
A verdadeira natureza da reclamação
julho 13, 2026A obra do Espírito Santo na história
Composto no século VIII e parte do breviário romano das Vésperas, Veni Creator Spiritus é um hino que exalta o Espírito Santo. A magnífica tradução de John Dryden expressa as linhas iniciais desta forma: “Espírito Criador, por cuja ajuda os alicerces do mundo foram primeiramente lançados.”
A atividade do Espírito Santo como Criador aparece no segundo versículo da Bíblia. Ao descrever a criação não desenvolvida como “sem forma e vazia” e em “trevas”, o autor descreve o Espírito de Deus como pairando “por sobre as águas” (Gn 1:2). Para formar um suporte deste capítulo de abertura das Escrituras está a declaração da criação do homem: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (v. 26). O pronome “nossa” é com frequência interpretado como uma referência à divindade triúna, que inclui o Espírito Santo. Desde o princípio, o Espírito Santo tem realizado a obra criativa de Deus. Na criação do mundo, bem como na criação do homem em particular, o Espírito Santo é especialmente revelado.
Pentecostes
No alvorecer da era do novo pacto, o Pentecostes seria demonstrativo de uma obra semelhante de criação ou, melhor, recriação. A humanidade caída deve ser transformada pelo Espírito Santo a um grau desconhecido sob o antigo pacto.
Após Sua ressurreição, Jesus ilustrou o significado de Pentecostes ao soprar sobre Seus discípulos e dizer: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20:22). A ação é uma lembrança da sequência inicial de Gênesis: o Espírito Santo, o sopro de Deus, é o agente do “fôlego de vida” (Gn 2:7; veja também Jo 20:22). Assim como Deus soprou vida em Adão, Jesus, o último Adão, soprou nova vida em Seu povo. Jesus se tornou, na linguagem de Paulo, “espírito vivificante” por causa de Seu envio do Espírito Santo (1 Co 15:45). Pentecostes foi um evento épico que significa o amanhecer de uma nova era.
A meio caminho entre a criação e a recriação final de todas as coisas, o Pentecostes é o momento em que se pode dizer: “Os fins dos séculos chegou” (1 Co 10:11). O Espírito deu aos discípulos uma compreensão clara do papel de Jesus na redenção e consumação, e preparou eles com uma ousadia extraordinária para tornar Jesus conhecido. O dom de línguas que acompanhou a efusão do Espírito permitiu que pessoas de diferentes países ouvissem o evangelho em suas próprias línguas. Num instante, a maldição de Babel foi revertida (Gn 11:7-9). Discípulos com o poder do Espírito Santo foram assim motivados e habilitados a levar a mensagem de reconciliação às nações do mundo, na certeza de que Deus cumpriria o que havia prometido (Lc 24:48; At 1:4). O que parece ser uma bênção para os gentios prova ser um julgamento sobre aqueles israelitas que rejeitaram seu Messias. O próprio som do evangelho em idiomas diferentes que a sua confirmou a ameaça de aliança de Deus emitida em Isaías: “Pelo que por lábios gaguejantes e por língua estranha falará o Senhor a este povo” (Is 28:11). O que deveria ser uma bênção para as nações provou ser o próprio instrumento de endurecimento para Israel, até que a “plenitude” dos gentios seja alcançada (Rm 11:25).
Com esta interpretação sobre Pentecostes, uma repetição não pode ser imaginada. Embora a história registre muitos “derramamentos” do Espírito Santo em manifestações extraordinárias de avivamento, nenhum destes, estritamente falando, é uma repetição de Pentecostes. Pentecostes marcou o grande ponto de virada entre as administrações do antigo e do novo pacto. Os dias de tipo e sombra foram substituídos por dias de cumprimento e realidade. Pentecostes sinalizou o fim de um sistema redentor amplamente (ainda que não exclusivamente) focada em Israel étnico, e anunciou em vez disso o alvorecer de uma comunidade de pacto composta por todos os povos, que foi bastante sugerida no Antigo Testamento, mas nunca realizada. A manifestação miraculosa que acompanhou o Pentecostes em si era indicativa da singularidade do momento. Marcou o aparecimento dos apóstolos: os construtores fundacionais da igreja de Deus, e não os que a edificam continuamente (Ef 2:20).
A Bíblia
Como peregrinos-santos regenerados, habitados e santificados pelo Espírito Santo, a caminho da nova Jerusalém, ainda precisamos de sabedoria; isso o Espírito fornece. É Ele quem garantiu que um guia seguro para o céu seria dado ao povo de Deus. Ao falar sobre o Antigo Testamento, Pedro pôde dizer que nenhuma parte dele foi produto da invenção do homem, “entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2 Pe 1:21). E Paulo pôde reafirmar essa verdade que “toda a Escritura é inspirada por Deus” (2 Tm 3:16). Como exatamente o Espírito realizou isso permanece um mistério. Há as impressões digitais discerníveis dos autores humanos em toda a Bíblia. Ao mesmo tempo, cada parte dela, até o menor traço de uma caneta (veja Mt 5:18), é resultado da inspiração divina. Em dois processos, revelando sabedoria e verdade aos autores bíblicos e inspirando, o Espírito exerce Seu senhorio ao inspirar de maneira infalível as Escrituras. Em três processos, recebendo e reconhecendo (canonização), preservando e traduzindo, a igreja responde à obra do Espírito Santo na formação das Escrituras.
A Bíblia, a regra e guia do Espírito, é o que os cristãos precisam para a santidade e redenção final. Pela iluminação do Espírito sobre o texto escrito, a vontade de Deus se torna clara. Como cristãos, estamos atualmente esperando “novos céus e nova terra, nos quais habita justiça” (2 Pe 3:13). No estado de glória, como aponta o teólogo holandês Geerhardus Vos, o Espírito Santo será “o alicerce eterno da vida ressuscitada.” O Espírito Santo, que serviu ao Pai e glorificou ao Filho, será então Aquele que sustenta as vidas eternas dos santos. Até aquele dia, quando “Deus [será] tudo em todos” (1 Co 15:28), atravessamos um terreno cheio de obstáculos e adversidades. Enfrentamos três inimigos: o mundo, a carne e o diabo. O Espírito Santo, o agente representante de Cristo em nossos corações, garante que a vitória é certa. Ele assegura que a escravidão e a frustração que entraram no mundo pela queda de Adão sejam revertidas.
Nova criação
No outro extremo da Bíblia, o livro de Apocalipse descreve os “sete Espíritos” que são “enviados por toda a terra” (Ap 5:6; veja também 1:4); os Espíritos são simbólicos do Espírito Santo como o Imanente que realiza os propósitos divinos. O Espírito que pairava sobre a criação sem forma agora paira sobre o cosmos, e busca realizar uma nova criação, garantindo assim sua formação segundo o plano perfeito de Deus.
Como o artista divino, o Espírito Santo garantiu a beleza do Éden tanto quanto o resto da criação: “Era muito bom” (Gn 1:31). Observe a observação de Moisés de que, no modelo do tabernáculo (o símbolo da presença de Deus com Seu povo redimido), seus arquitetos, Bezalel e Aoliabe, foram cheios “do Espírito de Deus” (Êx 31:3). Moisés parece se deleitar com sua preocupação pela beleza e ordem. O tabernáculo proporcionava um prazer estético evidente e isso revelava o propósito do Espírito Santo (Êx 35:30-35). Da mesma forma, o Espírito Santo está por trás de toda obra de arte. Como João Calvino escreveu, “Diz-se que o conhecimento de tudo o que é mais excelente na vida humana nos é comunicado através do Espírito de Deus.”
O objetivo em vista para o Espírito é a glória: aquela glória que Adão não conseguiu alcançar no jardim. Quando os profetas do Espírito Santo descrevem a obra do Espírito Santo, vislumbram essa glória restaurada após seja derramado,
sobre nós o Espírito lá do alto
então, o deserto se tornará em pomar
e o pomar será tido por bosque;
o juízo habitará no deserto,
e a justiça morará no pomar.
O efeito da justiça será paz,
e o fruto da justiça, repouso e segurança, para sempre (Is 32:15-17).
O Espírito Santo de Deus, que primeiro pairou sobre as águas da criação, falou através dos profetas e apóstolos e foi derramado no Pentecostes como testemunho da promessa de Cristo de outro Paracleto (consolador, sustentador, conselheiro, aquele que capacita). Jesus continua Seu ministério aos Seus discípulos por meio do Espírito como Seu agente e representante pessoal. A obra do Espírito Santo, em todos os momentos, é chamar a atenção para Cristo. Jesus declarou: “Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar” (Jo 16:14).
Do começo ao fim, o objetivo do Espírito Santo é realizar a nova criação na qual o esplendor da obra de Deus será exibido. É principalmente sobre a obra do Espírito Santo que cantamos nas palavras de Charles Wesley:
Conclui, então, Tua nova criação;
Que puros e sem mácula sejamos;
Deixa-nos ver Tua grande salvação
Perfeitamente restaurada em Ti;
Transformados de glória em glória,
Até que estejamos no céu,
Até que lancemos nossas coroas diante de Ti,
Perdidos em admiração, amor e louvor.
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.
Nota do editor: Este artigo foi publicado originalmente em julho de 2004.

