
Quando o mundo parece estar vencendo
junho 30, 2025
Como interpretar a lei bíblica?
setembro 26, 2025Como ler as epístolas pastorais?
Nota do Editor: Este artigo faz parte da coleção sobre Hermenêutica
As três epístolas pastorais são únicas entre as treze cartas de Paulo, pois foram escritas aos colaboradores de Paulo, Timóteo e Tito, que exerciam a supervisão pastoral das igrejas. Ambos estavam lidando com falsos mestres e outras provações que tornavam os deveres pastorais desafiadores. Embora dirigidas a Timóteo e Tito, as cartas terminam com a bênção de Paulo: “A graça seja com todos vós”, sendo “vós” no grego original também plural. Portanto, elas são, em certo sentido, semipúblicas. Paulo esperava que as cartas fossem lidas para toda a igreja. Com isso em mente, vejamos quatro conselhos para ler as epístolas pastorais.
1. Leia as epístolas pastorais considerando o corpo corporativo de Cristo e sua participação nele.
Muitos cristãos hoje perderam o senso da importância da igreja. Para eles, a vida cristã é mais focada no relacionamento pessoal com Cristo do que em ser um membro ativo do Seu corpo. A preocupação de Paulo nas epístolas pastorais é com a saúde e a fidelidade da igreja. É onde Deus nutre Seu povo e fortalece sua fé. É por isso que Paulo dedica tempo para detalhar as qualificações para líderes piedosos, entre eles estão os presbíteros (1 Tm 3:1-7; Tt 1:5-16) e os diáconos (1 Tm 3:8-13). É também por esse motivo que Paulo várias vezes exorta Timóteo a se dedicar ao ministério de ensino e pregação da igreja. Uma igreja saudável requer que o povo de Deus seja alimentado com o maná da Palavra de Deus lida e pregada.
As epístolas pastorais, embora escritas para indivíduos, visam edificar a igreja de Cristo e encorajar uma vida corporativa ativa em conjunto. Isso inclui adorar juntos (1 Tm 2; 4:13), colaborar e servir juntos (2 Tm 2:21; Tt 3:1), generosidade para com os outros na igreja (1 Tm 6:17-19) e servir uns aos outros com fidelidade. Nas epístolas pastorais, Paulo apresenta a igreja como essencial para a vida cristã, não como uma ideia secundária ou adicional.
2. Reconhecer o perigo do falso ensino e a necessidade de combatê-lo.
Paulo dedica mais tempo nas epístolas pastorais combatendo falsos ensinamentos do que qualquer outro assunto. Em 1 Timóteo, ele trata de falsos mestres em três momentos ao longo da carta. De fato, no início da carta, em vez da seção padrão de agradecimento que, em geral, segue a saudação de abertura nas cartas de Paulo e que era tradicional em sua época, ele de imediato se dirige aos falsos mestres em Éfeso (1 Tm 1:3-11). Paulo volta a falar sobre os falsos mestres no cap. 4 e novamente no cap. 6. O combate aos falsos ensinamentos também é um tema importante em 2 Timóteo e Tito.
Por que Paulo combate com tanta intensidade os falsos ensinamentos, a ponto de deixar de lado as convenções sociais ao escrever suas cartas? Porque o falso ensino é uma questão de vida ou morte. A salvação e a vida eterna dependem de crer e permanecer na verdade revelada por Deus em Cristo. Portanto, Paulo considera isso como algo muito sério. Como Paulo escreve sobre o falso ensino na Galácia: “Um pouco de fermento leveda toda a massa” (Gl 5:9).
O outro lado do combate aos falsos ensinamentos é a necessidade de ensinar a verdade. Isso nos guia a um terceiro conselho para ler as epístolas pastorais.
3. Observe a centralidade do ministério da Palavra.
Paulo dá instruções para muitos ministérios da igreja, porém o que ele mais enfatiza é o ministério da pregação e do ensino da Palavra de Deus. Ele encoraja Timóteo a “aplicar-se à leitura, à exortação [pregação], ao ensino” (1 Tm 4:13). O ministério da Palavra é essencial para a fé. A fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo. Além disso, ouvir a Palavra fortalece a fé do povo de Deus. Em 2 Timóteo, Paulo exorta seu colega mais jovem a “prega[r] a palavra […] quer seja oportuno, quer não […] Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos” (2 Tm 4:2-3).
O ministério da igreja também inclui a oração corporativa: por aqueles que estão na igreja, bem como por governantes e autoridades fora dela (1 Tm 2:1-2). Abrange o ministério prático de presbíteros e diáconos. Presbíteros qualificados são necessários para cuidar espiritualmente do povo de Deus como pastores. Os diáconos são encarregados de um ministério de misericórdia, de cuidar das necessidades físicas. Embora os diáconos muitas vezes desempenham suas funções de forma discreta, sem serem vistos pela maioria na igreja, Deus dá uma promessa maravilhosa de que “os que desempenharem bem o diaconato alcançam para si mesmos justa preeminência e muita intrepidez na fé em Cristo Jesus” (1 Tm 3:13). Todos os ministérios são vitais para o funcionamento adequado da igreja, mas a Palavra é central.
4. Leia as epístolas pastorais com sensibilidade em relação ao coração de um servo piedoso de Cristo.
Ao longo da história, Paulo tem sido frequentemente retratado de forma negativa, até mesmo por muitos dentro da igreja. Uma descrição física popular de Paul é que ele era baixo, careca e tinha pernas arqueadas, um nariz grande e uma sobrancelha inteira, em geral, com cara de mau humor. Algumas descrições de Paulo o apresentam como alguém irritado e com dificuldades para conviver com as pessoas. Ele se afastou de Barnabé, o filho da consolação, e de todas as pessoas. E se recusou a dar uma segunda chance a João Marcos.
No entanto, como vemos em Atos e suas outras cartas, o amor e a compaixão de Paulo pelos outros transbordam nas epístolas pastorais. Ele se refere a Timóteo como “filho” e “meu filho amado”. Ele chama Tito de “verdadeiro filho, segundo a fé comum”. Contudo, vemos especialmente o coração de Paulo pelos outros no final de sua última carta, 2 Timóteo. Ouvimos sua tristeza por aqueles que o abandonaram. Mas também vemos seu amor por outros colaboradores e amigos, como Timóteo, Lucas e até Marcos, com quem ele evidentemente se reconciliou. As epístolas pastorais deixam claro que o profundo amor de Paulo por Cristo transborda em seu amor pelos outros.
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

