A reforma na soteriologia no século XVI

agosto 31, 2026

A reforma na soteriologia no século XVI

agosto 31, 2026

O que é uma garantia de perdão?

Muitas das pessoas menos religiosas do mundo ainda estão familiarizadas com a clássica frase católica romana: “Abençoe-me, Padre, pois pequei.” Ditas quando um paroquiano entra em um confessionário privado com um padre, são palavras que refletem tanto a realidade do pecado quanto a necessidade de graça. O que acontece depois desta cena? Em resposta a uma lista de pecados confessados, o padre então prescreve certos passos de arrependimento e finalmente pronuncia uma absolvição. A tradição reformada também afirma a importância de confessar o pecado e receber o perdão, mas com algumas diferenças fundamentais.

A primeira diferença é a quem confessamos. Como a Bíblia nos diz que “há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1 Tm 2:5), acreditamos que o único que pode reparar a ruptura que nossos pecados causaram é Cristo, não um sacerdote ou pastor. Confessamos nossos pecados diretamente a Deus e suplicamos os méritos do nosso grande Sumo Sacerdote, Cristo Jesus (Hb 4:14-16).

A segunda diferença é onde acreditamos que a confissão deve ocorrer. Os reformados transformam o que ocorre na intimidade do confessionário em um elemento central e visível do culto público. Durante séculos, uma característica das liturgias reformadas (ordens de culto) tem sido uma seção de “purificação”. Um exemplo pode ser assim: a Palavra de Deus é lida, as pessoas confessam seus pecados em resposta a ela, e então o ministro declara o perdão para aqueles que confiam em Cristo Jesus.

Por que fazer disso uma parte do culto público? Confessar pecados pode parecer uma questão tão pessoal e privada. Talvez você tenha se sentido desconfortável em um culto religioso que exigiu que você lidasse diretamente com seus pecados da semana passada. Muitas igrejas descartaram qualquer tipo de leitura da lei ou confissão de pecados precisamente porque não querem que as pessoas se sintam constrangidas. Porém os reformados seguiram outro caminho, e a razão tem a ver com a natureza do culto.

A adoração é um encontro com Deus, e um povo pecador não pode entrar na presença de um Deus santo. A confissão do pecado e a declaração de uma justiça que se encontra em Cristo Jesus é um poderoso lembrete de que, sem o evangelho, a adoração nem sequer é possível. Além disso, a adoração existe para formar e fortalecer identidades cristãs. Como cristãos, somos pecadores e santos, e ambos são importantes (1 Jo 1:8-9). Na adoração coletiva, ocorre um momento emocionante quando o ministro declara o perdão que temos em Cristo Jesus, reforça em nós a identidade de pecadores redimidos pela graça, aqueles que são escolhidos e estimados por Deus.

Isso leva a uma terceira distinção entre as abordagens católica romana e reformada em relação ao perdão: o que acontece quando um pastor anuncia o perdão. O pastor não está decretando algo quando faz isso, mas apenas declara o que já é verdade segundo as Escrituras. Em contraste, a “absolvição” (do latim absolvere, que significa “libertar”) é o ato de um sacerdote literalmente libertar uma pessoa da culpa de seu pecado. Contudo não há autoridade nos homens para perdoar pecados (Mr 2:7), embora haja autoridade para pregar que os pecados são perdoados (At 13:38). O ministro ocupa a posição de Deus — mas não substitui Deus — e de seus lábios escutamos as palavras do nosso Deus misericordioso e perdoador: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8:1). É por isso que a declaração de perdão em muitas igrejas reformadas só incluirá a leitura de uma passagem da Bíblia que articula claramente o perdão e a esperança do evangelho. É na Palavra e promessa de Deus que encontramos nossa certeza de perdão.

Com isso em mente, a declaração de perdão é um dos pontos altos de uma liturgia reformada. O pecado nos humilha, mas o evangelho nos exalta (veja Sl 32:3-5). É o combustível da nossa esperança e a força da nossa obediência. O culto é um momento para encontrar “o Deus de toda a graça” (1 Pe 5:10), o Deus que alcança rebeldes indignos e que se torna, como Davi expressa, “o que exaltas a minha cabeça” (Sl 3:3). Ele é um Deus que é “clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade” (Êx 34:6). No culto público, Seu coração está em plena exibição, talvez especialmente na declaração de perdão.

Aqueles que já confiam em Cristo são perdoados antes que um pastor o declare. Nada muda objetivamente em nós ou entre nós e Deus naquele momento. Embora já sejamos perdoados, muitas vezes esquecemos disso, o que leva à dúvida e à desobediência. A certeza do perdão, portanto, é um lembrete necessário de quem somos como povo de Deus: “Vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia” (1 Pe 2:10).


  Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

Jonathan Landry Cruse

Jonathan Landry Cruse

O Rev. Jonathan Landry Cruse é pastor da Community Presbyterian Church (OPC) em Kalamazoo, Michigan, onde mora com sua esposa e filhos. Ele é autor de vários livros, entre eles Hymns of Devotion [Hinos de devoção], What Happens When We Worship [O que acontece quando adoramos?] e The Character of Christ [O caráter de Cristo].