O discurso no monte das Oliveiras

julho 26, 2026

O discurso no monte das Oliveiras

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O que a Bíblia ensina sobre o dízimo cristão?

Em nossa cultura, há um ceticismo generalizado quanto ao ato de doar. Algumas organizações sem fins lucrativos têm gerido mal os fundos. Assim, muitas pessoas estão relutantes em apoiar essas organizações com suas doações. Mas o ceticismo se estende até mesmo à comunidade cristã. Alguns televangelistas inescrupulosos deram ao dízimo uma má reputação, de modo que muitos crentes não contribuem para o trabalho da igreja. Isso, acredito, é um erro considerável, pois a Bíblia ordena que os cristãos sejam bons administradores de seus recursos em prol do reino de Deus.

Todo o conceito de mordomia começa com a criação. A criação se celebra não apenas em Gênesis, mas em toda a Escritura, sobretudo nos Salmos, onde Israel celebrava o domínio de Deus sobre todo o universo. “Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém,   o mundo e os que nele habitam” (Sl 24:1). Deus é o Autor de todas as coisas, o Criador de todas as coisas e o Senhor de todas as coisas. Tudo o que Deus faz, Ele possui. O que possuímos, possuímos como administradores que receberam dádiva do próprio Deus. Deus é o proprietário supremo de todas as nossas “posses”. Ele nos emprestou essas coisas e espera que as administremos de uma maneira que o honre e glorifique.

O administrador na cultura antiga não era o proprietário da casa. Ele era contratado pelo dono para gerenciar os assuntos da casa. Ele administrava a propriedade e era responsável por alocar os recursos do lar. O trabalho do administrador era garantir que os armários estivessem cheios de comida, que o dinheiro fosse bem cuidado, que o gramado fosse mantido e que a casa estivesse em bom estado de conservação.

A administração da humanidade começou no jardim do Éden, onde Deus deu a Adão e Eva pleno domínio sobre toda a criação. Adão e Eva não receberam a posse do mundo; receberam a responsabilidade de administrá-lo. Deviam garantir que o jardim fosse cultivado e cuidado, e não mal utilizado ou explorado, e que os bens fornecidos por Deus não fossem estragados nem desperdiçados.

Em nossos próprios lares, aprendemos que se gastamos cem reais em roupas, são cem reais que não temos mais para outros fins. Todos, até mesmo bilionários, operam com recursos limitados. Toda vez que usamos um recurso, tomamos uma decisão, e essa decisão revela que tipo de administradores somos. É nesse momento que Deus nos responsabiliza. Ele responsabilizou Adão e Eva por como cuidaram do jardim. Deus está interessado em como cuidamos de nossos ministérios, vidas pessoais, lares, cada aspecto da vida. Todas essas áreas lidam com a gestão e alocação de recursos.

No centro do conceito bíblico de administração está o dízimo, que aparece pela primeira vez no Antigo Testamento. A palavra dízimo significa “décima parte”. cada pessoa deveria entregar ao Senhor, a cada ano, a décima parte de seus ganhos.

A beleza do dízimo é que ele evitava a guerra de classes e a política da inveja. Proibia a imposição de impostos desiguais, onde um grupo de pessoas pagava uma porcentagem maior do que outro. Quando isso acontece, a economia se torna politizada e cria grupos de interesse onde a justiça é ignorada em prol do poder.

Em Israel, todos davam a mesma porcentagem, porém não a mesma quantia. Nesta estrutura, uma pessoa que ganha R$10.000 por ano devolve R$1.000 em dízimo. A pessoa que ganha R$1 milhão por ano devolve R$100.000. O rico devolve muito mais dinheiro, contudo é a mesma porcentagem que o pobre paga.

Problemas surgiram no AT quando o povo reteve seus dízimos. Não foram obedientes à lei de Deus. Malaquias 3:8-10 nos diz:

Roubará o homem a Deus? Todavia, vós me roubais  e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas. Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais, vós, a nação toda. Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida.

Isso significa que, se o princípio do dízimo ainda está em vigor, nós sistematicamente roubamos a Deus quando não dizimamos. Vou repetir isso. O ensinamento de Malaquias indica que, quando falhamos em dizimar, não estamos apenas roubando a igreja, o clero ou os educadores cristãos: estamos roubando o próprio Deus. Entretanto note que Deus tinha palavras não apenas de condenação para o povo, também tinha uma promessa de prosperidade caso eles mudassem seus caminhos. Deus os desafiou a serem fiéis, ao dar Sua própria promessa de que abriria as janelas do céu e derramaria bênçãos sobre eles.

Por que Deus instituiu o dízimo em primeiro lugar? Para apoiar os levitas, que não possuíam território designado entre as tribos. Os levitas foram separados para cuidar das responsabilidades espirituais e educacionais da nação, e seu trabalho e necessidades físicas eram pagos pelo dízimo (Nm 18). Sob o novo pacto, o dízimo continua a apoiar o trabalho de edificar as pessoas na verdade divina e alcançar os pecadores com o evangelho. Cristo trabalha através de igrejas, seminários, organizações paraeclesiásticas, missionários e muitos outros para construir e expandir Seu reino.

Quando não dizimamos, reduzimos o ministério de Cristo. Uma das maiores barreiras para expandir o reino de Cristo neste mundo é financeira. Um princípio fundamental está em ação aqui. Se temos R$100 para trabalhar no ministério, somos limitados por esse valor em reais. Podemos desperdiçar esse dinheiro e fazer apenas $10 de trabalho efetivo. Porém, mesmo que sejamos gestores experientes e administradores rigorosos, não podemos fazer R$110 de ministério.

O ministério cristão depende da doação cristã. Essa doação sempre e em todo lugar limita o trabalho do ministério.

É claro que meu argumento assume que o dízimo continua nesta era do novo pacto. Alguns negam que o dízimo continue hoje, mas não é isso que os primeiros cristãos acreditavam. A Didaquê, escrita no final do primeiro século ou início do segundo, existe uma grande quantidade de material acerca do tema de sustentar a obra do reino. O princípio do dízimo é claramente comunicado nesta obra, e nos revela que a comunidade cristã primitiva continuou com a prática do dízimo. Além disso, há na Didaquê um aviso prudencial dado ao cristão, que expressa: “Segure sua doação firmemente antes de entregá-la.” Uma metáfora interessante, não é verdade? A recomendação não significa que você deve segurar o dinheiro tão firme que acabe não dando nada. Essa não é a ideia. A ideia é ser muito cuidadoso, muito criterioso sobre onde você faz sua doação.

Isso levanta uma questão controversa sobre o financiamento do reino. Novamente, em Malaquias 3:10, Deus declara: “Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa.” No AT, o dízimo, seja em animais ou produtos, era levado a um local central, a casa do tesouro, que era administrada pelos levitas. Todo o dízimo de toda a nação era levado a este único local de coleta, e então era distribuído pelos levitas segundo as necessidades do povo.

Algumas pessoas acreditam que isso significa que na era do Novo Testamento, deveria haver uma única casa do tesouro para onde todos os dízimos iriam e de onde seriam distribuídos. Há dois problemas com isso. Em primeiro lugar, no AT, o povo de Israel tinha um único santuário central. Quando a igreja do Novo Testamento começou, igrejas foram estabelecidas em cada cidade: em Éfeso, em Corinto, em Tessalônica, e assim por diante. Não havia mais um santuário central único. Portanto, a ideia de levar dízimos para uma única casa do tesouro central se torna problemática.

Algumas pessoas acreditam que a igreja local é o celeiro e, portanto, o único lugar apropriado para darmos nossos dízimos. Entretanto nada no Novo Testamento equipara a igreja local ao celeiro do Antigo Testamento. Se acreditarmos que a igreja local é o celeiro, teríamos então que argumentar por um local central onde os dízimos de todos os cristãos iriam. Todos os seus dízimos teriam que ir para um local de coleta central e, em seguida, serem distribuídos a partir daí. Nunca ouvi uma igreja local favorecer isso. Simplesmente não é bíblico exigir que as pessoas entreguem todo o seu dízimo à sua igreja local. Acredito que a maior parte dele deve ir para a igreja local, porém também acho que o princípio de segurar sua doação “firmemente antes de entregá-la” implica não apenas discernimento, mas também liberdade ao doar, de modo que sua doação possa incluir um seminário, uma faculdade cristã e outros ministérios.

A Bíblia ensina que devemos investir no reino de Deus. Vivemos em um país que foi construído sobre o princípio do capitalismo, e a ideia fundamental do capitalismo é a seguinte: gratificação adiada. Em vez de pegar o dinheiro que ganhamos e gastá-lo todo agora, nós o poupamos e investimos. Isso permite que nosso capital trabalhe para nós e aumente nossa riqueza.

O investimento mais importante que podemos fazer é no reino de Deus, pois tem retornos eternos. Esses retornos não são apenas para nós, mas também para nossa família, nossos filhos e netos. Esta geração de cristãos deve investir nas coisas de Deus em prol da próxima geração. Isso segue a exortação de Jesus: 

Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas (Mt 6:33).

Acredito sinceramente que se você investir no reino de Deus, no fim das contas não perderá nada. Dê o dízimo primeiro e aprenda a fazer isso o quanto antes na vida. Se seu filho recebe uma mesada de um real, se certifique de que os primeiros dez centavos vão para a coleta no domingo, para que a criança aprenda o princípio desde cedo. Sabemos que não podemos gastar o imposto que o governo retira do nosso salário. Devemos viver com nosso salário “líquido”. O dever que temos para com Deus vem antes do dever para com o governo. Primeiro se deve dar a Deus, “desde o início”. Se deseja avaliar o quanto leva a sério o investimento no reino de Deus, verifique sua conta bancária. É um registro objetivo e concreto de onde está o seu tesouro e onde está o seu coração.


Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

R.C. Sproul

R.C. Sproul

O Dr. R.C. Sproul foi fundador do Ministério Ligonier, primeiro pastor de pregação e ensino da Saint Andrew's Chapel em Sanford, Flórida, e primeiro presidente da Reformation Bible College. Seu programa de rádio, Renewing Your Mind, ainda se transmite diariamente em centenas de estações de rádio ao redor do mundo e também pode ser ouvido online. Ele escreveu mais de cem livros, entre eles A Santidade de Deus, Eleitos de Deus, Somos todos teólogos e Surpreendido pelo sofrimento. Ele foi reconhecido em todo o mundo por sua defesa clara e convincente da inerrância das Escrituras e por declarar a necessidade que o povo de Deus tem em permanecer com convicção em Sua Palavra.