
O que é a guerra espiritual?
abril 27, 2026Pensar como Jesus
Há vários anos, fui convidado a fazer um discurso de abertura em um importante seminário teológico nos Estados Unidos. Nesse discurso, falei sobre o papel crítico da lógica na interpretação bíblica e pedi que os seminários incluíssem cursos de lógica em seus currículos obrigatórios. Em quase qualquer curso de um seminário, os alunos são obrigados a aprender algo sobre as línguas bíblicas originais, hebraico e grego. São ensinados a examinar o contexto histórico do texto e aprendem princípios básicos de interpretação. Estas são todas habilidades importantes e valiosas para sermos bons administradores da Palavra de Deus. No entanto, a principal razão pela qual ocorrem erros na interpretação bíblica não é porque o leitor carece de conhecimento de hebraico ou da situação em que o livro bíblico foi escrito. A principal causa de mal-entendidos nas Escrituras é fazer inferências ilegítimas a partir do texto. É minha firme convicção de que essas inferências errôneas seriam menos prováveis se os intérpretes bíblicos fossem mais habilidosos nos princípios básicos da lógica.
Darei um exemplo do tipo de inferências incorretas que tenho em mente. Duvido que eu já tenha tido um debate sobre a questão da eleição soberana de Deus sem que alguém citasse João 3:16 e perguntasse: “Mas a Bíblia não diz que ‘Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna’?” Concordo de imediato que a Bíblia diz isso. Se fôssemos traduzir essa verdade em proposições lógicas, diríamos que todos os que acreditam terão vida eterna, e ninguém que tem vida eterna perecerá, pois perecer e vida eterna são opostos polares em termos das consequências da crença. No entanto, este texto não ensina absolutamente nada sobre a capacidade humana de acreditar em Jesus Cristo. Não nos comunica nada sobre quem irá acreditar. Jesus afirmou: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” (Jo 6:44). Aqui temos uma negativa universal que descreve a capacidade. Nenhuma pessoa tem a capacidade de vir a Jesus a menos que uma condição específica seja cumprida por Deus. No entanto, isso se esquece à luz de João 3:16, que não menciona nada sobre um pré-requisito para a fé. Portanto, Jo 3:16, um dos textos mais famosos da Bíblia, é habitual, constante e sistematicamente distorcido por inferências e conclusões incorretas.
Por que ocorrem inferências tão ilegítimas? A teologia cristã clássica, particularmente a teologia reformada, fala sobre os efeitos noéticos do pecado. A palavra em português ‘noético’ deriva da palavra grega nous, que é frequentemente traduzida como “razão”. Portanto, os efeitos noéticos do pecado são aquelas consequências da queda do homem sobre o intelecto humano. Toda a pessoa humana, isso inclui todas as nossas capacidades, foi devastada pela corrupção da natureza humana. Nossos corpos morrem por causa do pecado. A vontade do ser humano está em um estado de escravidão moral, em cativeiro aos desejos e impulsos malignos do coração. Nossas mentes, da mesma forma, estão caídas, e nossa capacidade de pensar foi bastante enfraquecida pela queda. Eu diria que o quociente de inteligência de Adão antes da queda era fora do comum. Duvido que ele fosse propenso a fazer inferências ilegítimas enquanto cuidava do jardim. Pelo contrário, sua mente era perspicaz e aguda. Porém ele perdeu isso quando caiu, e nós perdemos isso também com ele.
No entanto, o fato de estarmos caídos não quer dizer que já não possamos raciocinar. Todos nós estamos sujeitos a errar, mas também podemos aprender a raciocinar de maneira ordenada, lógica e coerente. É meu desejo ver os cristãos pensarem com a máxima coerência e clareza. Portanto, como questão de disciplina, é muito benéfico para nós estudar e dominar os princípios elementares do raciocínio para que possamos, com a ajuda de Deus, o Espírito Santo, superar até certo ponto os estragos do pecado em nosso pensamento.
Não acredito, nem por um instante, que alguém, enquanto o pecado estiver em nós, se tornará perfeito em nosso raciocínio. O pecado nos prejudica contra a lei de Deus enquanto vivermos, e devemos lutar para superar essas distorções básicas da verdade divina. Contudo, se amarmos a Deus, não apenas com todo o nosso coração, nossa alma e nossa força, mas também com nosso entendimento (Mr 12:30), seremos rigorosos em nossas tentativas de treinar nossas mentes.
Sim, Adão tinha uma mente refinada antes da queda. Porém eu acredito que o mundo nunca experimentou um pensamento tão sólido como o que se manifestou na mente de Cristo. Acredito que parte da perfeita humanidade de nosso Senhor foi que Ele nunca fez uma inferência incorreta. Ele nunca chegou a uma conclusão que não fosse justificada pelas premissas. Sua mente raciocinava de maneira clara e coerente. Somos chamados a imitar nosso Senhor em todas as coisas, isso inclui também Seu modo de pensar. Portanto, tenha como prioridade e sério propósito da sua vida: amar a Deus com todo o seu entendimento.
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

