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A vocação e o cristão

Nota do Editor: Este é o penúltimo de 19 capítulos da série da revista Tabletalk: Palavras e frases bíblicas mal compreendidas.

As Escrituras deixam claro que os cristãos devem ser o sal e a luz do mundo. Porém, como exatamente fazemos isso?

Embora não sejamos salvos por nossas boas obras, a Bíblia ensina que Deus as espera dos cristãos. O que, exatamente, Ele quer que façamos e onde quer que façamos? De acordo com as Escrituras, Deus providencialmente governa e cuida de toda a Sua criação. Como isso acontece nas sociedades humanas, dada a realidade do pecado?

Hoje, em nosso mundo bastante secularizado, os cristãos também enfrentam outras questões: devem se envolver na política? Como podem recuperar o casamento cristão? Como os pais cristãos devem criar os filhos? Como os cristãos podem viver sua fé no local de trabalho? Um tema central da Reforma ajuda muito a responder a essas perguntas: a doutrina da vocação.

VIVA COMO VOCÊ FOI CHAMADO

Como aconteceu com outros termos teológicos, a palavra “vocação” foi incorporada ao vernáculo secular e recebeu um significado muito restrito, e tornou-se sinônimo de “trabalho” ou “ocupação”. Os cristãos também absorveram esse significado secular, de modo que muitas vezes se supõe que a doutrina da vocação tem a ver com a forma como os cristãos podem glorificar a Deus em seu trabalho.

O conceito teológico inclui isso, mas a doutrina da vocação — desenvolvida por Martinho Lutero, João Calvino, os puritanos e outros teólogos da Reforma — é muito mais. Equivale a uma teologia da vida cristã ou, dito de outra forma, a uma teologia de como viver no mundo.

A palavra “vocação” significa simplesmente “chamado”, então as passagens que usam esses termos nos ensinam sobre vocação. Por exemplo, em 1 Co 7, o apóstolo Paulo usa vários derivados de “chamado”, que culminam neste texto-chave: “Ande cada um segundo o Senhor lhe tem distribuído, cada um conforme Deus o tem chamado. É assim que ordeno em todas as igrejas” (1 Co 7:17). Deus nos designa uma vida e logo Deus nos chama para ela. Esta é a doutrina da vocação em poucas palavras. Observe que nada é dito sobre escolher uma vocação ou encontrar sua verdadeira vocação ou ser realizado em sua vocação. Podemos experimentar ou lutar com tudo isso, mas a vocação é fundamentalmente obra de Deus.

No contexto, o apóstolo Paulo em 1 Co 7 está falando principalmente sobre a vocação do casamento. É melhor casar ou ficar solteiro? Ele também aborda a questão da identidade étnica e nacional, se é melhor ser judeu ou gentio. Também aborda o sistema econômico greco-romano, se alguém pode ser cristão e escravo e se é lícito buscar a liberdade. Por trás de todos esses “chamados” está o chamado para a salvação, no qual a Palavra de Deus chama os indivíduos por meio do evangelho e cria fé em seus corações.

Portanto, essas passagens abordam o que Lutero chamou de vários “estados” que Deus designou para a vida humana, nos quais temos nossos múltiplos chamados: a casa, o Estado e a igreja. Em cada caso, para todas as questões levantadas em 1 Co 7, a resposta de Paulo é a mesma: “Andem como vocês foram chamados.”

O QUE DEUS ESTÁ FAZENDO NA SUA VIDA

Podemos perguntar: “O que Deus está fazendo em minha vida?”. A vocação nos encoraja a fazer outra pergunta: “O que Deus está fazendo ‘através’ da minha vida?”.

Deus governa providencialmente e cuida de Sua criação humana, entre outros meios, pela vocação. Ele nos dá o pão de cada dia por meio da vocação de lavradores, moleiros e padeiros (veja 2 Co 9:10). Ele nos protege por meio das vocações das autoridades governantes, inclusive aqueles que “empunham a espada”, como policiais, soldados e juízes (veja Rm 13:1-7). Ele cria e cuida dos filhos pela vocação das mães e dos pais (cf. Sl 127). Ele proclama e ensina a Sua Palavra por meio da vocação do ministério (Rm 10.14-17).

Lutero descreveu a vocação como uma “máscara de Deus”. Considere todos os que trabalham ou trabalharam para você, as pessoas que construíram sua casa, fizeram suas roupas, fabricaram seu carro, limparam sua sujeira, serviram sua refeição, curaram suas doenças e assim por diante. Atrás dessas pessoas comuns, Deus está por trás, abençoando você por meio delas.

Você também é uma máscara de Deus. Ele está abençoando outras pessoas através de você, mesmo que você não perceba: seu cônjuge, seus filhos, seus colegas, seus clientes, seus colegas cristãos.

O PROPÓSITO DE DEUS PARA TODAS AS VOCAÇÕES

Deus deseja que o amemos e amemos nosso próximo como a nós mesmos (Mt 22:34-40). Portanto, o propósito de toda vocação — no casamento, na paternidade, no local de trabalho, na nação e na igreja — é que amemos e sirvamos nosso próximo (veja Gl 5:13-15).

Cada vocação traz um próximo para nossas vidas. O casamento nos dá nosso cônjuge; paternidade, nossos filhos; o local de trabalho, nossos colegas e clientes; nossa nação, nossos concidadãos; nossa igreja, os membros de nossa congregação. Esses são os próximos a quem Deus quer que amemos e sirvamos. Quando o fazemos, nosso amor e serviço se tornam um canal para o amor e serviço de Deus.

Infelizmente, a verdade é que muitas vezes deixamos de amar esses próximos. Às vezes usamos, até maltratamos. Em vez de servi-los, queremos que nos sirvam. Essa é a raiz do problema dos conflitos em casamentos, negócios e congregações. Isso quer dizer que pecamos em nossas vocações. Deus pode continuar trabalhando através de nós, mas estamos lutando contra Ele.

Devemos confessar esses pecados, receber o perdão e corrigir o que está errado. E quando o fazemos, crescemos em fé e amor. A santificação também se encontra na vocação.

Este artigo foi publicado originalmente na Tabletalk Magazine.

Gene Edward Veith
Gene Edward Veith
O Dr. Gene Edward Veith é reitor e professor emérito de Literatura na Patrick Henry College, em Purceville, Virgínia. Ele é autor de diversos livros, entre eles Deus em ação.