Toda verdade é a verdade de Deus

maio 22, 2026

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A aliança das obras

A teologia da aliança é importante por várias razões. Embora a teologia da aliança exista há milênios, ela se expressa de forma mais refinada e sistemática na Reforma Protestante. No entanto, sua importância aumentou em nossos dias devido à sua relação com uma teologia que é relativamente nova. No final do século XIX, a teologia chamada “dispensacionalismo” surgiu como uma nova abordagem para entender a Bíblia. A antiga Bíblia de Estudo Scofield definiu o dispensacionalismo em termos de sete dispensações ou períodos de tempo distintos nas Escrituras Sagradas. Cada dispensação foi definida como “um período de tempo durante o qual o homem é testado em relação à obediência a alguma revelação específica da vontade de Deus.” Scofield distinguiu sete dispensações, entre elas a inocência, consciência, governo civil, promessa, lei, graça e o período do reino. Em contraste com essa visão diversificada da história redentora, a teologia da aliança busca apresentar uma imagem clara da unidade da redenção, unidade essa que é vista na continuidade dos pactos que Deus fez ao longo da história e como se cumprem na pessoa e obra de Cristo.

Além do debate contínuo entre dispensacionalistas tradicionais e a teologia reformada em relação à estrutura básica da revelação bíblica, surgiu em nossos dias uma crise ainda maior em relação à nossa compreensão sobre a redenção. Esta crise se concentra no lugar da imputação no modo como entendemos a doutrina da justificação. Assim como a doutrina da imputação foi a questão central no debate do século XVI entre os reformadores e a compreensão católica romana sobre a justificação, agora a questão da imputação ressurgiu inclusive entre aqueles que dizem ser evangélicos, que rejeitam a compreensão da Reforma sobre a imputação. Na essência desta questão de justificação e imputação está a rejeição do que é chamado de aliança das obras. A teologia histórica da aliança faz uma distinção importante entre a aliança das obras e a aliança da graça. A aliança das obras se refere ao pacto que Deus fez com Adão e Eva em sua pureza original antes da queda, no qual Deus lhes prometeu bem-aventurança condicionada à sua obediência ao Seu mandamento. Após a queda, o fato de que Deus manteve a promessa de redenção às criaturas que haviam transgredido a aliança das obras, essa promessa contínua de redenção é definida como a aliança da graça.

Do ponto de vista técnico, todas as alianças que Deus fez com as criaturas são graciosas no sentido de que Ele não é obrigado a fazer nenhuma promessa às Suas criaturas. Porém a distinção entre a aliança das obras e da graça está abordando algo de vital importância, pois tem a ver com o evangelho. A aliança da graça indica a promessa de Deus de nos salvar mesmo quando falhamos em cumprir as obrigações impostas na criação. Isso se manifesta, acima de tudo, na obra de Jesus como o novo Adão. Várias vezes, o NT faz a distinção e o contraste entre o fracasso e as calamidades causadas à humanidade pela desobediência do Adão original e os benefícios que fluem através da obra da obediência de Jesus, quem é o novo Adão. Embora haja uma distinção clara entre o novo Adão e o velho Adão, a ideia de continuidade entre eles é que ambos foram chamados a se submeter com uma obediência perfeita a Deus.

Quando entendemos a obra de redenção de Cristo no Novo Testamento, focamos nossa atenção, em grande parte, em dois de seus aspectos. Por um lado, consideramos a expiação. É claro, a partir dos ensinamentos do NT, que na expiação Jesus carrega os pecados do Seu povo e é punido por eles em nosso lugar. Ou seja, a expiação é vicária e substitutiva. Nesse sentido, na cruz, Cristo assumiu sobre Si as sanções negativas da antiga aliança. Ou seja, Ele suportou em Seu corpo a punição devida àqueles que quebrantaram não apenas a lei de Moisés, mas também a lei que foi imposta no paraíso. Ele assumiu sobre Si a maldição que todos merecem por desobedecer à lei de Deus. Isto, a teologia reformada descreve em termos de “a obediência passiva de Jesus.” Indica Sua disposição de se submeter à recepção da maldição divina em nosso lugar.

Além do cumprimento negativo da aliança das obras, ao receber a punição devida àqueles que a desobedecem, Jesus oferece o aspecto positivo que é vital para a nossa redenção. Ele ganha a bênção da aliança das obras para toda a descendência de Adão que deposita sua confiança em Jesus. Onde Adão quebrantou a aliança, Jesus mantém a aliança. Onde Adão falhou em alcançar a bem-aventurança da árvore da vida, Cristo conquista essa bem-aventurança por Sua obediência, a qual Ele proporciona àqueles que depositam sua confiança nEle. Nesta obra de cumprir a aliança em nosso lugar, a teologia fala da “obediência ativa” de Cristo. Ou seja, a obra redentora de Cristo inclui não apenas Sua morte, mas também Sua vida. Sua vida de perfeita obediência se torna o único fundamento da nossa justificação. É a Sua perfeita justiça, adquirida através da Sua perfeita obediência, que é imputada a todos que depositam sua confiança nEle. Portanto, a obra de obediência ativa de Cristo é essencial para a justificação de qualquer pessoa. Sem a obediência ativa de Cristo à aliança das obras, não há razão para imputação, não há base para justificação. Se retirarmos a aliança das obras, retiramos a obediência ativa de Jesus. Se retirarmos a obediência ativa de Jesus, retiramos a imputação de Sua justiça a nós. Se retirarmos a imputação da justiça de Cristo a nós, retiramos a justificação pela fé somente. Se retirarmos a justificação pela fé somente, retiramos o evangelho e ficamos em nossos pecados. Somos deixados como os miseráveis filhos de Adão, que só podem esperar sentir plenamente a maldição de Deus sobre nós por nossa própria desobediência. É a obediência de Cristo que é a base da nossa salvação, tanto em Sua obediência passiva na cruz quanto em Sua obediência ativa em Sua vida. Tudo isso está inseparavelmente relacionado ao entendimento bíblico de Jesus como o novo Adão (Rm 5:12-20), quem teve sucesso onde o Adão original falhou, quem prevaleceu onde o Adão original perdeu. Não há nada menos do que a nossa salvação em jogo nesta questão.


         Bíblia de Estudo Scofield, p.5.

Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

R.C. Sproul

R.C. Sproul

O Dr. R.C. Sproul foi fundador do Ministério Ligonier, primeiro pastor de pregação e ensino da Saint Andrew's Chapel em Sanford, Flórida, e primeiro presidente da Reformation Bible College. Seu programa de rádio, Renewing Your Mind, ainda se transmite diariamente em centenas de estações de rádio ao redor do mundo e também pode ser ouvido online. Ele escreveu mais de cem livros, entre eles A Santidade de Deus, Eleitos de Deus, Somos todos teólogos e Surpreendido pelo sofrimento. Ele foi reconhecido em todo o mundo por sua defesa clara e convincente da inerrância das Escrituras e por declarar a necessidade que o povo de Deus tem em permanecer com convicção em Sua Palavra.