
Porque Deus amou ao mundo
outubro 19, 2026Os atributos do amor
No início do século XVII, o Arcebispo Ussher da Irlanda desejava visitar a casa de um pastor presbiteriano para ver se o que ele tinha ouvido sobre a piedade pessoal do homem era verdade. Ussher chegou à casa do pastor disfarçado de um pobre mendigo. Ele foi recebido dentro de casa, onde a esposa estava catequizando a família. Ela perguntou ao visitante inesperado quantos mandamentos havia. Quando ele respondeu: “Onze”, ela o considerou um homem muito ignorante e não lhe perguntou mais nada, mas o alimentou e o mandou dormir.
O pastor descobriu a artimanha de Ussher mais tarde naquela noite e pediu-lhe que pregasse na manhã seguinte. Assim, Ussher, agora limpo e vestido de forma que a esposa não o reconhecesse, subiu no púlpito. Ele pregou sobre o que disse que poderia ser considerado “o décimo primeiro mandamento”, isto é, Jo 13:34: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros.” A esposa do pastor ficou espantada que o mendigo tivesse se transformado em pregador, e que ela o tivesse julgado tão mal e não lhe mostrado mais amor.
O que é amor? Como você sabe se está cumprindo o mandamento de Cristo de amar seus irmãos e irmãs cristãos? Como uma pessoa amorosa trata os outros? A mídia popular muitas vezes apresenta o amor como sentimentos de atração e prazer, mas tais sentimentos sobem e descem como o mercúrio em um termômetro. Precisamos de um amor que seja menos como um termômetro e mais como um termostato, que controla nossas reações em vez de ser controlado por elas.
Outros falam do amor como aceitação incondicional e sem julgamentos, derivada do conceito psicológico de consideração positiva incondicional. Porém essa abordagem bastante simplista é confusa e nos deixa impotentes diante da malícia e do mal. Como você aceita incondicionalmente e sem julgamentos um terrorista ou um assassino em série?
Muitos cristãos hoje acreditam que as palavras gregas-chave para amor no Novo Testamento, agapē e o verbo relacionado agapaō, denotam não um sentimento, mas um ato de vontade de fazer o bem aos outros às nossas próprias custas. Contudo essa ideia não pode ser baseada nas diferentes palavras para amor em grego, já que o grupo de palavras agapē pode significar várias coisas em diferentes contextos. Além disso, um conceito de amor sem emoção nos deixa incertos sobre o que fazer com nossos sentimentos. Também falha em lidar com as motivações profundas e muitas vezes ocultas que impulsionam nossas escolhas.
Então, onde podemos encontrar uma verdadeira descrição do amor? O apóstolo Paulo nos deu uma excelente descrição dele em 1 Coríntios 13:4-7. Paulo exalta o amor (em outras versões: “caridade”, do latim caritas) como “um caminho sobremodo excelente” (1 Co 12:31), superior aos dons espirituais (cap. 12) e absolutamente necessário para uma vida de qualquer valor quando colocado na balança de Deus (1 Co 13:1-3). Os versículos 4-7 exibem a beleza dos atributos e atividades do amor. Não são tanto uma definição da essência do amor quanto uma descrição dos frutos do amor; nos mostram como o amor motiva certas ações ou comportamentos e se opõe a outros.
A descrição começa com paciência e termina com perseverança (vv. 4, 7). O amor mostra suas verdadeiras cores em como responde a provações, sofrimentos e maldades. A maior demonstração de amor é a crucificação de Cristo. Paulo escreveu em Romanos 5:8: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.” O Paulo que afirmou que não sabia nada além de “Jesus Cristo e este crucificado” (1 Co 2:2) claramente pensava muito sobre o amor de Cristo. João destaca o amor que estava na essência da disposição de Cristo em morrer por nós quando declara: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos” (Jo 15:13).
O amor demonstra sua excelência de várias maneiras. Jonathan Edwards escreveu: “O amor é um princípio ativo” (Work [Obras] 8:301). Positivamente, o amor exerce paciência e demonstra bondade (1 Co 13:4). O amor não para de fazer o bem. Para atender às necessidades dos outros e glorificar a Deus, uma pessoa amorosa perseverará mesmo diante de situações desagradáveis ou dificuldades. O amor deseja retribuir a dor com bondade, retribuindo o mal com o bem. O amor cristão reflete a imagem de Deus, Aquele que é “compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade” (Êx 34:6).
Negativamente, o amor não inveja (1 Co 13:4). O amor contém o ciúme egoísta, porque aprendeu a dizer não a si mesmo e se deleita em ver os outros prosperarem. Não se ufana, não se ensoberbece (v. 4). Essas qualidades mostram que o amor é uma virtude humilde. O amor inspira uma preocupação com Deus e com outras pessoas, e reduz uma preocupação conosco mesmos. Jonathan Edwards escreveu que “todo aquele que ama a Deus o ama como Deus… Se amamos a Deus como infinitamente superior a nós, então o amor é exercido em nós como inferiores infinitos e, portanto, é um amor humilde” (Works [Obras] 8:245).
O amor não se conduz inconvenientemente (1 Co 13:5). O verbo grego traduzido como comportar-se “inconvenientemente” significa agir em desafio aos padrões, que resultam em desgraça. O amor inspira uma pessoa a fazer o que é honroso diante de Deus e dos homens (Rm 12:17b; 2 Co 8:21). Esta afirmação desqualifica qualquer visão antinomiana do amor; o amor se estende à lei de Deus (Sl 119:97) e se esforça para cumpri-la (Rm 13:8-10).
O amor não procura os seus interesses (1 Co 13:5), mas nos impele a buscar a glória de Deus e o bem do próximo. O amor nos transforma em servos (Fp 2). Não se exaspera, não se ressente do mal (v. 5). Exasperar-se é ser facilmente provocado à ira (At 17:16), porém o amor controla a ira. Perdoar é não manter um registro dos erros. O amor se deleita em não registrar os pecados das pessoas contra elas (Rm 4; 2 Co 5:19).
O amor não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade (1 Co 13:6). O amor é jubilante sempre que encontra retidão e fidelidade. No entanto, o amor se entristece com a notícia de que alguém caiu em pecado e pagou um preço alto por isso; assim, o amor não considera tal notícia como um convite saboroso para fofoca. Tal amor faz o bem, até mesmo aos inimigos.
O versículo 6 repreende o ídolo da tolerância relativista que muitas vezes passa por amor em nossa cultura; o amor sincero inclui o ódio ao mal (Rm 12:9). A maior demonstração do amor de Deus foi também a maior demonstração de Sua justiça, pois Seu Filho satisfez a justiça de Deus ao suportar a punição pelos nossos pecados (Rm 3:25-26). Assim, 1 Coríntios 13:6 corrige a noção cristã popular de que o amor não tem nada a ver com sentimentos. O amor tem fortes sentimentos contra o pecado e a favor da justiça.
Nas últimas quatro ações ou hábitos atribuídos ao amor (v. 7), o repetido “tudo” não deve ser lido como um universal absoluto ou sem qualificação. Esses versículos devem ser lidos no contexto do Novo Testamento. Quando Paulo usa a palavra tudo, ele quer dizer, respectivamente, que o amor suporta todos os fardos que devemos carregar como cruzes, acredita em todas as coisas que devemos acreditar como cristãos, espera por todas as coisas que devemos aguardar de acordo com a promessa de Deus, e suporta todas as provações que devemos enfrentar por causa de Cristo. Assim, o amor inspira essas quatro ações de maneira consistente.
O amor possui a força para perseverar em meio à dificuldade; em todas as circunstâncias, o amor continua acreditando e esperando. A tríade de fé, esperança e amor aparece muitas vezes nas Escrituras. À medida que os cristãos amam a Deus, seus corações se alegram em Seu amor fiel por eles, o que confirma sua fé e mantém suas esperanças vivas. Edwards disse que o amor é “a vida e a alma de uma fé prática”, aquilo que dá à fé sua vitalidade e produtividade (Works [Obras] 8:139, 330-31). O amor é “o ingrediente mais essencial na fé e na esperança” (8:327).
Aqui encontramos a descrição de Paulo sobre a atividade persistente do amor em um mundo pecaminoso e que sofre. O amor é um verbo. Contudo, o amor deve ser mais do que ações externas; sua essência reside nos motivos do coração. O que o impulsiona? Não pode ser ambição egoísta, pois o amor não é arrogante e não busca seus próprios interesses. Tampouco o amor pode ser movido por um prazer imediato na pessoa amada; caso contrário, o amor não seria paciente e gentil com pessoas caídas.
O que, então, impulsiona o amor? O texto nos dá duas pistas. Sua alegria está na verdade, isto é, na justiça e fidelidade divina. Assim, o amor se regozija no amor de Deus revelado em Cristo. “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4:19). Sua perseverança está entrelaçada com fé e esperança, isto é, ao olhar para Cristo e confiar na Sua Palavra. Edwards disse que o amor surge de uma “visão ou senso da excelência de Deus” (Works [Obras] 8:333). Portanto, concluímos que o amor é originado por Deus, focado em Deus e impulsionado por Deus. “Deus é amor” (1 Jo 4:8b). Nunca estamos mais profundamente em comunhão com Deus do que quando caminhamos em amor autêntico. Então, quão belos são os atributos e obras do amor.
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

