A verdade imutável em um mundo em mudança

maio 13, 2026

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O que podemos aprender com Juízes

Certos períodos da história se destacam para mim como particularmente instrutivos para o curso de toda a história. Ou seja, às vezes podemos nos concentrar em um período específico do passado, observar como toda a extensão da história humana recapitula esse período específico e, em seguida, aprender com esse período o que devemos fazer hoje. Um desses períodos instrutivos é a época dos juízes de Israel. Esse período, narrado para nós nos livros de Juízes e Rute e nos primeiros capítulos de 1 Samuel, abrange um tempo de aproximadamente 350 anos. Se você quer ter uma noção de quão grande é esse intervalo de tempo, pense no meio do século XVII nos Estados Unidos. Pense em toda a história que ocorreu nos Estados Unidos desde um período de 125 anos antes da Guerra de Independência até os dias atuais. Esse é o mesmo lapso de tempo que abrange a era dos Juízes.

Durante este período de cerca de três séculos e meio, não havia rei em Israel, nenhum líder da nação. Israel estava vivendo na terra de Canaã como uma federação tribal, liderada por uma sucessão de indivíduos que Deus levantava em tempos de crise e capacitava para realizar tarefas específicas. Sob o poder do Espírito Santo, Sansão exerceu grande força física contra os filisteus. Débora e Baraque foram ungidos para derrotar o malvado Rei Jabim. E assim por diante.

Agora, a razão pela qual acredito que o período dos juízes é instrutivo para o fluxo de toda a história é o padrão que vemos durante esses 350 anos. Muitas vezes durante esta era, o livro de Juízes nos descreve, os israelitas se encontravam em um ciclo que começava assim: “Tornaram, então, os filhos de Israel a fazer o que era mau perante o Senhor.” Cada vez que lemos essa frase no livro de Juízes, vemos que Deus levantava inimigos de Israel — os midianitas, os filisteus, os moabitas e outros — como instrumentos de castigo contra Seu povo. Essas nações pagãs oprimiriam os israelitas, que logo clamariam por alívio e se arrependeriam de seus pecados. Então, Deus levantaria um dos juízes que, sob o poder do Espírito Santo, derrotaria os inimigos de Israel e traria libertação. Um estudioso chama isso de um ciclo de recaída, retribuição, arrependimento e resgate. Após cada recaída em um pecado grave que se registra no livro de Juízes, ocorre a justiça retributiva de Deus, quando Ele derrama Seu juízo e ira contra Seu próprio povo. Sob o peso daquela justiça retributiva de Deus, o povo é então levado ao arrependimento, lamenta sua situação e aguarda seu resgate por Deus, que os redime.

A sombria história do pecado de Israel no período dos juízes vai contra o que o povo prometeu. Quando Josué reuniu o povo para renovar sua aliança com o Senhor pouco antes de sua morte, os israelitas prometeram duas coisas, uma positiva e outra negativa. Positivamente, prometeram obedecer a Deus. Negativamente, prometeram não abandoná-lo por ídolos.

Isso é importante à luz da promessa que Deus fez várias vezes aos patriarcas. Quando Ele se comprometeu com Jacó, por exemplo, Ele declarou: “Porque te não desampararei” (Gn 28:15). Esta promessa de aliança de Deus para aqueles que estão em um relacionamento com Ele é um tema central das Escrituras. O livro de Juízes confirma isso, que mesmo que Deus tenha castigado Seu povo, Ele estava castigando Seus filhos, aqueles a quem amava. Embora se sentissem abandonados por um tempo, Deus não os abandonou completamente.

No entanto, o registro é que o povo o abandonou. Essa é a grande diferença entre o Deus de Israel — o Deus da aliança — e Seu povo. Deus não nos desampara, mas somos propensos a abandoná-lo. O que provocou o abandono de Deus durante o período dos juízes foi o grande desejo dos israelitas de serem como seus vizinhos. Deus os havia chamado para viverem sem se conformar ao mundo. Deus os havia chamado para serem uma nação santa. Deus os havia chamado para serem piedosos e para fugirem da idolatria, mas isso era impopular naqueles dias. Com frequência isso tem sido impopular na história da igreja. Sem dúvida, também é impopular hoje.

O povo de Deus reviveu o ciclo de recaída, retribuição, arrependimento e resgate repetidamente ao longo da história bíblica. Ouso dizer, a igreja também viu um ciclo semelhante nos últimos dois mil anos. Contudo temos a tendência de pensar que tais coisas não podem acontecer na vida da igreja hoje. Recusamos considerar este padrão recorrente das ações de Deus, e acreditamos que Ele não trará calamidade sobre um povo que o abandona. Porém o Deus de Israel é um Deus que promete tanto bênção quanto maldição, tanto prosperidade quanto calamidade. Não devemos nos surpreender ao ver problemas para a igreja quando ela tem sido mundana e infiel ao Senhor. Às vezes, é claro, a igreja sofre por causa de sua fidelidade, pois as forças das trevas respondem com hostilidade contra o avanço da transformação do evangelho. No entanto, em outras ocasiões a igreja sofre devido à infidelidade generalizada e persistente. Isso aconteceu durante a época dos juízes e pode acontecer nos nossos dias também.

Mas, lemos no livro de Juízes que, quando os israelitas se arrependeram, Deus os libertou. Não importa o quanto o povo da aliança de Deus falhe, nosso Senhor é rápido em resgatar Sua igreja quando ela se arrepende. Seu povo o abandona, porém Ele nunca os abandona. O julgamento começa pela casa de Deus (1 Pe 4:17), entretanto, é um julgamento que é para disciplinar, não para destruir. É projetado para nos levar ao arrependimento e à fidelidade. A era dos juízes nos mostra que o Senhor não deixará de resgatar e preservar Sua igreja quando ela se arrepender e clamar a Ele.


Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

R.C. Sproul

R.C. Sproul

O Dr. R.C. Sproul foi fundador do Ministério Ligonier, primeiro pastor de pregação e ensino da Saint Andrew's Chapel em Sanford, Flórida, e primeiro presidente da Reformation Bible College. Seu programa de rádio, Renewing Your Mind, ainda se transmite diariamente em centenas de estações de rádio ao redor do mundo e também pode ser ouvido online. Ele escreveu mais de cem livros, entre eles A Santidade de Deus, Eleitos de Deus, Somos todos teólogos e Surpreendido pelo sofrimento. Ele foi reconhecido em todo o mundo por sua defesa clara e convincente da inerrância das Escrituras e por declarar a necessidade que o povo de Deus tem em permanecer com convicção em Sua Palavra.