
Um catecismo sobre o coração
abril 22, 2026O amor que é paciente e benigno
1 Coríntios 13 é uma das passagens mais famosas de toda a Escritura, pois nela o apóstolo Paulo nos oferece uma exposição maravilhosa do caráter do amor divino. Ele começa mostrando a importância do amor, ao escrever que se tivermos todos os tipos de dons, habilidades e conquistas, porém não tivermos amor, nada somos (vv. 1-3). Então, no v. 4, ele começa a descrever como é o amor divino, ao expressar: “O amor é paciente, é benigno”, ou, na linguagem de uma tradução mais tradicional: “O amor é sofredor, é benigno” (ACF). Acho essa combinação intrigante: paciência e benignidade. Por que Paulo colocou essas características primeiro em sua descrição do amor, e por que ele as uniu?
Paulo nos ensina que o amor é paciente, que “é sofredor”. Gosto mais desta tradução tradicional, porque transmite a ideia de que amar os outros pode ser difícil. Amar as pessoas significa que não as descartamos na primeira vez que nos ofendem. Em nossos relacionamentos, tendemos a ser muito mais pacientes com algumas pessoas do que com outras. Se um amigo de longa data faz algo para me irritar ou incomodar, em geral digo: “Ah, esse é apenas o jeito dele, essa é a personalidade dele, somos todos humanos, nenhum de nós é perfeito.” Sou tolerante com ele. Mas se eu encontrar outra pessoa e perceber que ela se comporta exatamente da mesma maneira que meu amigo se comportou, talvez eu não queira mais nada com ela. Toleramos coisas em nossos amigos que não toleramos em estranhos.
O amor paciente não mantém um placar. A primeira vez que você me ofender, eu poderia dizer: “Primeira falta”, e então lhe permitir mais duas faltas antes de excluir você. Porém se o meu amor é sofredor, você pode alcançar a septuagésima sétima falta, e ainda vou continuar ao seu lado.
Por que o amor cristão é sofredor? É porque os cristãos imitam Cristo, que imita Deus Pai, e a longanimidade é uma característica principal de Deus. A Bíblia com frequência destaca que Deus é tardio em irar-se, que Ele é paciente com Seu povo de dura cerviz. Por exemplo, Deus se descreve desta maneira: “Senhor, Senhor Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade” (Êx 34:6). Da mesma forma, Paulo fala sobre “a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade” (Rm 2:4).
Se você é cristão, por quanto tempo Deus suportou sua incredulidade antes de você ser redimido? Por quanto tempo Ele suportou o seu pecado persistente? Se não fosse pela longanimidade de Deus, pereceríamos. Se Deus nos tratasse com tanta impaciência quanto tratamos outras pessoas, estaríamos sofrendo no inferno agora. Ele suportou nossa desobediência, nossa blasfêmia, nossa indiferença, nossa incredulidade e nosso pecado, e ainda assim Ele nos ama. É assim que Deus é. É assim que Ele manifesta Seu amor. Ele demonstra Seu amor através de Sua paciência, que é uma paciência constante.
Somos chamados não apenas a ser pacientes, mas a sofrer por muito tempo. Não devemos ser pacientes com os pecados, fraquezas e defeitos das pessoas apenas enquanto não nos causarem dor. Sofrer por muito tempo significa amar quando estamos passando por dor e sofrimento. Significa que continuamos a ter “um amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados” (1 Pe 4:8). Dessa forma, refletimos o amor de Deus, que é paciente.
Então, por que Paulo associa paciência/longanimidade com benignidade? É possível sofrermos ferimentos ou hostilidade por um longo tempo enquanto somos hostis e tramamos vingança em troca. Contudo, isso não é o que a Bíblia entende por longanimidade. A longanimidade inclui a benignidade, pois devemos ser benignos em resposta à causa do nosso sofrimento. Pessoas bondosas não são rudes, severas, nem maldosas. Têm corações generosos. São sensíveis e atenciosos com outras pessoas.
Acredito que meu pai era um modelo dessa característica. Ele era de fato bondoso. Ele me demonstrou a bondade de Deus. Eu não gostava quando chegava em casa da escola e descobria que estava encrencado por algo que tinha feito. Minha mãe diria: “Seu pai quer ter uma conversa com você.” Tinha que entrar no escritório do meu pai e fechar a porta, e ele declarava: “Bem, filho, precisamos ter uma conversa.” Ele me desmontava sem nunca levantar a voz, sem nunca manifestar raiva para mim, e de alguma forma, depois de me desmontar, ele conseguia, de forma muito gentil, me reconstruir novamente. Depois, eu saía do escritório dele nas nuvens. Ficava contente, mas também sabia que precisava fazer melhor da próxima vez. Ele me inspirou, pois seu jeito era tão cordial.
Receio que seja raro encontrar alguém verdadeiramente cordial e bondosa. Contudo, a bondade deve estar ligada à longanimidade como uma manifestação de amor. Em poucas palavras, o amor não é impaciente nem maldoso. Isto reflete o amor de Deus, o mesmo amor que o Espírito Santo cultiva no povo de Deus.
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

