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A espiritualidade da igreja

Cristo deu à Sua igreja uma missão: fazer discípulos de todas as nações que o amem, confiem nEle e se esforcem para obedecer a tudo o que Ele ordenou (Mt 28:18-20). No entanto, a história da igreja cristã é a história do desvio da igreja dessa missão. A Reforma ocorreu, em parte, pois a igreja ocidental não estava fazendo discípulos de Cristo. Os bispos e sacerdotes deixaram de viver entre o povo em muitos lugares, o que tornou impossível para eles pastorear o rebanho. O acesso à Palavra de Deus e aos sacramentos era limitado. Os reformadores agiram para ajudar a corrigir esses abusos e outros e trazer a igreja de volta à sua missão designada.

Gerações depois, muitas igrejas que derivam historicamente dos Reformadores não seguiram o exemplo deles, porém permitiram que suas igrejas se afastassem da missão que Cristo deu, muitas vezes caindo em apostasia total. Dificilmente há um problema internacional, posição política, política governamental, questão econômica ou preocupação social que as chamadas igrejas tradicionais não tenham se oposto, endossado ou comentado. Muitas dessas coisas podem merecer comentários da igreja. Mas todas elas? A Palavra de Deus aborda toda a vida no sentido de nos dar princípios sábios. Contudo, muitas vezes não nos informa exatamente quais políticas aplicar.

Questões sobre a missão da igreja e quando a igreja pode falar como um corpo corporativo devem ser consideradas, pois sabemos que Deus nos deu a igreja e a enviou em uma missão. Uma ideia importante que pode nos ajudar a pensar de maneira correta sobre essas coisas é a doutrina da espiritualidade da igreja.

Definir a doutrina

O conceito de espiritualidade da igreja aparece nas confissões reformadas e nos escritos dos grandes pensadores da tradição reformada. Para explicar a doutrina, devemos primeiro reconhecer que Deus instituiu três autoridades distintas para governar três esferas distintas, porém interligadas. Os pais governam a esfera da família (Êx 20:12). A igreja visível e institucional, especificamente os presbíteros e diáconos, governa a esfera dos cristãos professos e seus filhos (1 Tm 3:1-13). E o Estado, em especial o magistrado civil, governa a esfera da sociedade mais ampla onde tanto cristãos quanto não cristãos são cidadãos (Rm 13:1-7).

A espiritualidade da igreja diz respeito sobretudo à relação entre a igreja e o estado e à natureza do poder e autoridade de cada um. O conceito afirma que a igreja tem autoridade sobre questões espirituais, como doutrina e a disciplina dos membros da igreja, e os líderes são encarregados de manter a boa ordem nela, pregar a Palavra e administrar os sacramentos. Ao fazer isso, os líderes da igreja não podem empunhar a espada para impor suas decisões, mas devem trabalhar por persuasão e exortação. Por outro lado, o Estado tem autoridade sobre questões de interesse comum a todas as pessoas, cristãs ou não: proteção da vida física e da propriedade, organização do governo, etc. O Estado pode impor suas leis com força quando necessário. A igreja e o Estado devem se respeitar mutuamente e reconhecer a autoridade um do outro em suas esferas, e não devem assumir os deveres do outro. Assim, a igreja não faz leis nem as impõe para a sociedade secular, e o Estado não prega a Palavra, administra os sacramentos ou pune hereges pela força.

Já mencionamos um fundamento bíblico para a espiritualidade da igreja, a Grande Comissão de Mateus 28:18-20. Outro texto chave é Rm 13:1-7, onde Paulo expressa que Deus dá a espada ao Estado, não à igreja, para punir os malfeitores e recompensar aqueles que fazem o bem. Também temos o exemplo dos apóstolos, que não orientam a igreja a fazer leis para a sociedade secular, assim como os chamados e exemplos de pessoas como Daniel e Jeremias, que demonstram que devemos obedecer ao Estado secular e nos preocupar com seu bem-estar, a menos e até que ele nos obrigue a fazer algo que Deus proíbe ou nos proíba de fazer o que Deus ordena (Jr 29:4-7; Dn 1).

Um ponto final sobre a espiritualidade da igreja é a distinção entre a igreja como instituição e os cristãos como indivíduos. Há muitas coisas que cada cristão pode fazer que não são necessariamente apropriadas para a igreja fazer. Cristãos, por exemplo, podem servir como policiais, mas a missão da igreja não abrange a aplicação da lei para o Estado, então não é a missão da igreja fornecer tais serviços à comunidade.

A doutrina na prática

A espiritualidade da igreja tem sido, por vezes, mal interpretada, tanto por seus detratores quanto por seus apoiadores, para indicar que a igreja nunca pode, como igreja, dirigir-se ao Estado ou declarar sua opinião sobre questões que dizem respeito tanto a cristãos quanto a não cristãos na sociedade, como aborto, sexualidade humana e escravidão. Isso não é verdade. A Confissão de Fé de Westminster 31.4, uma expressão clássica do princípio da espiritualidade da igreja, nos ensina:

Os sínodos e concílios [da igreja] não devem discutir coisa alguma que não seja eclesiástica; não devem imiscuir-se nos negócios civis do estado, a não ser por humilde petição em casos extraordinários, ou por conselhos, em satisfação de consciência, se o magistrado civil os convidar a fazê-lo.

A igreja pode se dirigir ao Estado em dois casos. O primeiro é em “casos extraordinários”, casos em que o Estado descuida de forma grave seus deveres designados por Deus, e impede desnecessariamente a missão da igreja ou assumindo para si autoridade que pertence à igreja ou à família. Lembre-se de que Deus dá ao Estado a tarefa de punir o mal com a espada e proteger a vida física. Se o Estado está abandonando esses deveres ao legalizar o aborto sob demanda, por exemplo, a igreja deve se manifestar contra isso. O Dr. R.C. Sproul frequentemente nos lembrava que a visão correta da separação entre igreja e estado não significa a separação entre o estado e Deus. O Estado não deve estabelecer uma igreja oficial estatal, entretanto, ainda é responsável por cumprir seu dever dado por Deus. A igreja, como observou o Dr. Sproul, deve ser a “consciência do Estado” nesse aspecto e chamar o magistrado civil a cumprir seu papel.

Em segundo lugar, a igreja deve se manifestar quando as políticas do Estado impedem a igreja de realizar seu próprio trabalho. Assim, o Estado não pode promulgar leis que nos digam como pregar ou que nos proíbam de adorar segundo a Palavra de Deus. Também erra ao promulgar leis que afetam bastante a igreja de uma maneira mais indireta. Um exemplo aqui é a legalização da chamada cirurgia redesignação de gênero para menores de idade. Na sua Assembleia Geral de 2023, a Presbyterian Church in America votou para pedir ao governo dos EUA que proíba essa cirurgia. Por que? Porque não só essa cirurgia causa danos desnecessários e mutila corpos saudáveis, além disso cria encargos indevidos para os cristãos que têm que se preocupar em perder seus empregos ou até mesmo seus filhos para o Estado se resistirem à contínua aceitação social da teoria transgênero. O Estado, ao legalizar essas cirurgias, não está cumprindo seu dever de proteger os inocentes e está criando um fardo para a igreja e seu ministério, por isso é apropriado que a igreja solicite ao Estado para interromper a prática.

Por último, a igreja pode responder ao Estado quando este pede a sua opinião, como observa o último ponto da Confissão de Westminster 31.4. Às vezes, o magistrado pode querer saber o que a igreja pensa, e a igreja pode responder.

Outra maneira de abusar da espiritualidade da igreja é fazer uma distinção tão acentuada entre o reino espiritual (a igreja) e o reino comum (a sociedade civil) que, embora se possa dizer que há casos em que a igreja deve se dirigir ao Estado, na prática isso quase nunca acontece. Ainda que o desejo de manter a igreja e o Estado cuidando de seus respectivos assuntos seja bom, uma distinção radical entre essas duas esferas que afirma que a esfera comum não precisa considerar as Escrituras, mas é responsável apenas perante a lei natural, é equivocada. Alguns pensadores expressaram que o magistrado civil deve apenas obedecer à lei moral que encontramos na natureza (lei natural) e que é inapropriado para o Estado considerar a lei civil bíblica ao governar uma nação. No entanto, embora o magistrado não possa fazer uma aplicação direta da lei civil bíblica exatamente da mesma forma que era usada no antigo Israel do pacto, negligenciar toda essa lei e os princípios por trás dela impede os líderes de ter acesso a uma fonte de sabedoria para uma boa governança.

A visão clássica da espiritualidade da igreja não afirma que o Estado deve permanecer absolutamente neutro em todas as questões religiosas. O Estado não pode usar a espada para a disciplina da igreja ou forçar conversões, porém isso não significa que não possa favorecer de alguma forma o cristianismo, a única religião verdadeira. Alguns pensadores, em favor da doutrina da espiritualidade da igreja, argumentaram que o Estado não pode tratar a igreja de forma diferente de como trata a sinagoga ou a mesquita. Isso seria uma novidade para os cristãos de séculos passados, de quem aprendemos a espiritualidade da igreja. A maioria deles não imaginava que o magistrado civil fosse completamente neutro na arena da religião, uma ideia derivada mais das decisões do século passado da Suprema Corte dos EUA sobre liberdade religiosa do que de qualquer outro lugar.

É claro que o grau em que o magistrado civil deve legislar de maneiras que favoreçam o cristianismo pode variar segundo a história e a composição da sociedade, bem como outros fatores. Entretanto, favorecer a igreja cristã na lei pode ser compatível com a espiritualidade da igreja. Por exemplo, muitos estados dos EUA já tiveram “leis dominicais”, que limitavam ou até mesmo proibiam certos tipos de comércio aos domingos para que os cristãos tivessem mais facilidade para observar o Dia do Senhor. Essas leis, na medida em que não forçavam a conversão das pessoas, não transgrediam necessariamente a espiritualidade da igreja.

Por que a doutrina é importante?

A espiritualidade da igreja é importante para que ela se mantenha fiel à sua missão adequada e retenha sua competência no que Deus a chamou para fazer. Se pensarmos que a igreja é obrigada a falar sobre todas as questões sociais ou resolver todos os problemas sociais, negligenciaremos a pregação do evangelho e a sociedade passará a definir nossa agenda. A igreja e seus líderes simplesmente não são competentes para definir a política externa, determinar taxas alfandegárias ou decidir a quantidade de hectares a serem destinados a parques nacionais. Isso é aceitável, pois Deus não chamou a igreja para esse trabalho. Cada cristão, ao servir a Deus em suas variadas vocações que o honram, são chamados a abordar essas questões, e podem ter uma variedade de opiniões sobre muitos assuntos sem pecar. Uma vez que a igreja comenta sobre uma questão civil, está restringindo a liberdade dos cristãos de discordar sobre certas questões periféricas e corre o risco de falar onde Deus tem estado em silêncio. A igreja pode e deve chamar o Estado a fazer seu trabalho de proteger a vida e a propriedade, então há muitas áreas sobre as quais a igreja deve falar ao Estado. Porém a espiritualidade da igreja nos ajuda a não ultrapassar os limites que Deus estabeleceu para o bem-estar de Sua noiva, a igreja de Jesus Cristo.


Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

Robert Rothwell

Robert Rothwell

Robert Rothwell é editor associado da revista Tabletalk, escritor sênior do Ministério Ligonier e professor adjunto permanente no Reformation Bible College em Sanford, Flórida.