A espiritualidade da igreja

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Por que os cristãos fazem coisas erradas?

Geralmente, essa pergunta é feita de duas formas básicas. Primeiro, a maioria dos cristãos já se perguntou em algum momento: “Se sou um verdadeiro cristão, por que continuo pecando?” Segundo, cristãos e outros têm feito perguntas como: “Como os cristãos puderam cometer tais atrocidades durante as Cruzadas?” As duas perguntas são diferentes, mas em essência têm a mesma resposta teológica e bíblica. A resposta exige que compreendamos o que as Escrituras dizem ser verdade sobre os cristãos na aplicação tríplice da redenção. Devemos considerar o ensino da Bíblia sobre o que já aconteceu ao cristão, o que está acontecendo ao cristão e o que ainda não aconteceu com ele.

O que já aconteceu aos cristãos: (Regeneração, justificação, adoção)

Segundo a Bíblia, quando uma pessoa se torna cristã, ela passou da morte para a vida. Ela experimentou o que muitas vezes chamamos de “regeneração”. Isso é fundamental para a nossa identidade cristã. O cristão é uma nova criação (2 Co 5:17). Ele nasceu de novo (Jo 3:3; 1 Pe 1:3). Ele estava nas trevas, e agora está na luz (At 26:18; Ef 5:8; 2 Co 6:14; 1 Pe 2:9). Ele estava morto em delitos e pecados, e agora está vivo juntamente com Cristo (Ef 2:1-2; Cl 2:13). Ele era escravo do pecado, e agora é escravo da justiça (Jo 8:34; Rm 6:1-23; Gl 5:1). Ele tinha um coração de pedra, e agora tem um coração de carne (Ez 11:19; 36:26). A regeneração e seu fruto, a conversão a Cristo, significam uma mudança drástica na identidade.


No entanto, a regeneração não purifica os efeitos da nossa queda de nossas almas e corpos. A regeneração imparte vida espiritual na alma, porém a história de uma pessoa antes da regeneração não é alterada. Isso significa que um cristão odiará seu pecado, contudo, ainda pode ser atraído pelos mesmos pecados de antes da conversão.

No novo nascimento (isto é, regeneração), somos eficazmente chamados, o que significa que o Espírito não apenas nos chama a receber o Senhor Jesus Cristo pela fé, mas também nos dá a capacidade de responder a esse chamado. Quando depositamos nossa fé em Cristo, o Espírito Santo nos une a Cristo, de quem recebemos os benefícios da redenção, entre eles “justificação, adoção e santificação, e das diversas bênçãos que acompanham estas graças ou delas procedem” (Catecismo Breve de Westminster 32). Em nossa união com Cristo, justificação, adoção e santificação são diferentes benefícios, mas inseparáveis. Justificação é um ato da livre graça de Deus, no qual ele perdoa todos os nossos pecados, e nos aceita como justos diante de Si, somente por causa da justiça de Cristo a nós imputada, e recebida só pela fé (CBW 33). 

Adoção é um ato de livre graça de Deus, pelo qual somos recebidos no número dos filhos de Deus, e temos direito a todos os seus privilégios (CBW 34). É a obra da livre graça de Deus, pela qual somos renovados em todo o nosso ser, segundo a imagem de Deus, e habilitados a morrer cada vez mais para o pecado e a viver para a retidão (CBW 35). 

Enquanto a justificação e a adoção são atos divinos, a santificação é uma obra de Deus. Justificação e adoção são eventos pontuais, que ocorrem uma só vez. A santificação é uma obra progressiva e ao longo da vida. Assim, enquanto o cristão é declarado justo aos olhos de Deus por causa da justiça imputada de Cristo, ele ainda não foi inteiramente renovado em todo o seu ser. Pelo menos ainda não. Como disse Martinho Lutero, o cristão é simul justus et peccator: ao mesmo tempo justo e pecador. A regeneração faz de um homem novo, mas ele é um homem não desenvolvido: um homem que está sendo santificado, entretanto, ainda não foi aperfeiçoado.

Já/ainda não: o que está acontecendo com os cristãos (santificação: mortificação e vivificação)

Algumas pessoas, ao se converterem, descobrem que muitos de seus antigos afetos e padrões pecaminosos se dissolvem de imediato. Outras experimentam uma renovação mais gradual de seus desejos. Embora haja um sentido em que somos santificados na nossa conversão, no sentido de que somos separados como santos para o Senhor, a santificação como processo é vivenciada em graus diferentes.
Santificação não significa que os resquícios do pecado e da corrupção são erradicados de uma vez. Pelo contrário, como Geerhardus Vos observou:

A atividade renovadora do Espírito Santo não remove de imediato todo o mal de nós e o substitui por uma pessoa completamente santa e boa. Ele efetua a renovação em um ponto para, a partir daí, fazer com que Sua obra renovadora e santificadora se estabeleça em círculos cada vez mais amplos.

Na conversão, o pecado é destronado no coração do crente, mas ainda não está exterminado. O pecado não tem domínio sobre aquele que está sob a graça, porém o pecado ainda é um inimigo presente. John Murray afirma: 

A libertação do poder do pecado assegurada pela união com Cristo e da contaminação do pecado assegurada pela regeneração não elimina todo o pecado do coração e da vida do crente. Ainda há pecado que habita em nós. 

Portanto, a santificação pode ser um processo complicado. Tornamo-nos conscientes das profundezas do pecado em nossas vidas lentamente, e pontos cegos éticos podem persistir. A santificação implica um progresso lento, por vezes doloroso, que às vezes não parece progresso de forma alguma. Muitas vezes envolve retornar ao mesmo pecado várias vezes com um ódio crescente por esse pecado. Contudo, a trajetória da vida cristã, por causa da união com Cristo e da obra do Espírito Santo, é de renovação progressiva e conformidade à imagem de Deus.

O Breve Catecismo de Westminster define a santificação como: “É a obra da livre graça de Deus, pela qual somos renovados em todo o nosso ser, segundo a imagem de Deus, e habilitados a morrer cada vez mais para o pecado e a viver para a retidão.” A santificação tem dois aspectos: morrer para o pecado, conhecido como mortificação, e viver para a justiça, também chamada vivificação. Todo cristão tem pecado residente que deve ser mortificado no poder do Espírito Santo. Paulo afirma isso em sua própria declaração em Romanos 7. Charles Hodge diz:

A diferença característica entre o não renovado e o renovado não é que o primeiro seja inteiramente pecaminoso e o último perfeitamente santo; mas que o primeiro está totalmente sob o controle de sua natureza caída, enquanto o último tem o Espírito de Deus habitando nele, o que o leva a crucificar a carne e a buscar uma conformidade completa à imagem de Deus.

Em outras palavras, a morada do Espírito em nós não remove por completo o pecado, entretanto, significa que o poder determinante e operativo na vida do cristão é o poder santificador do Espírito Santo. O cristão ainda carrega pecado remanescente, mas não pecado que governa sua vida, que precisa ser mortificado. O pecado que habita permanece no coração, contudo, é contraditório e está em conflito com o coração regenerado. Este conflito permanecerá até que nossos corpos corruptíveis sejam substituídos pelo que é incorruptível.

Assim, o cristão foi justificado e adotado e está sendo santificado. Quando, se é que algum dia, o cristão deixará de pecar?

Ainda não: o que ainda precisa acontecer aos cristãos (glorificação)

Ao longo da história da igreja, alguns intérpretes afirmaram o perfeccionismo: a ideia de que a santificação pode ser aperfeiçoada nesta vida. No entanto, a Reforma rejeitou essa interpretação. A perfeição de fato virá para o cristão, mas não nesta vida. Martinho Lutero disse:

Existem dois capitães contrários em você, o espírito e a carne. Na justificação, Deus suscitou em seus corpos uma contenda e uma batalha; a carne e o espírito em guerra um com o outro. Se fôssemos puros de todo pecado e estivéssemos inflamados com amor perfeito tanto para com Deus quanto para com o nosso próximo, então deveríamos ser verdadeiramente justos e santos através do amor, e Ele não exigiria mais de nós. Isso não acontece na vida presente, mas é adiado até a vida futura. Recebemos aqui as primícias do Espírito, de modo que comecemos a viver, embora de maneira muito frágil.5

O erro dos perfeccionistas é uma escatologia super-realizada, ou seja, uma expectativa de que o que é prometido para o estado final de glória será experimentado agora. O pecado que habita em nós permanece até a glorificação, no entanto, e a glorificação não acontece até a morte: “As almas dos fiéis na hora da morte são aperfeiçoadas em santidade, e imediatamente entram na glória; e os corpos que continuam unidos Cristo, descansam na sepultura até a ressurreição” (WSC 37). John Owen declara:

O pecado que ainda habita em nós continua a viver nos crentes em alguma medida e grau enquanto estamos neste mundo… Há uma escuridão remanescente que precisa ser removida aos poucos. Temos um corpo de morte (Rm 7:24); do qual não somos libertados senão pela morte de nossos corpos (Fp 3:21).6

Até a morte, nossa santificação permanece imperfeita, e a glorificação permanece uma realidade futura, embora garantida pelo Espírito Santo (Ef 1:13-14). Os Cânones de Dort expressam bem essa tensão:

Aqueles que, de acordo com seu propósito, Deus chama à comunhão de seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, e regenera por seu Santo Espírito, ele certamente os livra do domínio e da escravidão do pecado. Mas, nesta vida, ele não os livra totalmente da carne e do corpo de pecado. (5.1).

Um cristão é alguém que foi renovado (regeneração), está sendo renovado (santificação) e será renovado (glorificação). Seu pecado foi tratado judicialmente (justificação), está sendo tratado progressivamente (santificação) e será tratado de maneira permanente (glorificação). Essas distinções nos ajudam a entender a presença do pecado na vida de um cristão. Enquanto nós, santos, permanecemos nestes corpos de pecado em um mundo caído, continuamos a lutar contra nossa própria carne e seu pecado existente, mas não reinante, razão pela qual os cristãos ainda fazem coisas erradas. Porém um dia, em breve, faremos apenas aquilo que é bom, em corpos glorificados e um mundo renovado que não estão poluídos pelo pecado e corrupção. Venha logo, Senhor Jesus.


Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

Nota do editor: Este artigo foi publicado originalmente em 12 de outubro de 2022.


  1. Geerhardus Vos, Dogmática Reformada, ed. e trad. Richard B. Gaffin Jr., vol. 4 (Bellingham, Wash.: Lexham, 2016), 51.↩
  2. John Murray, Redemption Accomplished and Applied (1955; repr., Grand Rapids, Mich.: Eerdmans, 2015), 152
  3. Charles Hodge, Teologia Sistemática, vol. 3 (Peabody, Mass.: Hendrickson, 2016), 248
  4. Veja Murray, 154: “É uma coisa o pecado viver em nós; é outra nós vivermos no pecado. É uma coisa o inimigo ocupar a capital; é outra suas hostes derrotadas assediarem as guarnições do reino.
  5. Martinho Lutero, Comentário sobre Gálatas (Grand Rapids, Mich.: Kregel, 1979), 330-31
  6. John Owen, A mortificação do pecado (Edimburgo, Escócia: Banner of Truth, 2016), 6-7

Aaron L. Garriott

Aaron L. Garriott

Aaron L. Garriott é editor sênior da Tabletalk Magazine, professor adjunto residente no Reformation Bible College em Sanford, Flórida, e graduado pelo Reformed Theological Seminary em Orlando, Flórida.