
Desafios contemporâneos à soteriologia cristã
agosto 28, 2026O desenvolvimento da soteriologia sacerdotal católica romana
A controvérsia pelagiana foi oficialmente resolvida em favor de Agostinho por vários concílios nos séculos V e VI. Ficou evidente que o pecado de Adão impactou toda a sua posteridade e que a salvação era pela graça de Deus somente. Tanto o pelagianismo quanto o semi-pelagianismo foram condenados. Infelizmente, havia correntes de pensamento na igreja que eventualmente empurrariam a igreja de volta em uma direção semi-pelagiana, apesar das declarações oficiais da igreja.
O neoplatonismo, por exemplo, concebia a salvação humana em termos da ascensão da alma a Deus através de várias práticas ascéticas. Tais ideias se tornaram enraizadas nas comunidades monásticas cristãs, cuja influência teológica no desenvolvimento da doutrina foi profunda. Essas ideias também são encontradas nos escritos de teólogos de enorme influência, como Agostinho e Pseudo-Dionísio.
Na época da Reforma, muitos dos avanços obtidos na luta contra o pelagianismo foram perdidos. Um sistema eclesiástico-sacerdotal de salvação, que dependia mais do mérito individual do que da graça de Deus, havia se tornado dominante.
Compreender a soteriologia católica romana é importante. A doutrina reformada da salvação não pode ser plenamente compreendida sem entender o sistema de teologia do qual ela surgiu e ao qual estava respondendo.
Para compreender a doutrina da salvação da Igreja católica romana, é necessário voltar no tempo até Adão. Segundo a teologia católica romana, Adão foi criado bom e podia alcançar seus fins naturais, mas Adão não era, por natureza, capaz de alcançar seu fim escatológico último, a saber, a visão beatífica de Deus. Para alcançar esse objetivo, Adão precisava ser elevado da ordem natural do ser para a ordem sobrenatural do ser. Ele precisava receber a capacidade de usar sua razão para controlar desejos pecaminosos. Isso foi alcançado por meio do dom da graça santificante que Deus deu a Adão, que está acima e além de sua natureza humana. Portanto, é um dom “superadicionado” (donum superadditum). Ele elevou a natureza humana de Adão e o uniu a Deus. Tornou-o capaz de merecer seu objetivo escatológico supremo.
Quando Adão pecou, ele caiu do estado sobrenatural do ser. A queda implicou a perda do dom superadicionado da graça, porém não destruiu sua natureza. Durante a era medieval, houve divergências de opinião quanto à extensão dos danos causados à natureza humana de Adão, especialmente suas faculdades de razão e vontade. Alguns afirmavam que sua natureza humana não foi danificada de forma alguma e que Adão apenas retornou ao estado em que foi criado antes de receber o dom da graça. Outros argumentavam que sua natureza foi ferida. De qualquer forma, a posteridade de Adão nasce nesse estado caído.
Na teologia, o que quer que se veja como o problema ditará a natureza da solução. A doutrina da salvação de alguém, por conseguinte, depende em grande parte da doutrina da criação, do pecado e dos resultados da queda. Dado que os católicos romanos medievais viam o problema do homem como a perda do dom da graça santificante, eles naturalmente entendiam a salvação como a recuperação desse dom. Então, a salvação no sistema católico romano, envolve humanos caídos sendo reelevados à ordem sobrenatural do ser. Como isso é realizado? Através dos sacramentos da Igreja católica romana. Em outras palavras, a doutrina católica romana da igreja e dos sacramentos é a doutrina católica romana da salvação. É por isso que me referi a ela como o sistema de salvação eclesio-sacerdotal católico romano (“eclesio” referindo-se à igreja, e “sacerdotal” aos sacramentos).
No sistema católico romano, o batismo é o sacramento que eleva um filho de Adão à ordem sobrenatural do ser da qual Adão caiu. Ele une essa pessoa a Deus e a purifica de todo pecado. Por meio do batismo, o dom da graça santificante é implantado na alma, e a pessoa batizada é tornada justa. Esta graça santificante também é conhecida como graça justificadora. É por isso que o batismo é entendido como o meio instrumental de justificação no sistema de salvação católico romano.
Após o batismo, o novo crente recebe o sacramento da confirmação, que aumenta e fortalece sua graça santificante. O crente também aumenta e fortalece sua graça santificante ao participar do sacramento da Eucaristia. Enquanto o crente permanecer neste estado elevado de santificação ou justificação, ele ou ela pode realizar as boas obras necessárias para merecer a salvação no final. E enquanto alguém morrer neste estado de graça, o pior que pode acontecer é que ele ou ela passará um tempo no purgatório antes de ir para o céu.
Se um crente comete um pecado mortal (ou seja, um pecado considerado uma ofensa grave), no entanto, essa pessoa cai do estado de graça. Se alguém morre fora do estado de graça, essa pessoa não vai para o purgatório. Em vez disso, essa pessoa vai para o inferno. É necessário retornar ao estado elevado de graça para ter alguma esperança de salvação. A pessoa deve ser rebatizada? Não. Uma pessoa pode ser batizada apenas uma vez. O pecador não tem esperança? Não, porque a Igreja católica romana tem outro sacramento para esse propósito. O pecador que caiu do estado de graça deve ir à igreja e receber o sacramento da penitência. Por meio deste sacramento, o pecador é reelevado ao estado de justificação no qual pode realizar as obras necessárias para merecer a salvação escatológica.
Na época da Reforma, este sistema eclesiástico-sacerdotal de salvação dominava a igreja ocidental. Os cristãos eram forçados a viver em um estado de incerteza espiritual, nunca podendo ter certeza de que estavam em estado de graça. E como só se podia ir para o céu se morresse em estado de graça, o impacto na vida espiritual das pessoas era grande. Em nosso próximo artigo, examinaremos a grande descoberta feita pelos reformadores que lhes permitiu levar de novo boas notícias ao povo europeu.
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

