
Os Provérbios
julho 24, 2026O discurso no monte das Oliveiras
Mateus 24, muitas vezes chamado de discurso do monte das Oliveiras ou o Pequeno Apocalipse, é uma das passagens mais importantes das Escrituras sobre o tema dos sinais dos tempos e o fim dos tempos. No entanto, é também uma das passagens mais difíceis das Escrituras de interpretar.
No período moderno, muitos estudiosos argumentaram que a profecia de Jesus falsamente vinculou a destruição do templo em Jerusalém no ano 70 d.C. com Sua vinda e o fim dos tempos. Os dispensacionalistas interpretam a passagem de uma maneira amplamente futurista, e argumentam que ela se refere à destruição de um templo reconstruído em Jerusalém durante uma “grande tribulação” de sete anos que seguirá o “arrebatamento”. Alguns teólogos reformados interpretam Mateus 24:1-34 de uma maneira preterista e sustentam que Jesus está profetizando apenas sobre o que aconteceu no período antes e durante o tempo da destruição do templo. Somente no versículo 36 e daí em diante Jesus fala de eventos que seguirão a destruição do templo. Ainda outros teólogos reformados interpretam Mateus 24-25 como uma descrição de todo o período da história redentora entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. Em sua estimativa, o discurso de Jesus, inclusive em Mateus 24:1-34, está descrevendo não apenas a destruição do templo no ano 70 d.C., mas também o caráter desta era presente até a vinda final de Cristo para julgar os vivos e os mortos.
Devido à complexidade do discurso no monte das Oliveiras, A interpretação oferecida aqui reconhece que algumas perguntas podem permanecer sem resposta. Embora possamos afirmar a clareza das Escrituras, não devemos insistir que toda passagem é “evidente a todos” (Confissão de Fé de Westminster 1.7).
Uma pergunta dupla: uma chave interpretativa
A chave para a interpretação de Mateus 24-25 está na pergunta dupla que os discípulos fizeram a Jesus depois que Ele profetizou que o templo em Jerusalém seria destruído. Ao ouvir a profecia de Jesus, os discípulos vieram a Ele em particular e perguntaram: “Dize-nos, quando sucederão estas coisas e que sinal haverá da tua vinda e da consumação do século” (24:3; ver também Mc 13:4). A pergunta que fizeram a Jesus foca em dois assuntos distintos: (1) o momento da destruição do templo em Jerusalém, e (2) os eventos ou circunstâncias que sinalizarão Sua vinda e o fim da consumação do século.
Ainda que seja provável que a pergunta dos discípulos assumisse que a destruição do templo e a vinda de Cristo no fim da era presente fossem eventos coincidentes, no entanto, eles são diferentes. A importância disso não pode ser subestimada. Ao ler o discurso em Mateus 24-25, é sempre necessário perguntar: Jesus está abordando a primeira parte da pergunta de Seus discípulos sobre a destruição do templo? Ou Ele está abordando a segunda parte da pergunta dos discípulos sobre Sua vinda e o fim da era presente?
O discurso de Mateus 24-25 pode ser dividido em três partes: Mateus 24:4-14 descreve os sinais que marcarão o período presente da história entre a primeira e a segunda vinda de Cristo; Mateus 24:15-25 descreve um período de “grande tribulação” que virá sobre Israel e inclui a destruição do templo em Jerusalém; e Mateus 24:26-25:46 foca sobretudo na vinda do Filho do Homem no fim da consumação do século e inclui um chamado para vigiar até que Ele venha.
Sinais dos tempos e o período interadvento
A primeira seção do discurso (24:4-14) descreve vários sinais que marcarão a história antes da vinda de Cristo: falsos cristos (v. 5), guerras e rumores de guerras (v. 6), fomes e terremotos (v. 7), tribulação (v. 9), apostasia (v. 10), falsos profetas (v. 11), iniquidade (v. 12) e a pregação do evangelho a todas as nações (v. 14). Os preteristas argumentam que todos esses sinais precederam a destruição do templo em Jerusalém. São eventos passados e não se referem a circunstâncias que ocorrerão durante todo o período entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. Os futuristas argumentam que, embora algumas dessas circunstâncias possam caracterizar o período interadvento, elas se referem particularmente a eventos do “fim dos tempos” imediatamente antes da segunda vinda de Cristo.
Nenhuma dessas interpretações está correta. Ao longo desses versículos, parece evidente que Jesus está respondendo à segunda parte da pergunta dos discípulos sobre Sua vinda e o fim dos tempos. Um dos temas recorrentes na parte inicial do discurso é que os discípulos devem esperar que passe um tempo considerável antes que o “fim” chegue. As circunstâncias que Jesus identifica são “o princípio das dores” (v. 8; ver também Rm 8:20-25). Seus discípulos não devem ficar assustados quando elas ocorrerem (Mt 24:6). Nem devem concluir prematuramente que o “fim” está próximo. “Virá o fim” apenas depois que for “pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações” (v. 14). A interpretação mais provável desta seção do discurso de Jesus, portanto, é que Ele está dando uma visão panorâmica da história redentora antes de Sua vinda no fim dos tempos.
A destruição do templo
Na segunda seção do discurso (vv. 15-25), Jesus se concentra na primeira parte da pergunta dos discípulos: Quando o templo será destruído? Ainda que autores futuristas (dispensacionalistas) afirmam que a profecia de Jesus sobre a destruição do templo se refira a um evento futuro que ocorrerá após a vinda de Cristo e o “arrebatamento” da igreja, o contexto da profecia de Jesus e uma passagem paralela em Lucas 21:20 argumentam conclusivamente contra essa visão. O contexto óbvio para esta seção do discurso é a pergunta dos discípulos sobre quando o templo seria destruído. A linguagem que Jesus usa, ao recorrer à profecia em Daniel 9:17 (Mt 24:15), é muito específica e gráfica para ser entendida de outra forma que não como uma descrição profética do que ocorreu na época da destruição do templo em 70 d.C. Além disso, quando Jesus diz no v. 34 que “não passará esta geração sem que tudo isto aconteça” (ênfase adicionada), Ele o faz logo após Sua vívida descrição da destruição dos edifícios do templo. Por esta razão, intérpretes reformados têm, de forma unânime, considerado esta parte do discurso como a resposta de Jesus à pergunta dos discípulos sobre o momento da destruição do templo.
A vinda do Filho do Homem: uma questão de tempo
A parte mais difícil do discurso das Oliveiras de interpretar, contudo, se encontra no que eu denominei terceira seção. Nesta seção do discurso, Jesus retorna à segunda parte da pergunta dos discípulos: “Que sinal haverá da tua vinda e da consumação do século”?
Em relação a esta parte do discurso e sua relação com o que se segue no restante de Mateus 24 e Mateus 25, os intérpretes reformados adotaram duas visões bastante distintas. Alguns argumentam que “a vinda do Filho do Homem”, especialmente como se descreve em 24:27-31, se refere à vinda de Jesus em julgamento sobre Israel incrédulo na época da destruição do templo em 70 d.C. Em sua visão, toda a passagem de Mateus 24:4-34 é uma descrição profética do que aconteceria naquela época. Somente após o v. 34 Jesus começa a falar de Sua segunda vinda. Outros argumentam que Jesus, neste momento, está retornando à segunda parte da pergunta dos discípulos. Em sua opinião, há razões adequadas para considerar a vinda do Filho do Homem neste momento (como no restante de Mateus 24-25) como a segunda vinda de Cristo. Mesmo correndo o risco de simplificar demais a questão, dois argumentos favorecem a segunda interpretação.
Primeiro, a linguagem usada para descrever a vinda do Filho do Homem em 24:27-31 é semelhante a muitas passagens bíblicas que se referem à segunda vinda de Cristo. A vinda do Filho do Homem nesses versículos é um evento público, como o relâmpago sai do oriente e se mostra até no ocidente (v. 27). Será testemunhada por “todos os povos da terra”, que “verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória” (v. 30). Jesus associa de forma explícita esta vinda com “o sinal do Filho do Homem”, claramente uma alusão à segunda parte da pergunta dos discípulos no v. 3. Além do mais, os eventos que acompanham essa vinda, o envio de Seus anjos para reunir as nações, o som de uma forte trombeta, sinais cósmicos do sol escurecendo e o abalo dos poderes dos céus, o lamento das nações (vv. 29, 31), são semelhantes às descrições comuns no Novo Testamento da vinda final de Cristo e do julgamento dos vivos e dos mortos (p. ex., Mt 13:40-41; 16:27; 25:31; 1 Co 11:26; 15:52; 16:22; 1 Ts 4:14-17; 2 Ts 2:1-8; 2 Pe 3:10-12; Ap 1:7).
Em segundo lugar, o contraste entre Mateus 24:34 e 24:36 argumenta a favor de uma distinção clara entre o momento em que o templo em Jerusalém seria destruído e o momento da segunda vinda de Cristo. Consistente com o foco duplo da pergunta dos discípulos, o v. 34 afirma que a destruição do templo ocorreria dentro da vida da geração a quem Ele estava falando, enquanto o v. 36 ensina que ninguém sabe o momento “daquele dia” em que Ele virá na consumação do século. Como John Murray comenta sobre esses versículos:
É um erro grave ignorar a sequência do versículo 36 e deixar de interpretar o versículo 34 em conformidade. Isso teria deixado claro para os discípulos a distinção entre a destruição de Jerusalém e eventos correlativos no horizonte mais próximo, por um lado, e o dia de Sua vinda, por outro.
Embora possam permanecer dúvidas quanto à melhor leitura do discurso do monte das Oliveiras, uma coisa é certa: a profecia de Jesus sobre a destruição do templo se cumpriu, e Sua advertência de que devemos estar preparados para Sua vinda novamente deve ser levada a sério.
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

