O fruto do Espírito Santo

julho 19, 2026

O fruto do Espírito Santo

julho 19, 2026

Os dons do Espírito Santo

Quando nossos filhos eram pequenos, eles rasgavam com entusiasmo os presentes que sua mãe e eu lhes dávamos no Natal. Se desembrulhassem um brinquedo ou jogo, ficavam eufóricos. Se fosse meias ou uma camisa, era evidente a decepção deles. Suas reações revelavam que supervalorizavam presentes “emocionantes” e subvalorizavam presentes “práticos”.

Infelizmente, muitos crentes professos abordam os dons do Espírito de maneira semelhante. Eles supervalorizam a ideia dos dons espirituais milagrosos (p. ex., línguas, profecia, cura) e subvalorizam os dons espirituais comuns (por exemplo, salvação e fruto da santificação). Manter visões errôneas sobre os dons espirituais milagrosos em geral se deve a uma falha em compreender o propósito redentivo-histórico dos dons. Quando chegamos a entender o ensino bíblico sobre os dons “extraordinários” do Espírito e os dons “comuns” do Espírito, valorizaremos melhor os maiores e contínuos dons na vida da igreja hoje.

O Novo Testamento apresenta uma variedade de dons espirituais que Deus em Sua graça deu ao Seu povo. Em especial, as Escrituras falam da salvação como o “dom de Deus” (Rm 6:23; Ef 2:8). A salvação é o dom de Deus, pois estamos mortos em nossos pecados por natureza (Ef 2:1-3) e não podemos fazer nada para merecer a vida eterna. Por meio dessa associação, Cristo refere-se a Si mesmo como “o dom de Deus”. Ele disse à mulher no poço: “Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” (Jo 4:10). Jesus se referiu a Si mesmo como “o dom de Deus”, porque Ele é o Filho de Deus encarnado que veio ao mundo para realizar a redenção imerecida dos pecadores.

Depois que Cristo ascendeu e enviou o Espírito Santo no dia de Pentecostes, os apóstolos várias vezes chamaram o Espírito de “o dom de Deus” (At 8:20; veja também 3:38; 10:45). O Espírito Santo é o presente de Cristo para o Seu povo comprado com sangue (Jo 7:37). O Espírito Santo aplica a redenção que Cristo assegurou para os eleitos. Em virtude de efetuar uma verdadeira união espiritual entre Cristo e os crentes, o Espírito Santo torna possível que Jesus seja a fonte de regeneração, justificação, adoção, santificação e glorificação para aqueles que Ele redime (1 Co 1:30). O Espírito opera em conjunto com o Filho. O Espírito convence, regenera, habita, justifica, santifica, adota, sela e, finalmente, glorifica todos por quem Cristo morreu. O Espírito faz com que frutos sejam produzidos nas vidas daqueles que estão unidos a Cristo (Gl 5:22). Através do Espírito Santo, Cristo transmite Seu amor (Jo 15:9-10), Sua alegria (v. 11; 17:13) e Sua paz (14:27) ao Seu povo.

Estreitamente ligado ao ensino do Novo Testamento sobre o dom do Espírito estão as referências aos dons do Espírito Santo (Hb 2:4), o que Paulo chama de “dons espirituais” (Rm 1:11; 1 Co 12:1; 14:1; Ef 4:8). O Cristo ascendido comunica esses dons ao Seu povo por meio do Seu Espírito. Jesus exibiu o poder do Espírito Santo em Si mesmo, o que o tornou capaz de realizar feitos milagrosos que atestaram a veracidade de Seu ministério messiânico. Quando Ele ascendeu, Cristo enviou o mesmo Espírito pelo qual Ele havia realizado aquelas obras e maravilhas poderosas para que Sua igreja apostólica levasse a mensagem messiânica do evangelho às nações. Assim, os dons extraordinários estão intimamente ligados ao Cristo vitorioso e ascendido. Como Sinclair Ferguson explica: 

A correlação entre a ascensão de Cristo e a vinda do Espírito Santo sinaliza que o dom e os dons do Espírito servem como a manifestação externa do triunfo e entronização de Cristo.

As principais passagens do Novo Testamento nas quais se encontra o ensino apostólico sobre esses dons são Romanos 12:6-8; 1 Coríntios 12:8-11, 28; Efésios 4:11; e 1 Pedro 4:10-11. Uma breve comparação das listas de dons leva à conclusão de que os dons estavam todos intimamente ligados ao ministério fundamental dos apóstolos e profetas (2 Co 12:11-13; Ef 2:20; 3:5). O Dr. Ferguson novamente observa:

Embora seja difícil agrupar esses diversos dons, e talvez até a tentativa seja equivocada, uma estrutura básica está claramente presente: a revelação através do apóstolo e do profeta é fundamental (Ef 2:20), enquanto todo o restante é orientado por isso e flui a partir disso.

A primeira lista de dons em Efésios é a dos ofícios de “dons de palavra” que Cristo estabeleceu. Paulo fala do dom de Cristo de “apóstolos… profetas… evangelistas… pastores e mestres” (Ef 4:11). Como o ministério da Palavra é o meio principal pelo qual Deus avança Seu reino e edifica Seu povo, Paulo lista vários ofícios de “dons de palavra”. Em resumo, aqueles a quem Deus chamou para serem ministros de Sua Palavra devem ser recebidos como o dom de Cristo para Sua igreja. Os ofícios de apóstolo e profeta estão no início desta lista por causa de sua função fundacional. Deus designou esses ofícios para lançar os alicerces da igreja do novo pacto e levar o evangelho às nações (Ef 2:20; 1 Ts 2:13; 2 Pe 3:15-16). Assim, Ele os designou para revelar a plena revelação do mistério de Cristo (Ef 3:4-6). Esses ofícios eram necessários apenas até a conclusão do cânon das Escrituras (2:20; 3:5). 

A igreja agora possui a plena Palavra revelada de Deus (ou seja, a doutrina apostólica completa) nas páginas do Antigo e Novo Testamentos.

Durante a era apostólica, Deus concedeu tanto dons espirituais ordinários quanto extraordinários. Os dons ordinários eram aqueles comuns a todos os crentes. Eles incluem a convicção do pecado, conversão, santificação e a certeza da salvação. Os dons extraordinários são aqueles dons sobrenaturais que Deus distribuiu a indivíduos em certos momentos para propósitos específicos na história redentora. Jonathan Edwards explicou essa distinção:

Os dons extraordinários do Espírito são os mesmos que os dons milagrosos; tais como dons de profecia e realização de milagres, e outros mencionados pelo apóstolo… Estes são chamados de dons extraordinários do Espírito, porque […] são concedidos […] apenas em ocasiões extraordinárias, como foram concedidos aos profetas e apóstolos para capacitá-los a revelar a mente e a vontade de Deus antes que o cânon das Escrituras estivesse completo […] Porém desde que o cânon das Escrituras foi completado, e a igreja cristã plenamente fundada e estabelecida, esses dons extraordinários cessaram. Os dons ordinários do Espírito são os que permanecem na igreja de Deus ao longo de todas as eras; tais dons como são concedidos na convicção e conversão, e os que se relacionam com o crescimento dos santos em santidade e conforto.

Os dons extraordinários (ou seja, milagrosos) de profecia, línguas e cura autenticaram a mensagem divina proclamada pelos Apóstolos entre as nações (At 1:8). Esses dons validaram a revelação apostólica de Cristo. As línguas eram “dons-sinais” a fim de comprovar que Deus estava levando Seu reino do antigo pacto de Israel para as nações. Assim, as línguas testemunharam que a bênção do evangelho havia chegado às nações. Como O. Palmer Robertson explica:

As línguas estrangeiras faladas no dia de Pentecostes foram um sinal de maldição pactual para Israel. Deus não falaria mais exclusivamente a eles em contraste com todas as nações do mundo. Contudo, ao mesmo tempo, as línguas em Pentecostes serviram como um sinal da grande bênção de Deus para todas as nações do mundo, Israel incluído. As línguas foram um sinal da extensão da bênção do pacto para todas as nações do mundo.

A cura milagrosa foi outro dom/sinal de autenticação. A cura milagrosa atestou o poder de ressurreição do evangelho. Os dons/sinais extraordinários cessaram quando o evangelho se espalhou até os confins da terra e a igreja foi estabelecida sobre o fundamento da revelação completa do Antigo e Novo Testamento. Da mesma forma, não haveria mais necessidade de profecia quando os apóstolos completaram a revelação escrita de Cristo e o cânon das Escrituras foi fechado.

1 Coríntios 12-14 contém a exposição mais extensa sobre os dons espirituais no Novo Testamento. Aqui, o apóstolo Paulo aborda o que se tornara um uso generalizado indevido dos dons na igreja. Os membros da igreja estavam exaltando dons menores sobre dons maiores, enquanto outros os utilizavam de maneira desordenada e para engrandecimento próprio. Os membros da igreja falharam em compreender corretamente o propósito para o qual Deus havia dado os dons. Após comparar a importância dos dons de línguas e profecia, Paulo contrasta a função temporária dos dons extraordinários e a operação contínua dos dons ordinários. Ele faz isso para ajudar seus leitores a entender que os dons ordinários do Espírito Santo devem ser favorecidos acima dos extraordinários (1 Co 12:31).

Em 1 Coríntios 13:8-13, Paulo contrasta três dons extraordinários com três dons ordinários (fé, esperança e amor). Ele observa que os dons extraordinários do Espírito eventualmente cessariam, enquanto os dons ordinários permaneceriam (vv. 8, 13). Paulo expressa que, enquanto os dons extraordinários chegariam ao fim, os dons ordinários continuariam até o fim dos tempos. A necessidade dos dons extraordinários cessou com a conclusão da revelação escrita de Deus, mas a necessidade dos dons ordinários permanece ao longo da era do evangelho (v. 13). Embora a fé e a esperança durem mais que os dons extraordinários no tempo, não durarão mais que o amor na eternidade. A fé e a esperança continuarão a operar na vida dos crentes até a consumação. O amor é o maior dom, pois continua a operar por toda a eternidade: “O amor jamais acaba” (v. 8). Quando Cristo retornar, a fé se transformará em visão e a esperança será cumprida (Rm 8:24), porém o amor será a graça predominante na comunhão que os crentes terão com Deus e uns com os outros por toda a eternidade. João Calvino concluiu a partir do ensinamento de Paulo dessa seção:

Devemos desejar ardentemente uma excelência que nunca terá fim. Portanto, devemos preferir o amor antes de dons temporários e perecíveis. As profecias têm um fim, as línguas falham, o conhecimento cessa. Em vista disso, o amor é mais excelente do que eles no seguinte aspecto: enquanto eles falham, ele sobrevive.

Mesmo quando os dons extraordinários do Espírito Santo ainda estavam operativos na igreja apostólica, a mensagem de Paulo era simples: sem a presença do amor, o uso de outros dons espirituais é vão (1 Co 13:1-4). Este princípio é tão verdadeiro para nós que vivemos no século XXI quanto era para os crentes na era apostólica. O amor deve ser sempre a razão que guia o uso de todos os dons que Deus nos deu.

Ainda que os dons extraordinários do Espírito Santo tenham cessado na história redentora, Deus continua a dar ao Seu povo uma variedade de dons para o serviço na igreja, como ensino e pregação, misericórdia, hospitalidade, generosidade e administração. Ele os distribui diversamente aos membros do Seu corpo para que, por sua vez, os usem para edificar outros no mesmo corpo em amor (Rm 12:6-8; Ef 4:11-16). Quando os dons são exercidos com amor, os membros do corpo de Cristo são unificados e edificados.

O Cristo que ascendeu entregou ao Seu povo o dom do Espírito e os dons do Espírito. Os dons extraordinários do Espírito serviram ao propósito de autenticar a origem divina da mensagem apostólica. Acompanharam e serviram ao progresso da revelação nas Escrituras e à fundação da igreja do novo pacto. Por conseguinte, cessaram com a conclusão do cânon das Escrituras. Os dons ordinários do Espírito são aquelas operações que são comuns à Sua obra salvífica nos que foram redimidos. O Espírito Santo produz santidade e fruto na vida dos cristãos. Enquanto os dons extraordinários foram operativos apenas durante a era apostólica, os dons ordinários permanecem até o fim dos tempos. Como o amor deveria ser o princípio que orientava os crentes no exercício de seus dons espirituais na época apostólica, deve ser assim sempre que exercemos qualquer dom para a edificação do povo de Deus.


Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

Nick Batzig

Nick Batzig

O Rev. Nicholas T. Batzig (@Nick_Batzig) é pastor sênior da Church Creek PCA em Charleston, SC, e editor associado do Ministério Ligonier. Ele escreve no blog Feeding on Christ [Alimentando-se de Cristo].