
O desenvolvimento da soteriologia sacerdotal católica romana
agosto 30, 2026A reforma na soteriologia no século XVI
A redescoberta da doutrina bíblica da salvação no século XVI não ocorreu de uma só vez. No início, os primeiros reformadores redescobriram o significado bíblico da palavra justificação. Perceberam que isso significava “declarar justo” em vez de “tornar justo”. Isso os levou a notar que a causa instrumental da justificação não era o batismo, mas a fé somente. Em outras palavras, a primeira coisa que os reformadores descobriram foi que a igreja do final da Idade Média tinha uma compreensão distorcida da solução para o grande problema do homem.
Com o tempo, à medida que trabalhavam no texto das Escrituras e comparavam seus ensinamentos com os da Igreja católica romana, eles foram capazes de descobrir que Roma tinha uma compreensão distorcida da solução, pois Roma tinha uma compreensão distorcida do problema. A soteriologia de Roma, ou doutrina da salvação (a solução), se desenvolveu da maneira que se desenvolveu por causa da forma como Roma entendia o resultado do pecado de Adão (o problema). Como observamos no artigo anterior, a Igreja católica romana ensinou que, quando Adão caiu, ele perdeu o dom superadicionado da graça justificadora/santificadora. Nessa perspectiva, Adão e sua posteridade precisavam recuperar essa graça para serem re-elevados à ordem sobrenatural do ser. Na opinião deles, isso apenas acontece através dos sacramentos da Igreja católica romana.
Ao estudarem as Escrituras, os reformadores perceberam que a doutrina católica romana sobre a queda do homem não fazia plena justiça ao texto. Eles passaram a entender que, na queda, o homem não perdeu meramente um dom de graça superadicionado, com pouco ou nenhum dano à sua natureza. Em vez disso, como a Confissão de Fé de Westminster expressaria mais tarde:
Eles decaíram de sua retidão original e da comunhão com Deus e, assim, se tornaram mortos em pecado e inteiramente corrompidos em todas as faculdades e partes do corpo e da alma (CFW 6.2).
O termo teológico que mais tarde descreveria este estado caído é depravação total.
É importante notar novamente que o que quer que se acredite ser o problema ditará a compreensão da solução (soteriologia). A doutrina da salvação de Pelágio é o que é por causa de sua compreensão do problema. A doutrina da salvação de Roma é o que é por causa de sua compreensão do problema. A salvação de um homem morto e a salvação de um homem ferido requerem meios totalmente diferentes.
As igrejas reformadas explicaram a solução divina para o problema do homem em termos do pacto que Deus fez entre Ele mesmo e o homem. A Confissão de Fé de Westminster oferece uma das declarações mais claras desta doutrina bíblica da salvação. O que se segue é, em grande medida, extraído desta confissão. Recomenda-se que os leitores obtenham uma cópia com os textos bíblicos de referência e estudem todos com atenção.
Como explica a Confissão de Fé de Westminster, antes da queda, Deus fez um pacto com Adão “nesse pacto, foi a vida prometida a Adão e, nele, à sua posteridade, sob a condição de perfeita e pessoal obediência” (CFW 7.2). É relevante notar que, em contraste com a doutrina de Roma, Adão tinha o poder e a capacidade de obedecer à lei antes da queda (CFW 4.2; 19.1). Além disso, a justiça original fazia parte de sua natureza, criada à imagem de Deus (CFW 4.2; 6.2). Não era, como ensinava a Igreja católica romana, um dom superadicionado à sua natureza.
Por causa da queda do homem, ele não é mais capaz de obedecer à lei perfeitamente e, assim, não é mais capaz de cumprir os termos do primeiro pacto. Portanto:
O Senhor dignou-se a fazer um segundo pacto, geralmente chamado de pacto da graça; nesse pacto da graça, ele livremente oferece aos pecadores a vida e a salvação através de Jesus Cristo, exigindo deles a fé para que sejam salvos, e prometendo seu Santo Espírito a todos os que estão ordenados para a vida, a fim de dispô-los e habilitá-los a crer (CFW 7.3).
O Filho unigênito, Jesus Cristo, foi ordenado desde toda a eternidade para ser o único Mediador entre Deus e o homem (CFW 8.1). Ele foi ordenado para salvar Seu povo, aqueles que Deus, por Sua livre graça e amor, escolheu em Cristo “segundo seu eterno e imutável propósito, e segundo o santo conselho e beneplácito de sua vontade, antes que fosse o mundo criado” (CFW 3.5).
O Senhor Jesus, pela sua perfeita obediência e pelo sacrifício de si mesmo, sacrifício que, pelo Eterno Espírito, ofereceu a Deus uma só vez, satisfez plenamente a justiça de seu Pai, e, para todos aqueles que o Pai lhe deu, adquiriu não só a reconciliação, como também uma herança perdurável no Reino dos Céus (CFW 8.5).
A redenção adquirida é aplicada por Cristo a todos os eleitos ao longo da história (CFW 8.8).
Porque o homem caído está em um estado de pecado e morte, e não apenas ferido ou doente, ele é incapaz de fazer qualquer coisa para receber a redenção adquirida por conta própria. Em vista disso, Deus chama eficazmente os eleitos da morte, assim como Cristo chamou Lázaro do túmulo. Ele os regenera, lhes dá vida espiritual e os atrai para Jesus Cristo (CFW 10.1). Aqueles a quem Deus chama, Ele justifica livremente. Eles são justificados, ou declarados justos, não com base em quaisquer obras próprias, mas com base na justiça imputada de Cristo recebida pela fé somente (CFW 11.1; 14.2). Aqueles que são eficazmente chamados e justificados também são santificados ao longo de sua vida:
O domínio de todo o corpo do pecado é destruído, suas várias concupiscências são mais e mais enfraquecidas e mortificadas, e eles são mais e mais vivificados e fortalecidos em todas as graças salvadoras, para a prática da verdadeira santidade sem a qual ninguém verá o Senhor (CFW 13.1; veja também 16.1-7)
Ao contrário da Igreja católica romana, as igrejas reformadas também ensinaram que:
Os que Deus aceitou em seu Amado, eficazmente chamados e santificados pelo seu Espírito, não podem cair do estado de graça, nem total nem finalmente; mas, com toda a certeza, hão de perseverar nesse estado até o fim, e estarão eternamente salvos (CFW 17.1).
Em nosso próximo artigo, examinaremos a maneira como alguns teólogos reformados nos Países Baixos ficaram insatisfeitos com a teologia confessional reformada e começaram a mover essa teologia de volta na direção de Roma. Também analisaremos a resposta da igreja reformada no Sínodo de Dordt.
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

