O verdadeiro pastoreio

junho 26, 2026

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Por que Jesus instituiu a Ceia do Senhor na Páscoa?

Quando o livro de Êxodo começa, Israel está no Egito há mais de quatrocentos anos (cf. Êx 12:40). Eles estão agora sob a escravidão de um faraó opressor. Os primeiros capítulos de Êxodo descrevem o chamado de Moisés para ser aquele que libertará o povo de Deus da escravidão no Egito. Ele se apresenta diante do faraó exigindo que Israel seja permitido ir e adorar o Senhor, mas o faraó se recusa. Deus então envia uma série de pragas cada vez mais severas sobre o Egito. A teimosia do faraó diante das primeiras nove pragas resulta na declaração divina de uma praga final que resultará na redenção de Israel da escravidão. Deus avisa que Ele entrará no Egito e que todo primogênito no país morrerá. É no contexto do aviso desta praga final que encontramos as instruções de Deus sobre a Páscoa em Êxodo 12.

Ele começa com uma declaração indicando que a Páscoa e o Êxodo marcarão um novo começo para a nação de Israel. O mês de Abibe (final de março e início de abril) deve ser o primeiro mês do ano para o povo de Deus. Isso enfatiza o fato de que o êxodo do Egito é um evento chave, um ponto de virada, na história redentora. Tão central é o acontecimento que, a partir desse ponto, com frequência, Deus é descrito a partir do contexto do êxodo (p. ex., Êx 20:2; Lv 11:45; Nm 15:41; Dt 5:6; Js 24:17; Jz 6:8; 1 Sm 10:18; 2 Rs 17:36; Sl 81:10; Jr 11:4; Dn 9:15; Os 11:1; Am 2:10). Ele se identifica como Aquele que redimiu Seu povo da escravidão.

Nos anos posteriores, a observação da Páscoa envolveria o sacerdócio (cf. Dt 16:5-7), mas na noite da Páscoa original, a responsabilidade por esta cerimônia recai sobre o chefe de cada família. O chefe de cada família deve tomar um cordeiro macho de um ano de idade e sem qualquer defeito. Esse cordeiro substitutivo deve ser um símbolo de perfeição. Como tal, ele prefigura o verdadeiro Cordeiro de Deus, Jesus Cristo, quem não tinha qualquer imperfeição (cf. 1 Pe 1:19). Ao crepúsculo, o cordeiro de cada família deve ser sacrificado.

O Senhor então revela o que os israelitas devem fazer com os cordeiros abatidos e por que devem fazê-lo. Cada chefe de família deve pegar o sangue do cordeiro e colocá-lo nos batentes e na verga da porta de sua casa. Deus explica que o sangue será um sinal. Quando Ele observar o sangue na porta, passará por cima daquela casa, e o primogênito nela será poupado do julgamento iminente que cairá sobre o Egito. Depois que os cordeiros são mortos pelo chefe da família, devem ser assados e comidos com as pessoas vestidas e preparadas para partir a qualquer momento. Como a Páscoa é um “sacrifício” (cf. Êx 12:27; 34:25; Dt 16:2), comer o cordeiro é uma refeição sacrificial semelhante àquela associada à oferta de paz descrita em Levítico 3 e 7. Em tais refeições, o corpo da vítima sacrificial é oferecido aos crentes para comerem após o sacrifício ser feito (Lv 7:15).

Em Êxodo 12:14-20, Deus revela como as futuras gerações de israelitas devem observar a Páscoa. O êxodo do Egito deve ser comemorado na Festa dos Pães Asmos de sete dias, que se inicia com a observância da Páscoa. O povo deve sempre se lembrar de sua escravidão no Egito e do ato de redenção de Deus ao libertá-los dessa servidão. Por tanto, a Páscoa deve ser observada ao longo de suas gerações.

Êxodo 12:21-28 contém as instruções de Moisés ao povo sobre a Páscoa e a resposta do povo. Moisés instrui o povo a marcar as portas usando hissopo, uma planta que mais tarde será usada em conexão com vários rituais de purificação (cf. Lv 14:49-52; Nm 19:1819). Embora alguns estudiosos tenham negado que a Páscoa seja um sacrifício, Moisés se refere especificamente a ela como tal em Êxodo 12:27. Ainda que nenhum pecado específico seja mencionado, o sangue do cordeiro afasta a ira de Deus. Aqui novamente a Páscoa prefigura a obra redentora de Cristo (1 Co 5:7). A décima e última praga cai sobre o Egito exatamente como Deus advertiu através de Moisés e Arão, e os primogênitos em toda a terra são mortos. Apenas aqueles cobertos pelo sangue do cordeiro são poupados. Como resultado desta última praga, Faraó finalmente cede e ordena que Moisés e os israelitas partam. O início do próprio êxodo se descreve em Êxodo 12:33-42. Agora fica evidente por que Deus ordenou que estivessem prontos para partir às pressas. Os egípcios querem que os israelitas saiam de imediato e os instam a partir. Os israelitas saqueiam os egípcios de sua prata e ouro, e após 430 anos, começam a jornada deixando o Egito em direção à terra prometida.

Nossa breve pesquisa de Êxodo 12 revela vários fatos importantes sobre a Páscoa. O sangue do cordeiro pascal distinguia o povo de Deus dos egípcios incrédulos, e a observação da Páscoa era um sinal de fé nEle. A Páscoa também marcou a redenção de Israel da escravidão no Egito. Comemorava o nascimento de Israel como nação. Ao longo de todas as gerações de Israel, a Páscoa deveria ser um memorial do grande ato redentor de Deus. Também deveria ser uma oportunidade de ensino para os pais israelitas, que deveriam explicar seu significado aos seus filhos.

Nos livros proféticos posteriores do Antigo Testamento, o êxodo seria visto como o ato paradigmático de redenção. Quando os profetas consideravam a futura obra de redenção de Deus, comparavam ela ao êxodo original e falavam sobre ela em termos de um novo e maior êxodo. Vemos essa linguagem, por exemplo, em Isaías 52:11-12, quando Deus ordenou a Israel que partisse da Babilônia usando uma linguagem que lembrava a usada em conexão com o êxodo original do Egito. No final do Antigo Testamento, os israelitas aguardavam ansiosamente um novo e maior êxodo.

No início dos Evangelhos, não é coincidência que se vejam muitos paralelos entre Jesus e Moisés e entre Jesus e Israel. Jesus foi até levado para o Egito, para retornar apenas após a morte de Herodes. Diz-se que isso ocorreu “para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor, por intermédio do profeta: Do Egito chamei o meu Filho” (Mt 2:15). O decreto de Herodes para matar todos os meninos em Belém é um eco horrível do decreto do Faraó para matar todos os meninos dos israelitas (Mt 2:16; cf. Ex 1:15-22). Os comentaristas debatem ainda mais paralelos, porém o objetivo dos paralelos é comunicar ao leitor que o tão esperado tempo de redenção estava próximo. O novo êxodo profetizado estava perto.

Por que, então, Jesus instituiu a Ceia do Senhor na Páscoa na noite anterior à Sua crucificação? Em primeiro lugar, porque Ele é o cumprimento de tudo o que foi prefigurado pelo cordeiro pascal. Para aqueles que depositam sua fé nEle, Seu sangue, o sangue da nova aliança, aplaca a ira de Deus. Em segundo lugar, é porque a Última Ceia foi a véspera do maior ato de redenção da nova aliança profetizado, o ato prometido de redenção que os profetas descreveram em termos de um novo êxodo, e assim como o primeiro êxodo foi precedido pela instituição da Páscoa, o maior novo êxodo foi precedido pela instituição da Ceia do Senhor. Jesus instituiu a Ceia do Senhor naquela noite para significar que o novo êxodo estava prestes a começar. Este ato indicou que o tempo da redenção havia chegado.


Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

Keith A. Mathison

Keith A. Mathison

O Dr. Keith A. Mathison é professor de Teologia Sistemática no Reformation Bible College em Sanford, Flórida. Ele é autor de vários livros, incluindo The Lord’s Supper [A Ceia do Senhor] e From Age to Age [De era em era].