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julho 12, 2026A verdadeira natureza da reclamação
O que é a reclamação?
Recentemente, tentei refletir sobre por que tenho tanta tendência a reclamar. O Dicionário Michaelis define reclamar como “ato ou efeito de opor-se por meio de argumentos; protesto; queixa.” Não sou o primeiro a lutar contra esse pecado. Tem sido uma realidade constante para o povo de Deus.
A primeira ocorrência de reclamação na Bíblia está em Êxodo 15:24. O povo recém-redimido de Deus tinha acabado de entoar com alegria cânticos de louvor ao Senhor:
O Senhor é a minha força e o meu cântico;
ele me foi por salvação;
este é o meu Deus; portanto, eu o louvarei;
ele é o Deus de meu pai; por isso, o exaltarei (Êx 15:2).
Apenas três dias depois, eles reclamaram contra Moisés no deserto, ao dizer: “Que havemos de beber?” (Êx 15:24). O leve murmúrio que começa em Êxodo 15 se converte em um turbilhão de queixas no capítulo seguinte. Em Êxodo 16, os versículos 2, 7-9 e 12 fazem referência à reclamação do povo, que evolui de queixas contra Moisés para queixas “contra o Senhor”. Em Números 14-17 vemos o mesmo padrão: o povo reclama contra Moisés e Arão e sobre sua situação, porém quando Deus os aborda, Ele afirma que sua reclamação é na verdade contra Ele.
Quando o povo do Senhor perdeu de vista quem Deus era, o que Ele havia feito e como Ele havia providenciado, eles não demoraram a reclamar, um comportamento que repetiam com frequência.
A reclamação reaparece nos Evangelhos quando os fariseus e os escribas (aqueles líderes considerados justos e piedosos na sociedade) murmuraram ao ver Jesus recebendo e comendo com publicanos e pecadores (Lc 5:30; 15:2; 19:7). O povo judeu reclamou sobre o Seu ensinamento: “Eu sou o pão que desceu do céu” (Jo 6:41-42). Esta é uma imagem espelhada do povo de Israel reclamando no deserto. Os discípulos seguiram o exemplo, reclamaram entre si que o ensinamento de Jesus era muito difícil (Jo 6:60), e a partir desse momento, muitos se afastaram dEle (Jo 6:66). Nos Evangelhos, a reclamação revela um coração de incredulidade.
O perigo da reclamação
Quando chegamos às Epístolas do Novo Testamento, há comandos a serem obedecidos, imperativos a serem seguidos: “Fazei tudo sem murmurações” (Fp 2:14), “irmãos não vos queixeis uns dos outros, para não serdes julgados” (Tg 5:9), “sede, mutuamente, hospitaleiros, sem murmuração” (1 Pe 4:9), e “nem murmureis, como alguns deles murmuraram e foram destruídos pelo exterminador” (1 Co 10:10). Os escritores do Novo Testamento reconhecem o óbvio perigo da reclamação e não hesitam em nos instruir a evitar esse perigo.
O gêmeo maligno da reclamação é o descontentamento. Recusar-se a reconhecer a providência de Deus, que Ele está soberanamente no controle da minha vida de tal forma que as circunstâncias que enfrento não são um destino aleatório, levará ao descontentamento. O descontentamento inevitavelmente leva à reclamação e vice-versa. Andam de mãos dadas e também são contagiosos.
Falei em um acampamento de jovens há alguns anos. Era quase o final da semana e todos estavam cansados. No meio da minha pregação, vi um dos jovens se virar deliberadamente para seu amigo e bocejar, e seu amigo respondeu em segundos bocejando sem querer. Vi dezenas de jovens à minha frente largando suas canetas para bocejar. Houve uma reação em cadeia. Só parou quando apontei e disse para eles pararem de bocejar. Mesmo enquanto escrevo sobre isso, me pego bocejando, e você pode sentir vontade de bocejar ao ler essa história.
Deve haver alguma explicação psicológica, mas bocejar é contagioso. O mesmo acontece com a reclamação e o descontentamento. Acontece em um casamento, em famílias e, sem dúvida, também em congregações. Infelizmente, um pouco de reclamação pode ter grandes consequências.
Perceber a verdadeira natureza da reclamação nos ajuda a lidar com ela. Minha reclamação não é apenas contra os outros ou contra as circunstâncias, senão contra o Senhor. Não é algo insignificante.
Achei útil pensar no que o Senhor Jesus suportou. Ele foi tantas vezes mal compreendido, abominavelmente maltratado e difamado. Suas palavras foram distorcidas contra Ele. Ele foi questionado, negado e traído, até mesmo por Seus seguidores mais próximos. Houve falsas alegações e insinuações contra Ele. Os poderosos se opuseram a Ele com amargura. Ele conheceu uma profunda solidão. Não tinha onde reclinar a cabeça. Teve que pedir emprestada uma moeda para uma ilustração. Ele era um homem de dores, familiarizado com o sofrimento. “Ao suportar vergonha e zombaria rude”, Ele não reclamou. Não há palavras registradas de Seu descontentamento ou murmuração.
Ao olharmos para Jesus em busca de força e ajuda, vemos nEle o Homem perfeito. Nossa fé e esperança estão nEle. É somente nEle que encontramos o poder para mudar.
A gratidão afasta a reclamação
O Salmo 103:2 nos diz:
Bendize, ó minha alma, ao Senhor,
e não te esqueças de nem um só de seus benefícios.
Me esqueço tão facilmente de quem Deus é, do que Ele fez e de como Ele tem providenciado para mim em Jesus. Reconhecer que nossa reclamação é pecaminosa, levá-la a Deus, confessá-la e reconhecer que precisamos da ajuda e força do Espírito Santo para lidar com isso é como podemos nos libertar da espiral mortal de reclamação e descontentamento.
Acho também que podemos ajudar uns aos outros. Se reclamar é contagioso, como bocejar, e só é interrompido quando o reconhecemos e o confrontamos, então podemos chamar a atenção uns dos outros de forma gentil e com amor, e reconhecer que todos nós precisamos da graça de Deus nesta área. É interessante que as instâncias de reclamação registradas na Bíblia são coletivas: Israel, os líderes judeus, os discípulos, e assim por diante. Precisamos ajudar uns aos outros nesta área.
Que o Senhor seja gracioso conosco e nos impeça de sermos um povo que reclama.
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

