
Um povo peregrino
maio 8, 2026O que a Bíblia quer dizer com “o coração”?
Chamamos aqueles flocos brancos que aparecem no inverno de neve. Quer a textura seja escamosa ou crocante, fina ou profunda, seca ou úmida, leve ou pesada, é simplesmente “neve”. Porém o povo tribal Yup’ik no norte do Alasca e Canadá usa muitas palavras para descrever esses diferentes tipos de neve. A neve é uma coisa simples em português, e ainda assim a neve tem diferentes qualidades (não importa qual língua você fale). O mesmo acontece para a palavra coração nas Escrituras. O coração reflete tanto a simplicidade quanto a complexidade do nosso interior. É um, e ainda assim tem funções diferentes.
Nossa unidade interior
Para simplificar, o coração nas Escrituras transmite a totalidade do nosso eu interior. Somos governados a partir deste ponto de unidade. “Dele procedem as fontes da vida” (Pv 4:23). É o centro de controle: fonte de cada pensamento, origem de cada paixão e árbitro de cada decisão. Tudo isso é gerado e governado por este único ponto de unidade indivisível. É por isso que tudo o que é vital para a vida cristã — fala, arrependimento, fé, serviço, obediência, adoração, caminhada e amor — deve ser feito de “todo o coração” (Dt 10:12; 30:2; 1 Sm 7:3; Sl 86:12; 119:34; Pv 3:5-6; 4:23; Is 38:3; Jr 24:7; Mt 22:37). O coração é o leme do navio. Toma uma direção e então define o rumo da sua vida. O estado do coração determina o da pessoa.
Nossa complexidade interior
Para expressar de forma abrangente, o coração abrange várias funções, incluída a mente, os desejos e a vontade. A mente do coração inclui o que sabemos: nosso pensamento, ideias, memórias e imaginação. Os desejos do coração incluem o que amamos: o que desejamos, buscamos, ansiamos e, assim, sentimos. A vontade do coração se refere ao que escolhemos: se resistimos ou nos submetemos, se diremos “sim” ou “não”, e se somos fracos ou fortes em nossa escolha.
Mente. Embora nós, modernos, tendemos a pensar no coração principalmente em termos de nossas emoções, a Bíblia associa o coração à nossa capacidade de pensar. Por exemplo, Paulo orou:
Que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele, iluminados os olhos do vosso coração (Ef 1:17-18).
Jesus declarou: “Do coração procedem maus desígnios” (Mt 15:19). O Salmo 139:23 traça o paralelo:
Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração.
Prova-me e conhece os meus pensamentos.
De modo frequente, as versões em português da Bíblia traduzem coração com palavras como entendimento, senso ou, na maioria das vezes, mente, o que mostra quão forte é a conexão entre o coração e o pensamento (Êx 14:5; 1 Rs 3:9; Sl 26:2; Pv 19:21; Jr 17:10; Mt 22:37).
Desejos. Tanto para o bem quanto para o mal, o coração deseja satisfação, segurança, conforto, felicidade e muito mais. Os desejos podem ser por coisas pecaminosas (como paixões carnais) ou por coisas boas (como o desejo de Jesus de comer a Páscoa com Seus discípulos) (Dt 12:15; Sl 45:11; Is 26:9; Mt 5:28; Rm 1:24; Gl 5:24; 1 Tm 6:9; 1 Jo 2:16). A palavra que Paulo usa para os desejos da carne é a mesma que ele usa para os desejos do Espírito (Gl 5:16-17). Em essência, os desejos revelam o que ansiamos e, em última análise, amamos, ou o que Cristo chama de nosso tesouro (Mt 6:21; ver também Sl 63:1; Is 55:2; Mt 5:6; Jo 4:10; Hb 5:14; 1 Pe 2:2). Conforme nossos desejos são satisfeitos ou negados, nosso coração sente raiva, alegria, inveja, fúria, medo, ansiedade, tristeza, paixão, angústia, desespero e muitas outras emoções. Nossas emoções revelam o que está na essência de quem somos, não apenas o que sentimos.
Vontade. Como o núcleo da vontade, o coração decide se nos submetemos ou resistimos ao que desejamos e pensamos. Dirá “sim” ou “não”. Aqui é onde a batalha pelo controle do coração é disputada. Como isso acontecerá dependerá da força ou fraqueza da vontade, de sua insensibilidade ou fragilidade, de seu endurecimento pelo pecado ou renovação pela graça. O coração da incredulidade pecaminosa é teimoso e inflexível para com Deus, e ainda assim é fraco e incapaz de resistir à tentação (Êx 4:21; Dt 1:28; Rm 2:5; 2 Co 3:14). Em contraste direto, o coração renovado pelo Espírito Santo se curva diante de Deus em humildade, e também está decidido a obedecer ao Senhor, ao morrer para o pecado, o mundo e o diabo (1 Sm 2:1; Dn 1:8; At 4:13; 2 Co 7:10-12; Tg 4:7; 1 Pe 5:9).
Nossa unidade e complexidade interior
Nossa mente, desejos e vontade são distintos, mas inseparáveis, pois trabalham juntos como uma rede cooperativa. Nosso pensamento sempre tem um propósito. O coração se concentra no que mais preza. Suas escolhas são motivadas e refletem como está emocionalmente envolvido.
Esta aliança da mente, desejos e vontade se revela em sua profunda ligação com o pecado. Como Paulo ensina, a mente que está voltada para a carne é hostil a Deus e não pode se submeter à lei divina (Rm 8:7). Contudo isso também se aplica para o “novo coração” de um cristão, que ele ou ela ganha ao nascer de novo pelo Espírito Santo. Não há nada no coração do cristão — seja na mente, nos desejos ou na vontade — que não seja tocado pela graça de Deus. Nossos corações são iluminados, purificados e estabelecidos na verdade do evangelho de Jesus Cristo. Conhecemos Deus verdadeiramente, amamos Ele com sinceridade e o seguimos com determinação. Ficamos cada vez mais aptos a acreditar, servir, obedecer, adorar, caminhar e amar nosso Deus com todo o nosso coração.
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

