
Quem foram Ananias e Safira?
julho 3, 2026Fogo estranho
Há um acontecimento no registro bíblico que causa consternação duradoura para muitos do povo de Deus. É a história de como dois dos filhos de Arão, Nadabe e Abiú, foram fulminados de forma súbita por Deus.
Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário, e puseram neles fogo, e sobre este, incenso, e trouxeram fogo estranho perante a face do Senhor, o que lhes não ordenara. Então, saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu; e morreram perante o Senhor. E falou Moisés a Arão: Isto é o que o Senhor disse: Mostrarei a minha santidade naqueles que se cheguem a mim e serei glorificado diante de todo o povo. Porém Arão se calou (Lv 10:1-3).
Arão, é claro, era o irmão mais velho de Moisés e o primeiro sumo sacerdote de Israel. Deus havia consagrado Arão e seus filhos para a sagrada vocação do sacerdócio. Foi no contexto de seu serviço sacerdotal que dois dos quatro filhos de Arão, Nadabe e Abiú, cada um pegou um incensário, um tipo de vaso que era usado na antiguidade para conter o incenso que era queimado como oferta perante Deus, colocaram fogo neles, puseram incenso sobre eles e ofereceram o que o livro de Levítico chama de “fogo estranho.”
O que é “fogo estranho” ou, como é traduzido em outras versões, “fogo profano” ou “fogo não autorizado”? Usamos a palavra profano para nos referirmos àquilo que é menos que sagrado, porém a palavra profano vem do latim profanus, que literalmente significa “fora do templo”. Assim, em um sentido literal, Moisés, como autor de Levítico, está afirmando que o fogo que Nadabe e Abiú introduziram no altar não havia sido purificado e consagrado. Por esse motivo, Deus tirou a vida deles.
À primeira vista, parece que isso foi uma punição cruel e incomum. É evidente que esses jovens sacerdotes transgrediram alguma prescrição que Deus havia estabelecido para a oferta de incenso no lugar sagrado, mas pode não ter sido mais do que uma brincadeira ou uma inovação travessa. Era realmente necessário que Deus repreendesse sua ação de forma tão contundente?
Para entender melhor incidente, temos que voltar ao livro do Êxodo. Pouco antes de Deus entregar Seus Dez Mandamentos, Ele disse a Moisés que em breve viria a ele em uma nuvem espessa para que o povo pudesse ouvi-lo falando e acreditar (Êx 19:9). Para se preparar para essa visão impressionante, Deus ordenou que o povo se consagrasse (Êx 19:10). Ele também estabeleceu limites estritos ao redor do monte Sinai, dizendo que quem tocasse o monte morreria (Êx 19:12). Quando Deus veio, “houve trovões, e relâmpagos, e uma espessa nuvem sobre o monte, e mui forte clangor de trombeta, de maneira que todo o povo que estava no arraial se estremeceu” (Êx 19:16). Deus chamou Moisés para subir o monte. Contudo, antes de revelar Sua lei, Deus enviou Moisés de volta ao monte para repetir e expandir a advertência. Ele ordenou:
Desce, adverte ao povo que não traspasse o limite até ao Senhor para vê-lo, a fim de muitos deles não perecerem. Também os sacerdotes, que se chegam ao Senhor, se hão de consagrar, para que o Senhor não os fira (Êx 19:21-22).
Portanto, na própria formação da nação de Israel, Deus estabeleceu as leis fundamentais de consagração para os sacerdotes. Ele os advertiu de que, se não fossem consagrados ou se transgredissem sua consagração, Ele se manifestaria contra eles. Nadabe e Abiú transgrediram a santa lei do sacerdócio. Quando o fizeram, Deus os matou, o que recorda a Israel sobre a santidade de Sua presença. É por isso que Moisés lembrou a Arão: “Isto é o que o Senhor disse: Mostrarei a minha santidade naqueles que se cheguem a mim e serei glorificado diante de todo o povo. Porém Arão se calou.” Mesmo em meio ao seu luto, ele sabia que seus filhos haviam cometido uma grave ofensa contra o santo Deus de Israel.
Um aspecto da igreja moderna que mais me entristece e preocupa é que os crentes não são mais incentivados a cultivar um temor reverente por Deus. Parecemos assumir que o temor do Senhor é algo que pertencia ao período do Antigo Testamento e não deve fazer parte da vida do cristão. Entretanto o temor de Deus implica não apenas tremer diante de Sua ira, mas um senso de reverência e admiração por causa de Sua gloriosa santidade.
Mesmo que estejamos vivendo no lado consumado da cruz, o temor do Senhor ainda é o princípio da sabedoria (Sl 111:10a). Deus ainda é fogo que consome, um Deus zeloso (Dt 4:24). Quando entramos em Sua presença, devemos nos aproximar como filhos, como aqueles que foram reconciliados, porém deve haver um temor piedoso, motivado pelo respeito por Aquele com quem estamos lidando.
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

