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O fruto do Espírito Santo

Parece bom. “O fruto do Espírito.” Tão vibrante, tão positivo. Podemos falar sobre isso, desejar isso, até mesmo orar por isso. No entanto, o trágico é que podemos ignorá-lo ou negligenciá-lo, talvez enganados por um cristianismo superficial que permite que o verdadeiro fruto espiritual murche nas sombras enquanto somos encantados por “dons espirituais” aparentemente mais espetaculares que são lançados sob os holofotes.

A resposta à pergunta “O que é o fruto do Espírito?” deve começar com outra pergunta: “Quem é este Espírito?” Ele é o Espírito de santidade por quem Cristo foi ressuscitado dos mortos, que opera em nós ao longo da mesma trajetória e com o mesmo poder (Rm 1:4; Ef 1:15-21). Ele nos torna cada vez mais semelhantes a Deus, conforme Ele é visto e conhecido em Cristo. O chamado do evangelho é para sermos santos, pois o próprio Deus é santo, e agora pertencemos a Ele: “Segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento” (1 Pe 1:15). De fato, se você considerar o Senhor Jesus em Sua encarnação sem pecado como a própria imagem do Deus invisível, é impressionante como o fruto do Espírito tem como modelo o Salvador, Aquele que revela Deus. Contemple-o, e você verá alguém que é verdadeiramente cheio do Espírito Santo (Jo 1:32-33).

Isso nos leva ao belo e sagrado inventário de Gálatas 5. Observe que o fruto do Espírito é totalmente contrário às obras da carne. Os dois catálogos que Paulo fornece em Gálatas 5 não são contrastes diretos. Entretanto, é evidente que esses dois produtos crescem em solos distintos, são nutridos em ambientes diferentes e derivam de raízes distintas. Tal verdade se aplica inclusive aos homens não convertidos que exibem uma moralidade apenas exterior que é, em alguns aspectos, semelhante ao fruto do Espírito.

Observe também que o fruto do Espírito é singular, não plural. Deve ser visto menos como uma cesta de frutas variadas recém-colhidas, a serem selecionadas conforme desejamos segundo a cor ou sabor, e mais como um único cacho de uvas na mesma videira celestial: cada uma suculenta, porém todas marcadas pelo mesmo sabor e tonalidade celestiais. De fato, é difícil descrever qualquer elemento sem usar os outros, tão intimamente entrelaçados, algumas traduções em português até mudam a mesma palavra para diferentes virtudes na tentativa de transmitir as nuances. Como costuma acontecer em questões escriturais, devemos distinguir e podemos até organizar e focar (é provável que possamos agrupar o fruto em três grupos de três). Contudo, não podemos separar e não devemos isolar.

Dada essa singularidade, os vários elementos deste fruto são complementares. O sabor deles é mais doce quando combinados e não quando estão separados. Você não encontrará um onde não encontre os outros, embora alguns possam ser formados de maneira mais distinta e madura. Você não pode afirmar que possui o fruto do Espírito se só às vezes demonstra uma dessas evidências, mas todas devem estar consistentemente presentes (em alguma medida) para demonstrar a presença e o poder do Espírito Santo. Ao considerar os diferentes graus de experiência e maturidade em diferentes cristãos e este fruto não for encontrado em nós, então não temos o Espírito Santo. Se temos o Espírito Santo, devemos produzir o fruto do Espírito Santo. São Suas virtudes e refletem Sua pessoa e Seu prazer. São os hábitos santos daqueles em quem habita o Espírito de Deus, guiados por Ele em caminhos de justiça (v. 18). O filho de Deus se caracteriza não apenas pela ausência de vícios, mas pela presença de virtudes, a santidade que Deus se deleita e que Seus filhos buscam com diligência: “Ninguém se tornou santo sem consentir, desejar e lutar para ser santo. O pecado crescerá sem semeadura, mas a santidade precisa ser cultivada” (C.H. Spurgeon). O Espírito Santo nos dá tanto um desejo por essa piedade quanto a capacidade de desenvolvê-la, em dependência dEle (Fp 2:12-13). Sem o Espírito Santo, produziremos apenas as obras da carne, por mais que tentemos disfarçar nossos vícios com aparência de moralidade ou religiosidade.

Então, o que é este fruto? “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei” (Gl 5:22-23). Novamente, vamos distinguir, mas não separar.

O amor começa, introduz e estabelece toda a lista e o primeiro trio, que descreve virtudes que são distintivas do verdadeiro cristianismo. Envolve amor ao Deus, quem é, em Si mesmo, o amor, um amor que nasce de ser amado por este Deus, um amor que transborda para os outros por causa dEle, principalmente para aqueles que possuem a imagem de Deus em Cristo.

Em seguida vem a alegria, o deleite que um crente tem em Deus, por meio da reconciliação com Cristo, por tudo o que Ele é em Si mesmo e para nós como Seu povo. Esta alegria supera o desânimo e a apatia do espírito; ela energiza e eleva. É uma alegria verdadeiramente espiritual que está fundamentada na verdade (1 Co 13:6), transcende e transforma a aflição cristã (1 Ts 1:6). É a felicidade daqueles que pertencem ao reino de Deus, que não se encontra nos prazeres mundanos, mas na “justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14:17).

Com a alegria vem a paz: paz, antes de tudo, com o próprio Deus (5:1), uma paz que então se reflete em nossa própria consciência, a alma sendo lavada no sangue do Cordeiro. É tanto objetiva quanto subjetiva. Dessa paz, enquanto guardamos nossos corações e mentes (Fp 4:7), flui uma intenção pacífica em relação aos outros, uma disposição humilde para que outros sejam abençoados e louvados (2:1-4), “esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef 4:3).

Após isso seguem a longanimidade, a benignidade e a bondade. Estas são distintivamente relacionais e sociais, que exibem não apenas nosso amor a Deus, mas também nosso amor ao próximo como a nós mesmos. A primeira é aquela paciência divina para a ira em vez de um temperamento explosivo (Tg 1:19), um coração paciente em vez de vingativo, um que está pronto para suportar ofensas em vez de revidar (1 Co 13:4), rápido para perdoar e cobrir pecados (1 Pe 4:8).

A benignidade é uma doçura de espírito moldada pelo próprio Deus (Rm 11:22; Tt 3:4) e por Seu Cristo (2 Co 10:1), uma serenidade e temperança forjadas pelo Espírito Santo (6:6). Não é arrogante e rude, ao contrário, é humilde e cortês. É uma virtude acolhedora que nos torna agradáveis de se conviver, rápidos para dar uma resposta suave (Pv 15:1), atentos aos necessitados e úteis àqueles que requerem apoio.

Segue-se a bondade, que é uma prontidão prática para abençoar em vez de amaldiçoar, que resiste à maldade, busca fazer o bem a todos conforme Deus dá oportunidade, um espírito benéfico que não se contenta apenas em querer, mas que deve avançar para a ação.

O último trio pode consistir nos tipos de virtudes que teriam sido particularmente notáveis na sociedade da Galácia, por se opor de maneira tão evidente aos vícios predominantes. É um lembrete de que a santidade que o Espírito opera em nós não é apenas contracultural (como se pender para o extremo oposto do espírito da época fosse, em sua essência, virtuoso), mas verdadeiramente sobrenatural, que nos distingue da escuridão do pecado ao nosso redor. Logo depois, temos fidelidade, mansidão e domínio próprio.

A primeira é a fidelidade, sobretudo no que professamos e prometemos aos outros, tanto a Deus quanto aos homens. Refere-se à confiabilidade e integridade em nossas palavras e ações, em nossos tratos com nossos semelhantes, não ao engano nem à desconfiança. Depois, há a mansidão, uma virtude na qual não nos irritamos com facilidade, mas prontamente pacificados, controlamos nossas respostas a (e possíveis ressentimentos) quanto à forma de agir de Deus e dos homens para conosco.

Finalmente, há o domínio próprio, uma atitude moderada diante de cada dádiva nesta vida, para recebê-la com gratidão, mas não com cobiça, para desfrutá-la de forma razoável, sem ultrapassar limites, para nos envolvermos com ela com moderação e não de maneira extravagante.

Observe, em relação a todas essas coisas, que não há lei contra elas. Se formos guiados pelo Espírito Santo nessas coisas, não as encontraremos condenadas e punidas pela lei. Tal santidade é a transcrição dos mandamentos de Deus no coração: “Porei no seu coração as minhas leis e sobre a sua mente as inscreverei” (Hb 10:16). Guiados pelo Espírito Santo e tendo em vista a glória de Deus, podemos ter confiança de que esta é a obediência sobre a qual nosso Pai celestial sorri.

Aqui está o resultado do mandamento divino com sua consequência divinamente determinada: “Andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne” (Gl 5:16). Esta é a crescente conformidade operada pelo Espírito Santo a Cristo, perseguida pela pessoa regenerada que conhece o poder do Espírito Santo em seu coração: “Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências” (Rm 13:14).

Ao mesmo tempo, devemos reconhecer pelo menos dois aspectos. Primeiro, este fruto é representativo. Contudo, não é exaustivo. O catálogo de vícios e virtudes de Paulo, de dons e graças, de pecados e tolices, não pretende sugerir que não existam outras qualidades que pertençam a essas categorias. Não devemos presumir que evitar qualquer um dos pecados de uma lista significa que não somos pecadores; não podemos supor que identificar uma ou duas ocorrências dessas virtudes seja suficiente para confirmar nossa profissão de fé. Lembre-se, mais uma vez, que esta lista é sugestiva de um caráter semelhante ao de Cristo em sua totalidade e pode também indicar algumas qualidades particulares que teriam brilhado com um esplendor distinto na sociedade da Galácia. Da mesma forma, pode haver algum aspecto de semelhança com o Senhor que um apóstolo possa identificar em seu contexto que o destacaria particularmente como um seguidor do Cordeiro.

Segundo, há uma diferença entre identidade cristã e maturidade cristã. Alguém pode ler sobre este fruto e tremer, porque não exibe todas essas coisas no nível mais elevado, em todos os aspectos, o tempo todo. Sem insinuar que podemos nos acomodar, é indispensável lembrar que crescemos em piedade; progredimos em santidade. Mesmo em termos de maturidade física, você não esperaria que todas essas virtudes aparecessem e funcionassem em um menino de dez anos da mesma forma que poderiam em uma mulher de sessenta anos. A mesma virtude, sim, porém com uma expressão apropriada. Da mesma forma, um filho de Deus que está em sua infância espiritual provavelmente não cultivou o fruto do Espírito na mesma extensão e grau que alguém que tem estado no caminho por décadas. Alguns crentes, devido à sua constituição e caráter, podem ter dificuldades em alguns aspectos enquanto outros se manifestam com mais facilidade. Pode haver temporadas de declínio relativo. Entretanto em todos os casos, seja no início, seja no pleno florescimento, o fruto espiritual revela a vitalidade da raiz. Nunca seremos perfeitamente semelhantes a Cristo nesta vida, contudo sem uma semelhança real e crescente com Ele, somos compelidos a concluir que talvez não há vida espiritual, e certamente pouca saúde espiritual.

Portanto, peçamos a Deus, pelo Seu Espírito, que trabalhe essas virtudes em nossos corações, para nos dar a raiz da vida e o fruto da piedade, e então, tendo Suas ricas e certas promessas, purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus (2 Co 7:1).


Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

Jeremy Walker

Jeremy Walker

O Rev. Jeremy Walker é pastor da Maidenbower Baptist Church, no Reino Unido. Ele é autor de vários livros, entre eles Life in Christ: Becoming and Being a Disciple of the Lord Jesus Christ [Vida em Cristo: tornar e ser um discípulo do Senhor Jesus Cristo].