-26). As Escrituras constantemente fazem severas advertências sobre este tipo de engano malicioso, (veja Ex 20:16; Pv 12:22; Zc 8:16; Ef 4:15; Tg 5:12) pois muitas vezes revela uma falta de fé genuína (Sl 5:6; 1 Jo 1:6; Ap 21:8) e prejudica o testemunho do povo de Deus no mundo (Sl 15:2-3; Mt 5:16). O povo de Deus não pode servi-lo quando suas vidas se encontram baseadas no engano. Talvez seja por isso que Paulo afirma que aqueles que estão em submissão à autoridade não devem “reter” nada para si mesmos com intenção egoísta, mas devem mostrar boa fé para adornar sua confissão piedosa com prática piedosa (Tt 2:10).
2. O relato de Ananias e Safira assume que todo pecado é, em última análise, pecado contra Deus.
Quando Ananias tentou enganar Pedro, o apóstolo disse que Ananias não havia mentido aos homens, mas ao Espírito Santo (At 5:4). Da mesma forma, quando Natã confrontou Davi sobre o assassinato de Urias e o roubo de sua esposa, Davi exclamou: “Pequei contra o Senhor” (2 Sm 12:13), e clamou a Deus: “Pequei contra ti, contra ti somente” (Sl 51:4). A situação oposta também se aplica. Quando fazemos o bem aos outros, fazemos o bem ao Senhor (Mt 25:40). Esta é uma das razões pelas quais Martinho Lutero argumentou que uma obra só pode ser “boa” se for feita com fé e para a glória de Deus. Toda outra obra é, em essência, feita contra o Senhor e para a nossa glória.
3. Neste relato, Deus interrompe Seu padrão normal de misericórdia para lembrar Seu povo de que eles não a merecem.
No início de Atos, o Espírito Santo foi derramado sobre os apóstolos, isso resultou em uma fala miraculosa que levou à salvação de três mil almas (At 2:1-12, 41). Também observamos que o mesmo Espírito curou um coxo através de Pedro e João na porta do templo (At 3:1-10). Contudo, agora vemos o Espírito de Deus como um instrumento de juízo, que causa a destruição da morte sobre os pecadores, todos os quais não merecem nada além desse tipo de destruição (Rm 6:23). Uma interrupção súbita e chocante na narrativa trouxe grande temor sobre toda a igreja (At 5:11). Desta forma, reconhecemos que o mesmo Espírito, de fato, o mesmo Deus triúno, é um Deus tanto de ira quanto de misericórdia. O que distingue Ananias de Pedro? E Acã de Davi? Por que um morre, porém o outro vive? Por que um recebe ira e outro misericórdia? Este mesmo Espírito nos diz que é o dom divino da fé que distingue aqueles que recebem ira daqueles que recebem misericórdia (Ef 2:1-10).
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

