O verdadeiro arrependimento para vida

maio 6, 2026

O verdadeiro arrependimento para vida

maio 6, 2026

Um povo peregrino

Há algo especial em estar em casa, não é verdade? Lembro-me disso toda vez que viajo. Enquanto escrevo esta coluna, faz apenas algumas semanas desde que retornamos de um cruzeiro de estudo bíblico da Ligonier no Caribe. Tivemos um tempo maravilhoso de estudo e comunhão com os amigos e colaboradores da Ligonier, muitos dos quais talvez estão lendo esta coluna agora. Apesar de ter gostado da viagem, fiquei feliz em voltar para casa. Tenho a mesma sensação toda vez que viajo. Amo minha terra natal e estou feliz por voltar aos Estados Unidos, mesmo após uma jornada abençoada.

Embora esteja feliz por voltar para os Estados Unidos, devo admitir que, quando chego em casa no meu país, anseio estar em outro lugar. No final das contas, os Estados Unidos é apenas uma pousada, um lugar para descansar no caminho para minha verdadeira casa: a cidade celestial. Como cristão, percebo que nunca estarei verdadeiramente em casa até estar com meu Salvador no céu. O antigo hino expressa bem: “Este mundo não é meu lar… Estou apenas de passagem.”

O povo de Deus sempre foi o que chamaríamos de “um povo peregrino”. A constituição da igreja do antigo pacto no êxodo deu aos antigos israelitas os nomes de peregrinos e forasteiros. Ao viver semi-nômades no deserto, não tinham um lugar permanente para chamar de seu. Até mesmo o local de adoração deles era uma tenda — o tabernáculo — que precisava ser desmontada quando o Senhor chamava Israel para se mover e montada novamente quando estabeleciam um novo acampamento. Mais tarde, a descrição da encarnação por João retoma este tema. O Verbo de Deus que “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1:14) traduz com o termo em português ‘habitou’ um termo grego com a mesma raiz que significa “tenda” ou “tabernáculo.” Cristo literalmente “armou Sua tenda” ou “tabernaculou” entre nós.

Por causa disso, Cristo é o supremo Peregrino revelado a nós nas Escrituras. Ele se tornou o supremo Peregrino na encarnação, ao deixar Sua casa no céu em nosso favor. Ele veio a este mundo para viajar junto com os filhos de Abraão, Isaac e Jacó em seu caminho para o lar celestial.

Hebreus 11:13 expressa desta forma: Os santos da antiga aliança, ao terem visto as promessas de longe, reconheceram “que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra.” Moisés, Abraão e os outros partiram de suas moradas terrenas com fé, a fim de buscar aquela morada celestial que o Senhor lhes prometeu. Desejavam “uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes preparou uma cidade” (Hb 11:16).

Embora os heróis da fé em Hb 11 se concentre nos crentes da antiga aliança, a peregrinação do povo de Deus não terminou quando eles se estabeleceram em Canaã, conquistaram Jerusalém pela primeira vez, ou mesmo quando retornaram à Terra Prometida após o exílio. A igreja cristã é um povo peregrino. O apóstolo Pedro é claro: “Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que fazem guerra contra a alma” (1 Pe 2:11). Ainda aguardamos a cidade santa e a Jerusalém celestial. Essa é a casa para a qual fomos feitos. 

Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles (Ap 21:3).

Deste lado do céu, o Senhor nos dá um vislumbre de nosso lar celestial de muitas maneiras, sobretudo quando nos reunimos para o culto. Experimentei isso na minha igreja local, a Saint Andrew’s Chapel, onde a cada Dia do Senhor nos reunimos e cruzamos a fronteira do secular para o sagrado. Contudo, também vi isso quando adorei em terras estrangeiras.

Há cerca de vinte anos, viajei pela Europa Oriental para pregar e ensinar em vários países que haviam estado fechados para missionários cristãos durante o regime comunista, que havia cessado apenas alguns anos antes. Em uma igreja na Transilvânia, tive a oportunidade de pregar em um domingo de manhã, e quando olhei para a congregação, vi muitas mulheres idosas, cujos rostos estavam marcados por rugas nascidas de anos de trabalho na terra com ferramentas primitivas. Embora estivessem vestidas de preto dos pés à cabeça — saias e blusas pretas e lenços de cabeça pretos— no entanto, havia uma serenidade nelas. Pareciam quase angelicais. Essas mulheres estavam ouvindo atentamente ao meu sermão, e às vezes até via uma lágrima escorrer pela bochecha de uma delas.

Ao estar ali, ouvi minha pregação ser traduzida para o idioma romeno nativo deles e fiquei maravilhado com o que estava acontecendo. Senti uma verdadeira afinidade com eles, um laço forjado a partir de nada deste mundo. Não tínhamos nada em comum. Falávamos línguas diferentes, de culturas distintas com costumes opostos e, de outra forma, não tínhamos nada que nos unisse. Porém tínhamos o laço abençoado que nos une: um amor compartilhado pela Palavra de Deus. Éramos todos cidadãos do céu, que passam por este mundo em diferentes geografias, mas com uma união profunda fruto da nossa união comum com Cristo. Eu e aquelas mulheres camponesas éramos peregrinos em nossa jornada rumo à pátria celestial.

Deus nos dá muitas bênçãos neste mundo e em nossos lares terrenos. No entanto, este mundo não é nosso lar, estamos apenas de passagem.


Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

R.C. Sproul

R.C. Sproul

O Dr. R.C. Sproul foi fundador do Ministério Ligonier, primeiro pastor de pregação e ensino da Saint Andrew's Chapel em Sanford, Flórida, e primeiro presidente da Reformation Bible College. Seu programa de rádio, Renewing Your Mind, ainda se transmite diariamente em centenas de estações de rádio ao redor do mundo e também pode ser ouvido online. Ele escreveu mais de cem livros, entre eles A Santidade de Deus, Eleitos de Deus, Somos todos teólogos e Surpreendido pelo sofrimento. Ele foi reconhecido em todo o mundo por sua defesa clara e convincente da inerrância das Escrituras e por declarar a necessidade que o povo de Deus tem em permanecer com convicção em Sua Palavra.