
Contribuições positivas de Agostinho para a doutrina cristã
julho 22, 2026Os Provérbios
A sabedoria se tornou algo como uma indústria nos Estados Unidos. Apresentadores de programas de rádio e colunistas sindicais criam seguidores devotos de buscadores de conselhos. Consultores profissionais ajudam empresas de todos os tamanhos a resolver problemas complexos.
A longa busca da humanidade pela sabedoria dos tempos continua hoje. Como cristãos, sabemos que a sabedoria é um dom divino, que encontramos principalmente nas páginas das Escrituras Sagradas. No Antigo Testamento, os Provérbios de Salomão se destacam como o lugar para encontrar sabedoria, e por isso será proveitoso para nós ver como podemos entender e aplicar adequadamente os ensinamentos deste livro.
O que é sabedoria?
Como o Espírito Santo inspirou os Provérbios para nos ajudar a alcançar a sabedoria (Pv 1:2), entender este livro requer que exploremos a natureza da sabedoria. Em resumo, sabedoria é “habilidade” ou “perícia”. Pessoas sábias vivem bem; evitam problemas comuns e lidam com outras pessoas com discernimento. Como muitos pequenos animais, homens e mulheres sábios dominam seus domínios apesar de suas limitações (Pv 30:24-28).
Segundo Provérbios, a sabedoria está enraizada no “temor do Senhor” (1:7), que caracteriza aqueles que obedecem à Sua lei (Sl 34:11-16; At 5:29). O temor do Senhor tem um componente intelectual: devemos estudar e memorizar os mandamentos de Deus para conhecer e seguir Sua vontade (Dt 6:4-9). Porém o temor do Senhor é também uma resposta emocional de amor pelo Pai e obediência confiante aos Seus mandamentos (Mc 10:28-31; Tg 2:14-26; 1 Jo 4:16). Satanás pode citar as Escrituras, mas ele não ama o Senhor e, portanto, tolamente se rebela contra Ele (Mt 4:1-11). Jesus chama o homem rico de “louco”, pois ele não tinha apreço por seu Criador, não porque sua vida carecia completamente de sabedoria (Lc 12:13-21).
A sabedoria é praticamente um sinônimo de justiça no livro de Provérbios, o prólogo nos diz que esses provérbios são dados para sabedoria e justiça (Pv 1:3). O ensino sábio e o viver justo produzem vida (Pv 12:28; 13:14), mas a pessoa ímpia e o tolo vagam pela estrada larga que leva à morte (Pv 10:14; 11:7). É evidente que não podemos ser sábios sem santidade, e não podemos ser santos se não buscarmos a sabedoria (veja também Mt 6:33).
Os Provérbios complementam os outros livros bíblicos ao nos lembrar que a vida comum, do dia a dia, é uma ocasião para um grande serviço ao nosso Criador. A maioria de nós não exercerá influência geopolítica nem dirigirá o rumo da igreja. No entanto, o Senhor se importa profundamente com nossas vidas e mantém um olhar atento sobre todas as nossas ações (Pv 5:21). Os Provérbios nos lembram dessa realidade impressionante e nos oferecem maneiras tangíveis de obedecer à lei de Deus. Por exemplo, se nos alegramos com o cônjuge da nossa juventude (vv. 15-20), procuraremos maneiras de celebrar o relacionamento emocional e sexual com nosso cônjuge e, assim, estaremos menos inclinados a quebrantar nossos votos matrimoniais.
Essas passagens nos lembram que o Senhor santifica os relacionamentos entre pessoas “comuns”. Não somos “cristãos solitários”, devemos viver a vida em comunidade com outros cristãos. Cumprir as muitas exortações dos Provérbios para confessar pecados (p. ex., Pv 28:13) significa que somos autênticos com Deus e com os outros. Pessoas sábias buscam cristãos a quem possam prestar contas pela justiça. Elas procuram igrejas onde os pecados são reconhecidos de maneira saudável e onde os crentes carregam os fardos uns dos outros (Gl 6:2). Pessoas que tomam decisões sem ouvir amigos piedosos são néscias (Pv 15:22). O individualismo ocidental nos diz para fazermos escolhas por conta própria. Os Provérbios nos ensinam que não temos vidas privadas; apenas os ingênuos desprezam a sabedoria tradicional presente na comunidade do povo de Deus (Pv 1:8; 4:1-6; 24:6).
Como ler Provérbios
Uma leitura deste livro com oração é fundamental para se tornar sábio (Tg 1:5). Porém, como em outras literaturas, devemos prestar atenção ao gênero e ao contexto de Provérbios para garantir a interpretação correta. Para não usarmos mal esses provérbios, devemos nos lembrar de quatro princípios:
Nenhum provérbio foi concebido para todas as circunstâncias da vida. Não esperamos que um provérbio não inspirado se aplique em todos os momentos. O mesmo princípio se aplica aos Provérbios de Salomão inspirados pelo Espírito Santo. O Dr. R.C. Sproul usa os provérbios “pense bem antes de agir” e “quem hesita, perde” para ilustrar essa ideia. Há ocasiões em que precisamos agir com cautela antes de tomar uma decisão: escolher um cônjuge vem à mente. No entanto, a hesitação é néscia em outros momentos. Por exemplo, nunca paramos para considerar se devemos impedir nosso filho de dois anos de atravessar a rodovia sozinho. Da mesma forma, se esperarmos que cada provérbio de Salomão se aplique a todas as situações, ficaremos desapontados e confusos. Se devemos ou não responder a um néscio segundo sua insensatez (Pv 26:4-5) depende da pessoa com quem estamos lidando.
Investigue o problema que se apresenta cuidadosamente. Números 35:9-28 não exigia a pena de morte para todo assassinato; ao contrário, era apenas para homicídio premeditado. Para determinar a punição adequada, as autoridades tinham que investigar se o crime foi planejado. Usar corretamente os provérbios e leis de Deus requer conhecimento das circunstâncias às quais devem ser aplicados.
Ao ler um provérbio, mantenha todos em mente. O contexto importa, a interpretação correta de um provérbio ocorre apenas quando o entendemos à luz dos demais provérbios. Todos os provérbios devem estar prontos para serem ditos por nós (Pv 22:17-18). “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele” (v. 6) nos diz que pais piedosos em geral criam filhos piedosos. Contudo para que a criança siga pelo caminho reto e justo, é necessário cumprir outros princípios dos Provérbios. As crianças devem ouvir a sabedoria piedosa de seus pais e anciãos e ter corações inclinados para Deus se quiserem permanecer fiéis (1:8-9, 32-33; 3:5-6; 7:1-3). Se ignorarmos os outros provérbios, podemos nos apegar ilegitimamente a “ensina a criança” e assumir que criar filhos em um lar cristão atencioso e intencional significa necessariamente que essas crianças se tornarão cristãs. Lembrar o contexto do provérbio nos leva a discipular aqueles criados na fé mesmo quando são mais velhos, pois sabemos que o ensino ouvido há muito tempo não é útil se for desprezado hoje. Além disso, quando lemos “ensina a criança” à luz de todos os outros provérbios, não o usaremos para condenar automaticamente as habilidades parentais daqueles com descendência ímpia. Todos os Provérbios, assim como toda a Bíblia, nos mostram que pais fiéis às vezes geram filhos infiéis. Mesmo pais e mães que ensinam com diligência a Palavra de Deus aos seus filhos (Dt 6:4-9) não podem trocar um coração de pedra por um coração de carne.
Mantenha o objetivo em vista. Muitos provérbios preveem êxito para o povo do Senhor e, de fato, os que vivem de forma justa costumam evitar adversidades e convivem em paz com os outros (Pv 12:21; 16:7). No entanto, enquanto homens e mulheres santos com frequência encontram “riquezas, e honra, e vida” (Pv 22:4), todos conhecemos servos fiéis que sofrem. Os Provérbios reconhecem essa realidade também. É possível temer a Deus e, ainda assim, viver na pobreza (Pv 15:16; 19:1). Haverá momentos em que a impiedade gera tesouros terrenos (Pv 10:2a). Se esquecermos essas verdades e considerarmos os provérbios que oferecem sucesso para os justos como promessas absolutas, ficaremos desanimados quando a experiência não corresponder à realidade. Podemos também nos tornar como os amigos de Jó, que, de forma errada, pensaram que seus problemas eram prova de seu pecado.
Entretanto, o fato de que os provérbios não são promessas automáticas para esta vida presente não significa que não haja garantia de sucesso final para os justos. O testemunho das Escrituras sobre a justiça do Senhor (Gn 18:25; Ap 16:5) aponta para um tempo em que o povo de Deus é vindicado e os ímpios são destruídos. Para que Deus assegure a justiça, Ele deve corrigir os erros cometidos contra Seus santos em uma vida que ultrapassa o túmulo. Essa esperança aparece de forma obscura em Provérbios (veja Pv 10:2b, 25; 11:21; 16:4), mais uma consequência necessária do que um ensinamento direto. Porém, os provérbios que apontam para grandes bênçãos para os justos serão verdadeiros em um sentido definitivo, e, portanto, aguardamos ansiosamente por esse dia (Dn 12:1-3; Ap 20:11-15).
Provérbios e Cristo
Ao apontar para uma vida após a morte, Provérbios antecipa Aquele que vindicará os justos e os recompensará por seu serviço. Se o amor constante e a justiça preservam o rei (Pv 20:28), apenas um governante que encarna perfeitamente essas qualidades pode se qualificar como o Vindicador dos santos. Este Messias é o Senhor Jesus Cristo, que não apenas se submeteu com perfeição à sabedoria de Provérbios, Ele é também a própria sabedoria de Deus (1 Co 1:24). Salomão morreria como um néscio (1 Rs 11), mas Jesus sempre temeu a Deus e evitou o mal (Pv 3:7; 1 Pe 2:22). Se lermos Provérbios através da revelação mais completa de Seus ensinamentos e nos submetermos aos seus preceitos, viveremos com sabedoria para a glória de Deus.
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

