Os dons do Espírito Santo

julho 20, 2026

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Contribuições positivas de Agostinho para a doutrina cristã

Aurelius Augustinus, conhecido por nós como Agostinho de Hipona, nasceu em 354 d.C. em uma pequena cidade no norte da África. Durante toda a vida, seu pai foi pagão, mas foi batizado à beira da morte, e sua mãe era uma cristã devota que orava sem cessar por seu filho desviado. Com o tempo, essa criança do norte da África se converteria ao cristianismo. Ele também se tornaria o teólogo mais influente nos primeiros mil anos da história da igreja e um dos pensadores mais influentes em toda a história ocidental.

Quando jovem, Agostinho foi atraído pela religião dualista do maniqueísmo e, mais tarde, pelo neoplatonismo. Sua dramática conversão a Cristo se relata em suas Confissões. Em 395 d.C., Agostinho se tornou bispo de Hipona Régia no norte da África. Como um líder influente da igreja, ele esteve muito envolvido em duas grandes controvérsias teológicas e de várias menores durante sua vida As duas grandes controvérsias às quais ele dedicou muita energia e tinta foram a controvérsia donatista e a pelagiana. Suas contribuições para ambas moldaram permanentemente a trajetória da igreja ocidental.

Agostinho também deixou à igreja uma quantidade impressionante de escritos, entre eles extensos ensaios teológicos, tratados polêmicos, comentários bíblicos, além de cartas e sermões que somam centenas. Esses escritos foram importantes recursos teológicos na época em que foram escritos e continuam a ser importantes recursos teológicos até hoje.

Durante grande parte da história inicial e medieval da igreja, Agostinho foi uma das principais autoridades teológicas fora das Escrituras. Assim como um teólogo reformado hoje pode recorrer aos escritos de João Calvino para apoiar uma posição teológica, os primeiros teólogos recorriam com frequência a Agostinho para apoiar suas posições. Em alguns debates, como os debates da era da Reforma sobre a Ceia do Senhor, quem defendia pontos de vista opostos buscava Agostinho como aliado.

No século XII, Pedro Lombardo escreveu um texto teológico intitulado Os quatro livros das sentenças. Sentenças se tornaram o livro-texto teológico padrão nas universidades desde o início do século XIII até a época da Reforma. Todo teólogo de renome escrevia um comentário sobre as Sentenças de Lombardo como parte de sua educação obrigatória. Menciono as Sentenças de Lombardo, porque uma das coisas mais marcantes sobre elas é que seu conteúdo é um apelo quase contínuo aos escritos de Agostinho.

A questão é que o entendimento de Agostinho sobre a Escritura e a teologia teve um impacto tremendo na teologia primitiva, medieval e da Reforma. A igreja aprovou oficialmente muitos dos seus ensinamentos, e os teólogos da igreja após Agostinho tentaram desenvolver a partir de suas obras. Mesmo quando a igreja e seus teólogos se afastaram dos ensinamentos de Agostinho, realizaram isso de forma muito discreta. Ninguém dentro da cristandade ortodoxa queria ser considerado um opositor de Agostinho.

Se Agostinho ensinava algo, fosse esse algo bíblico ou não, isso permanecia com a igreja e influenciava todos na igreja por séculos. Isso significa que, se Agostinho acertou em algo, sua autoridade ajudou esse ensinamento a se tornar um guardião contra futuros erros. Entretanto, se Agostinho errou em algo, esse erro se intensificou por causa da influência que ele exerceu nos ensinamentos posteriores da igreja. Em geral, os teólogos ocidentais eram tão relutantes em contradizer Agostinho que tanto as verdades quanto os erros que ele ensinou se tornaram parte da doutrina da igreja.

O artigo anterior nesta edição da Tabletalk comenta sobre aqueles momentos em que Agostinho cometeu erros consideráveis. Muitas vezes, isso se deveu aos resquícios dos ensinamentos pagãos que Agostinho seguiu antes de sua conversão. No entanto, o foco deste artigo está nas contribuições positivas de Agostinho para a teologia cristã. Primeiro, examinaremos algumas de suas doutrinas específicas em seu contexto histórico. Ao fazermos isso, notaremos aquelas ideias em que os reformadores discordaram de certos aspectos de seu ensino. Isso é necessário porque, às vezes, há uma mistura de aspectos bons e ruins em Agostinho, mesmo nas áreas de seu ensino em que ele estava amplamente no caminho certo.

O próprio Agostinho encorajou esse tipo de abordagem aos seus escritos. Ele não sofria de ilusões de infalibilidade. Ele não acreditava que seus escritos estavam no mesmo nível das Escrituras. Numa carta recém-encontrada, Agostinho escreve:

Nós, que pregamos e escrevemos livros, temos um estilo de escrita que difere totalmente do estilo empregado na redação do cânon das Escrituras. Escrevemos enquanto progredimos. Aprendemos algo novo todos os dias. Ditamos ao mesmo tempo em que exploramos. Falamos enquanto ainda buscamos compreensão… Suplico à sua generosidade, por mim e no que me diz respeito, que não considerem nenhuma de minhas obras ou pregações anteriores como Escritura Sagrada… Se alguém me critica quando eu disse o que é correto, não age corretamente. Porém ficaria mais irritado com aquele que me elogia e considera o que escrevi como verdade evangélica (canonicum) do que com aquele que me critica injustamente.

Consideremos uma controvérsia que consumiu cerca de vinte e cinco anos da vida de Agostinho. A controvérsia donatista teve suas origens nas perseguições sofridas pela igreja durante o terceiro e início do quarto século. Durante essas perseguições, muitos cristãos se mantiveram firmes, sem ceder, e suportaram sofrimento extremo, alguns até o ponto de martírio. Outros cederam ou colaboraram com os perseguidores, alguns até entregando cópias das Escrituras às autoridades, que então destruíram os manuscritos.

Quando a perseguição terminou, surgiu uma controvérsia que levou a um cisma prolongado na igreja norte-africana. As duas questões mais relevantes diziam respeito à natureza da igreja e à validade do batismo. Os donatistas, que não eram um grupo monolítico, em essência consideravam a igreja como um corpo puro e pequeno de fiéis. A igreja consistia naqueles que não haviam sido infectados pelo pecado dos traidores. Esta verdadeira igreja, muitos deles acreditavam, estava efetivamente confinada ao norte da África. Para eles, o batismo só era considerado válido se realizado por um ministro dessa verdadeira igreja.

Agostinho esteve envolvido na controvérsia donatista até que o donatismo foi condenado no Concílio de Cartago em 411. Agostinho respondeu à visão dos donatistas de si mesmos como a única igreja verdadeira, propondo a doutrina de uma igreja universal que contém e conterá tanto o trigo quanto o joio até o último dia. Seu ensinamento permaneceu como a visão geralmente aceita desde sua época, embora tenha sido, é claro, entendido de maneira diferente por católicos romanos e protestantes. Em resposta à ideia donatista de que a validade do batismo depende da dignidade do sacerdote ou bispo, Agostinho argumentou que a validade do sacramento está, em última análise, no fato de que é Cristo quem o administra. Então, a validade do sacramento não depende do caráter do instrumento humano usado por Cristo. Se dependesse, nunca poderíamos saber se recebemos um batismo válido, pois nunca podemos conhecer o coração da pessoa que o administra. Teólogos reformados em grande parte concordaram com Agostinho nesse aspecto, embora divergiram dele sobre a relação entre o sacramento e a graça.

Pode-se argumentar que a contribuição positiva mais importante feita por Agostinho à doutrina cristã ocorreu durante a próxima controvérsia em que ele esteve envolvido. Os primeiros escritos anti-pelagianos de Agostinho foram compostos não muito tempo após o Concílio de Cartago. Nesses escritos, Agostinho expõe suas doutrinas sobre o pecado, a graça, a predestinação e o livre-arbítrio. Suas opiniões estabeleceram os parâmetros para discussão até e durante o tempo da Reforma. Contudo, para entender as opiniões de Agostinho precisamos primeiro olhar para o que Pelágio ensinou.

Em resposta à visão maniqueísta de que os humanos são maus por causa da parte corpórea de sua natureza, Pelágio ensinou que os seres humanos são em essência bons, pois foram criados bons por Deus. Em sua visão, aqueles cristãos que ensinavam que os seres humanos foram corrompidos pelo pecado de Adão estavam ensinando algo próximo ao maniqueísmo. Ele rejeitou esse ensinamento e argumentou, em vez disso, que o pecado de Adão afetou apenas Adão. Quando pecamos hoje, não é por causa de qualquer tipo de corrupção herdada. Quando pecamos, estamos apenas imitando Adão da mesma forma que uma criança imita seu pai. Se fizermos isso bastante com frequência, formamos um hábito de pecar. Podemos superar esse hábito de pecar usando nosso livre-arbítrio para escolher o bem em vez do mal. É possível, na visão de Pelágio, ter uma vida de perfeita ausência de pecado se sempre usarmos nosso livre-arbítrio para escolher o bem em vez do mal.

Embora Pelágio não tivesse uma doutrina do pecado original, ele afirmava que a graça é necessária para a salvação. Entretanto é importante notar exatamente o que ele queria dizer com “graça”. Pelágio usava a palavra de várias maneiras. Em primeiro lugar, ele argumentava que a revelação de Deus na Bíblia é um dom da graça. Em segundo lugar, a encarnação de Jesus nos dá um novo exemplo a imitar. Isso é um dom da graça. Em terceiro lugar, e mais importante, nossa existência é um dom da graça. Deus nos criou graciosamente com várias faculdades, entre elas o livre-arbítrio. Isso significa que nossa capacidade de escolher o bem ou o mal é um dom da graça divina. A maneira como escolhemos usar nosso livre-arbítrio depende de nós, mas o fato de termos a capacidade de escolher se deve à decisão graciosa de Deus de nos criar. É assim que Pelágio pode dizer que a graça de Deus é necessária para a salvação. Deus nos deu pela Sua graça a capacidade de escolher livremente imitar Cristo, e se o fizermos, nossas boas obras merecem nossa salvação.

Em resposta ao ensino pelagiano, Agostinho fez uma clara distinção entre o estado dos seres humanos antes e depois da queda. O pecado de Adão resultou na corrupção de sua natureza, e essa corrupção foi transmitida à descendência de Adão. Antes da queda, os seres humanos tinham a capacidade de querer tanto o bem quanto o mal. No entanto, por causa do pecado original, a vontade humana está corrompida e não tem mais a liberdade que tinha antes da queda. Não é mais livre para querer o bem ou escolher Deus. Após a queda, nossa vontade está sob escravidão. Ela tem a capacidade apenas de pecar. Não podemos fazer nada para nos libertar disso. Apenas Cristo pode nos salvar. É aqui que a graça aparece na doutrina de Agostinho.

É importante notar o que Agostinho ensina sobre a graça, porque os reformadores concordaram com alguns aspectos e discordaram de outros. Eles concordaram com a postura básica anti-pelagiana de Agostinho. Concordaram com sua doutrina do pecado original e a consequente incapacidade humana de se salvar (ver Confissão de Fé de Westminster 6). Concordaram que o pecador precisa de Deus para salvá-lo. Então qual foi o ponto de discordância? Agostinho ensinou que a graça é um dom de Deus, não algo conquistado pelo homem, mas Agostinho também falou às vezes da graça em termos influenciados pelo neoplatonismo, o que implicava uma espécie de escala que ascendia até Deus. Porém os reformados falam da graça simplesmente em termos do favor imerecido de Deus.

As doutrinas de pecado e graça de Agostinho influenciaram seu desenvolvimento das doutrinas da predestinação e perseverança durante a fase semi-pelagiana da controvérsia. Para Agostinho, a predestinação não era condicionada a quaisquer méritos previstos em qualquer ser humano. A predestinação estava fundamentada apenas na misericórdia soberana de Deus. Além disso, segundo Agostinho, todos aqueles predestinados para a salvação eterna recebem o dom da perseverança até o fim.

Na formulação de sua doutrina da predestinação, os teólogos reformados permaneceram muito próximos de Agostinho, contudo diferiram em um aspecto importante. Essa diferença nem sempre é percebida pelos protestantes quando leem Agostinho, mas é importante. Os teólogos reformados concordaram completamente com Agostinho no que diz respeito à ideia de que todos os predestinados recebem o dom da perseverança até o fim. Diferiram de Agostinho em relação a se os crentes poderiam ter alguma certeza nesta vida de que possuem o dom da perseverança até o fim. Para Agostinho, todos aqueles predestinados à salvação recebem o dom da perseverança até o fim, e Deus sabe perfeitamente quem possui esse dom. Entretanto, nenhum crente individual pode ter certeza de que possui o dom da perseverança até o fim enquanto ainda não chegar ao fim. Somente após perseverar até o fim uma pessoa pode saber que possui esse dom.

Outra importante contribuição positiva feita por Agostinho à igreja é sua obra Sobre a Trindade. Esta opinião não tem sido compartilhada por todos os historiadores recentes do pensamento cristão. Por muitos anos, a teologia trinitária de Agostinho foi distorcida e entendida como estando em desacordo com a teologia trinitária grega dos pais capadócios. O chamado trinitarismo “ocidental” de Agostinho foi interpretado como estando em conflito com um trinitarismo “oriental” mais pessoal. Estudos mais cuidadosos e recentes de Sobre a Trindade revelaram a verdade por trás dessas distorções e esclareceram que Agostinho foi um proponente da doutrina trinitária do Credo Niceno. Não há nada particularmente novo sobre a doutrina da Trindade de Agostinho, além do fato de que ele introduz uma série de analogias psicológicas na tentativa de ilustrá-la. Permanece controverso se essas analogias são úteis.

Seria negligente em um artigo sobre este tema se não mencionássemos brevemente a contribuição positiva feita pela obra monumental de Agostinho, A cidade de Deus. Este enorme livro foi escrito ao longo de mais de uma década, em resposta ao ataque dos visigodos a Roma. Muitos romanos estavam culpando o cristianismo por essa catástrofe, e em A cidade de Deus, Agostinho responde. É uma das grandes obras de apologética e teologia cristã. Na primeira parte, livros 1-10, Agostinho refuta os argumentos dos romanos pagãos contra o cristianismo e refuta brilhantemente muitas doutrinas pagãs também. Na segunda parte, nos livros 11–22, Agostinho apresenta uma defesa positiva do cristianismo. À medida que avança na obra, Agostinho aborda de maneira eficaz quase todos os tópicos concebíveis. A obra é longa, contudo vale a pena o tempo investido, e encorajo qualquer leitor da Tabletalk que ainda não o tenha feito a “pegar e ler”.

Agostinho foi um teólogo cristão fiel, e quando lido com discernimento, continua a ser um recurso teológico valioso para os cristãos de hoje.


Detalhe de Santo Agostinho Lendo Retórica e Filosofia na Escola de Roma, 1464-65 por Gozzoli, Benozzo di Lese di Sandro (1420-97), Imagens Bridgeman

Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

Keith A. Mathison

Keith A. Mathison

O Dr. Keith A. Mathison é professor de Teologia Sistemática no Reformation Bible College em Sanford, Flórida. Ele é autor de vários livros, incluindo The Lord’s Supper [A Ceia do Senhor] e From Age to Age [De era em era].