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Toda verdade é a verdade de Deus

Poucos livros que li tiveram um impacto permanente na minha mente e pensamento. Um deles li há mais de cinquenta anos. O título do livro era As bases metafísicas da ciência moderna, e ele me impactou, pois expôs claramente a importância de entender que todas as teorias científicas pressupõem certos pressupostos filosóficos. As premissas filosóficas que são a base da investigação científica são com frequência tidas como certas e nunca recebem sequer uma exploração superficial. Mas, em uma época em que um debate acirrado ocorre entre ciência e teologia, é importante que recuemos e façamos perguntas sobre as bases teóricas pré-científicas para todo o empreendimento do conhecimento.

A palavra ciência significa “conhecimento”. Tendemos a ter uma visão restrita da palavra, como se o conhecimento se aplicasse apenas ao domínio da investigação empírica. Além do conhecimento material, também devemos levar em consideração a verdade formal. Nesse sentido, devemos considerar a matemática como uma ciência genuína, porque a matemática em sua dimensão formal proporciona conhecimento real. Na verdade, se olharmos para a história do progresso científico, veremos que o motor que impulsionou novas descobertas e trouxe à tona novos paradigmas tem sido, na maioria das vezes, o motor da matemática formal. Contudo é surpreendente ver com que frequência as pessoas envolvidas em pesquisa científica material passam superficialmente pelas pressuposições filosóficas de seu próprio trabalho.

No famoso livro de Carl Sagan intitulado Cosmos, baseado em sua série de televisão de mesmo título, ele faz a seguinte afirmação: “Cosmos é uma palavra grega para a ordem do universo. É, de certa forma, o oposto do caos. Implica a profunda interconexão de todas as coisas”. Nesta definição que ao que parece inofensiva de toda a estrutura do trabalho de Sagan, ele assume que o universo investigado pela ciência é um cosmos em vez de um caos. Ele fala do cosmos que “implica uma profunda interconexão de todas as coisas.” Esta é a grande pressuposição da investigação científica, a saber, que o universo que estamos buscando conhecer é coerente. Há uma interconexão implícita profunda de todas as coisas. A alternativa ao cosmos, como Sagan indicou, é o caos. Se o universo é fundamentalmente caótico, então toda a empreitada científica desmorona. Se o universo é caótico e desconectado, então nenhum conhecimento é possível. Mesmo pequenos fragmentos discretos de dados atômicos não podem ser compreendidos dentro do contexto de um caos absoluto, portanto, a pressuposição de uma ordem coerente e racional de todas as coisas é a pressuposição evidente dos cientistas.

Esta ideia de uma coerência presumida tem suas raízes na investigação filosófica antiga. Os antigos gregos, por exemplo, buscavam a realidade suprema. Buscaram um princípio fundamental para a unidade que fizesse sentido a partir da diversidade. Esta unidade suprema é o que a ciência da teologia oferece. A ciência da teologia fornece a pressuposição necessária para a ciência moderna. Este é precisamente o argumento que levou o proeminente filósofo Antony Flew à sua conversão do ateísmo para o deísmo, ou seja, a necessidade essencial de uma base coerente para a realidade a fim de tornar qualquer conhecimento possível. Esta coerência suprema não pode ser proporcionada pela contingência deste mundo. Requer uma ordem transcendente.

Na Idade Média, uma crise surgiu no campo da filosofia com o renascimento do que os pensadores muçulmanos chamavam de “aristotelismo integral”. Em sua tentativa de alcançar uma síntese entre a filosofia aristotélica e a teologia muçulmana, esses pensadores produziram um conceito chamado “teoria da dupla verdade”. A teoria da dupla verdade argumentava que o que era verdadeiro na religião poderia ser falso na ciência, e o que era verdadeiro na ciência poderia, ao mesmo tempo, ser falso na religião. Para traduzir isso em categorias contemporâneas, seria algo assim: Como cristão, alguém poderia acreditar que o universo surgiu através do ato intencional de um Criador divino, enquanto ao mesmo tempo acredita que o universo emergiu sem causa aparente como um acidente cósmico. Essas duas verdades examinadas pela lógica pareceriam ser contraditórias. No entanto, a teoria da dupla verdade diria que a verdade é contraditória, e alguém poderia sustentar essas ideias contraditórias ao mesmo tempo. Esse tipo de esquizofrenia intelectual domina o dia em nossa época, onde as pessoas pensam que Deus não teve nada a ver com a formação do cosmos de segunda a sábado, apenas para se tornarem criacionistas no domingo, e falham em ver que os dois conceitos são totalmente irreconciliáveis.

Neste ponto, surge a pergunta: “Bem, a lógica, de fato, conta em nossa tentativa de entender a realidade?” Se vamos assumir coerência e cosmos, a lógica tem que contar não apenas para algo, mas para tudo. Tomás de Aquino respondeu ao aristotelismo dos filósofos muçulmanos medievais substituindo as verdades duplas pelo conceito de artigos mistos, ao distinguir natureza e graça (não as dividindo, como muitos de seus críticos alegam). Aquinas disse que existem certas verdades que podem ser conhecidas através de revelação especial que não são discernidas pela investigação do mundo natural, enquanto ao mesmo tempo existem certas verdades aprendidas a partir do estudo da natureza que não são encontradas, por exemplo, na Bíblia. Não se encontra o sistema circulatório do corpo humano claramente exposto nas Escrituras. O que Tomás de Aquino estava afirmando era que existem certas verdades que são artigos mistos, verdades que podem ser conhecidas tanto pela Bíblia quanto por um estudo da natureza. Entre esses artigos mistos, ele incluiu o conhecimento da existência de um Criador.

A ideia central, é claro, que Tomás de Aquino estava argumentando, em concordância com seu famoso predecessor, Agostinho, era que toda verdade é a verdade de Deus, e que toda verdade se encontra no topo. Se a ciência contradiz a religião, ou se a religião contradiz a ciência, pelo menos uma delas deve estar errada. Houve momentos na história em que a comunidade científica corrigiu não a Bíblia, porém interpretações errôneas da Bíblia, como vimos no escândalo de Galileu. Por outro lado, a revelação bíblica pode atuar como um freio intelectual sobre teorias científicas que são infundadas. Em qualquer caso, se o conhecimento é possível, o que Sagan assumiu deve continuar a ser assumido, ou seja, para que a verdade seja conhecida, para que a ciência seja possível, deve haver uma realidade coerente que estamos buscando conhecer.


Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

R.C. Sproul

R.C. Sproul

O Dr. R.C. Sproul foi fundador do Ministério Ligonier, primeiro pastor de pregação e ensino da Saint Andrew's Chapel em Sanford, Flórida, e primeiro presidente da Reformation Bible College. Seu programa de rádio, Renewing Your Mind, ainda se transmite diariamente em centenas de estações de rádio ao redor do mundo e também pode ser ouvido online. Ele escreveu mais de cem livros, entre eles A Santidade de Deus, Eleitos de Deus, Somos todos teólogos e Surpreendido pelo sofrimento. Ele foi reconhecido em todo o mundo por sua defesa clara e convincente da inerrância das Escrituras e por declarar a necessidade que o povo de Deus tem em permanecer com convicção em Sua Palavra.