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maio 8, 2026O verdadeiro arrependimento para vida
O conceito de arrependimento é predominante nas Escrituras, no entanto, pode ser difícil de definir. Por um lado, o arrependimento é a coisa mais natural que os pecadores podem fazer; por outro lado, o arrependimento é algo muito espiritual. Por um lado, o arrependimento é uma atividade pontual; por outro lado, como Martinho Lutero escreveu na primeira de suas 95 teses, é uma atividade que dura a vida inteira. Por um lado, o arrependimento não é meritório; por outro lado, é o único portal através do qual o reino de Deus e seus benefícios nos são abertos, e, portanto, “sem ele, ninguém poderá esperar o perdão” (Confissão de Fé de Westminster 15.3). Por um lado, é um convite simples; por outro lado, abrange toda a pessoa: o intelecto, o coração, a vontade, a alma e o corpo.
Esses paradoxos destacam a utilidade de definições sistemáticas que consideram a riqueza do ensinamento da Bíblia. O Breve Catecismo de Westminster define de forma louvável o arrependimento como uma das duas graças inseparáveis que constituem a verdadeira conversão:
Arrependimento para a vida é uma graça salvadora pela qual o pecador, tendo um verdadeiro sentimento do seu pecado e percepção da misericórdia de Deus em Cristo, se enche de tristeza e de horror pelos seus pecados, abandona-os e volta para Deus, inteiramente resolvido a prestar-lhe nova obediência. (Pergunta e resposta 87).
Podemos observar algumas coisas do catecismo sobre o que o verdadeiro arrependimento não é, assim como o que o verdadeiro arrependimento é.
O que o arrependimento para a vida não significa
Os autores dos Padrões de Westminster falam do arrependimento como “arrependimento para vida”. Essa linguagem tem origem nas Escrituras. Por exemplo, em At 11:18, lemos que “também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para vida.” Isso pressupõe que há um arrependimento que não leva à vida, do qual Paulo fala quando expressa: “A tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte” (2 Co 7:10). Caim (Gn 4:12), Esaú (Hb 12:17) e Judas (Mt 27:3) são exemplos de tal tristeza carnal; suas tristes histórias revelam que o verdadeiro arrependimento é mais do que remorso. Não é apenas uma forte emoção de culpa, como a do movimento pietista. Podemos ficar tristes com as consequências do pecado sem lamentar nosso pecado e nos voltarmos para Deus.
Além disso, o verdadeiro arrependimento não é penitência, na qual recebemos absolvição de acordo com nosso nível de contrição e deveres subsequentes. Para que não pensemos que a penitência é exclusivamente um fenômeno católico romano, os evangélicos não estão imunes à tentação de confiar na intensidade de nosso pesar ou em nossa determinação de compensar nossas deficiências espirituais. O arrependimento também não é meramente uma resposta intelectual em que a mente reconhece a imperfeição sem ter que buscar uma nova obediência. No outro extremo, podemos raciocinar como um perfeccionista, ao pensar que o verdadeiro arrependimento significa que nunca mais pecaremos, pelo menos não da mesma maneira. Contudo a mortificação de um pecado teimoso pode ser um processo longo.
O que o arrependimento para vida significa
O catecismo fala do arrependimento para vida como uma graça salvífica. É salvífica pelo que provoca: salvação (ou seja, nova vida). É uma graça, porque é concedida apenas por Deus (veja 2 Tm 2:25). Na regeneração, Deus concede ao novo homem fé e arrependimento. Este arrependimento é, em termos simples, um afastamento do pecado e um retorno a Deus com fé. Esta fé é uma compreensão da graça de Deus oferecida no evangelho, acompanhada por um arrependimento que envolve um ódio ao pecado do qual estamos nos afastando. A fé que salva é uma fé arrependida, e o arrependimento que leva à vida é um arrependimento confiante. São inseparáveis, embora a fé logicamente precede o arrependimento. Herman Bavinck afirma:
Não deveríamos ousar nos voltar para Deus se não confiássemos interiormente em nossas almas, através do Espírito Santo, que como Pai, Ele aceitará nossa confissão de pecados e nos perdoará. O verdadeiro arrependimento tem uma conexão inseparável com a verdadeira fé salvífica.
Nós nos afastamos do pecado e nos voltamos para o Deus que ofendemos apenas se estivermos primeiro convencidos de que Ele perdoará. Enquanto Deus concede fé e arrependimento juntos na alma regenerada, “a fé já está presente e em ação no arrependimento”, como observa Geerhardus Vos.
Então o verdadeiro arrependimento começa no coração, porém nunca permanece confinado no coração. Com o tempo, se manifestará externamente na conduta de alguém como fruto que reflete o arrependimento (Mt 3:8). O pacote de fé e arrependimento entregue pelo Espírito é o surgimento inevitável da nova natureza, pelo qual a pessoa regenerada se torna ativa na obra de mortificação do pecado e vivificação da justiça. Portanto, o verdadeiro cristão não pode deixar de se arrepender. Nosso relacionamento com o pecado mudou. O cristão está profundamente ciente de seu pecado e se lança à misericórdia de Deus em Cristo. Os cristãos lutam contra o pecado interior, mas lamentamos esse pecado e continuamente nos afastamos dele para nos voltarmos a Deus, como o filho pródigo que corre de volta para casa ao encontro de seu pai. Lutero estava certo ao afirmar que o arrependimento inicia a vida cristã (o que poderíamos chamar de arrependimento na conversão) e caracteriza toda a vida cristã (o que poderíamos chamar de arrependimento na santificação).
Embora a essência do arrependimento seja a mesma para cada pessoa, nossa experiência de arrependimento pode variar. Portanto, podemos perguntar: Como sei se meu arrependimento é genuíno? A definição do catecismo nos ajuda a fazer perguntas profundas: Tenho um senso de ódio pelo meu pecado? Busco a misericórdia de Deus em Cristo? Eu me esforço, ainda que de forma imperfeita, para caminhar em nova obediência? Se assim for, querido cristão, se regozije. Pois você recebeu a graça salvífica da fé em Jesus Cristo e o arrependimento para vida.
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

