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outubro 22, 2025Como ler os Profetas?
Nota do Editor: Este artigo faz parte da coleção sobre Hermenêutica
Os Profetas são difíceis de entender. Em parte, isso ocorre porque Deus se revelou a eles em sonhos e visões. Apenas com Moisés Deus falava face a face (Nm 12:6-8). Os Profetas Maiores incluem Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel. Os Profetas Menores incluem Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias. Aqui estão alguns conselhos que ajudarão você a ler e entender os Livros Proféticos.
1. Investigue o contexto.
Primeiro, entenda o máximo possível sobre o contexto histórico, o cenário social e o profeta que você está lendo. Uma boa Bíblia de estudo, como A Bíblia de Estudo da Fé Reformada, pode ajudar com isso.
2. Reconhecer o papel dos profetas como advogados da aliança de Deus.
Segundo, reconheça que os profetas eram, em essência, advogados da aliança de Deus. Embora eles falassem sobre muitas partes da aliança — por exemplo, o preâmbulo e o prólogo histórico (“Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito”), e com frequência lembrassem o povo de sua responsabilidade de cumprir os mandamentos de Deus (ou seja, “estipulações”) — seu propósito principal era comunicar as sanções da aliança. Na linguagem popular de hoje, tendemos a ver as sanções apenas como negativas (p. ex., “sanções econômicas”). Porém nas Escrituras, as sanções podem ser positivas ou negativas. Em outras palavras, bênçãos pela obediência e maldições ou punições pela desobediência. Como bons advogados, os profetas compilaram suas ações judiciais contra o rei ou o povo e pregaram a eles sobre como falharam em viver segundo os padrões de Deus.
3. Se familiarize com a linguagem profética.
A linguagem profética é um aspecto importante de como os Profetas falam de acontecimentos futuros. Aqui, a tese central é que os Profetas, que anunciam de modo contínuo sobre a organização e o sustento de Israel, suas tribos, sua terra e seu templo, estão muitas vezes se referindo a realidades futuras da nova aliança. Por isso, o leitor deve estar sempre se perguntando: “O profeta está se referindo principalmente aos eventos contemporâneos do seu contexto? Ou ele está falando de acontecimentos futuros?” Portanto, a linguagem profética é a forma de expressão usada pelos profetas do Antigo Testamento para representar, por meio da tipologia de Israel, as realidades messiânicas da era da nova aliança. Essa é a essência da linguagem profética e, se não a reconhecermos, interpretaremos os Profetas de forma errada.
Paulo entendia bem essa verdade, como demonstrou ao argumentar perante Agripa (At 26:19-29). Paulo apela aos profetas para que falem sobre Cristo e a sua missão aos gentios. A maneira como os profetas se expressam, utilizando uma linguagem figurativa, demanda (sobretudo para o crente da nova aliança) a separação entre a linguagem simbólica e a verdadeira realização das promessas da nova aliança.
Em síntese, na linguagem profética, os profetas com frequência descrevem a nova aliança nos termos das circunstâncias das instituições da antiga aliança. O discurso profético, os símbolos que os profetas usam, a linguagem que eles usam em suas descrições, é muitas vezes usado para representar o que está por vir em Cristo Jesus e para toda a humanidade. Isso se torna importante, por exemplo, nas descrições de exílio e dispersão, na reunião das tribos, no retorno à terra e na forma que as maldições se manifestam. Embora os profetas não falem com onisciência a respeito do futuro, eles frequentemente falam da certeza da vinda de Deus em Jesus Cristo, da nova aliança e até mesmo da segunda vinda de nosso Senhor, sem diferenciar todas as partes. No entanto, ainda há uma unidade integral nos vários estágios sobre os quais eles falam sob a inspiração do Espírito Santo.
Por exemplo, quando Joel fala sobre o derramamento do Espírito e o dia grandioso e temível da vinda do Senhor, ele não se dirigia apenas à sua audiência original (Jl 2:28-32). Joel 2 é citado em Atos no Pentecostes (At 2:17-21). As imagens expressas em Atos 2:28-3 se tornam evidentes na cena da crucificação de Cristo. Pode-se sustentar de maneira válida que a profecia de Joel se cumpre de forma definitiva na segunda vinda de Cristo. Por conseguinte, ainda que Joel tivesse uma única intenção, suas palavras possuem várias referências, ou seja, se manifestam em diversos momentos ao longo da história redentora. É por isso que esta passagem sobre o derramamento do Espírito foi uma das passagens favoritas de João Calvino para explicar como a linguagem profética opera.
4. Sempre procure identificar quando as Escrituras do Novo Testamento citam, aludem ou reiteram os Profetas.
Quarto e finalmente, uma vez que Cristo disse aos Seus discípulos no caminho para Emaús que todas as Escrituras falavam sobre Ele e Seu ministério (ou por extensão, Seu corpo, que é a igreja), Precisamos estar constantemente atentos a como as Escrituras do Novo Testamento citam, mencionam ou reiteram os Profetas. Por exemplo, Pedro (tendo sido testemunha da transfiguração) percebeu que a passagem fundamental em Deuteronômio 18:15-19, que fala sobre Moisés como o profeta modelo de todos os profetas subsequentes, alcançou sua consumação em Cristo, o Profeta definitivo (ver At 3:17-26). O autor de Hebreus confirma ainda mais essa interpretação, que entendeu que Moisés foi fiel como servo sobre Sua casa (a antiga aliança), porém Cristo é fiel como filho sobre Sua casa, isto é, a nova aliança. Além disso, Deus é quem estabeleceu toda a casa, tanto a antiga quanto a nova (Hb 3:1-6).
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

