
O presente do Pai para o Filho
junho 8, 2026A doutrina reformada sobre Deus
Ao longo dos anos, tive oportunidades de ensinar Teologia Sistemática em diferentes contextos, desde salas de aula de seminários a cursos universitários e aulas de escola dominical na igreja local. Mas não importa onde eu tenha ensinado Teologia Sistemática, o primeiro lugar onde costumo começar é a doutrina sobre Deus. A teologia, é claro, estuda sobre Deus, Seu caráter e Seus caminhos, então é apropriado começar analisando Sua natureza e atributos antes de examinar o que a Bíblia tem a ensinar sobre a redenção, a igreja, as últimas coisas e as outras categorias da Teologia Sistemática.
Sempre que ensinei sobre a doutrina de Deus, comecei com duas declarações que pareciam deixar muitos dos meus alunos bastante consternados. Tenho o hábito de dizer a eles que, por um lado, não há nada particularmente único na doutrina sobre Deus confessada na tradição reformada da teologia cristã. Presbiterianos, batistas reformados, reformados holandeses e outros cristãos reformados reconhecem os mesmos atributos de Deus que luteranos, anglicanos, metodistas, ortodoxos orientais e católicos romanos. Não há nada radicalmente diferente em nossa doutrina sobre Deus.
No entanto, quando esses mesmos alunos me perguntaram qual era a característica mais importante da teologia reformada, eu respondi que era a nossa doutrina sobre Deus. Agora, isso soa completamente contraditório à minha primeira afirmação, porém digo que a doutrina Reformada sobre Deus nos diferencia de outras tradições pelo motivo de que não conheço outra teologia que leve a sério a doutrina sobre Ele em relação a todas as outras doutrinas. Na maioria das teologias sistemáticas, você encontra uma afirmação da soberania de Deus na primeira página do seu texto de teologia, contudo, uma vez que você avança para a soteriologia (doutrina da salvação), escatologia (doutrina das últimas coisas) e antropologia (doutrina sobre o homem), e assim por diante, o autor ao que parece esqueceu o que mencionou sobre a soberania de Deus na primeira página.
Porém, os teólogos reformados percebem com plena consciência que a doutrina sobre Deus abrange toda a teologia cristã. Essa é uma das razões pelas quais os calvinistas tendem a se concentrar tanto no Antigo Testamento. Estamos preocupados com o caráter de Deus como aquilo que define tudo: nossa compreensão de Cristo, de nós mesmos e da salvação. Vamos ao AT porque é uma das fontes mais importantes que podemos encontrar em qualquer lugar do universo sobre a natureza e o caráter divino. Os cristãos reformados costumam considerar o AT com muita seriedade, pois é uma revelação tão vívida da majestade de Deus.
Basta pensar nas principais revelações de Deus no AT. Em Isaías 6, encontramos uma das revelações mais vívidas da santidade divina em toda a Escritura. Então, é claro, há a revelação do Senhor de Si mesmo e de Seu nome de aliança a Moisés na sarça ardente em Êxodo 3. Esse é um capítulo indispensável para qualquer pessoa que busca entender sobre a independência e a autoexistência de Deus. Quando busquei um lembrete do compromisso do nosso Criador com a verdade e Sua fidelidade em manter Suas promessas de aliança, muitas vezes recorri a Gn 15, onde Deus jura por Si mesmo cumprir Sua promessa a Abraão de lhe dar descendentes inumeráveis. Para uma representação vívida do amor infalível e eficaz de Deus por Seu povo — Sua noiva — você dificilmente encontrará um lugar melhor nas Escrituras do que o livro de Oséias.
Poderia oferecer muitos mais exemplos, contudo o que todos esses episódios têm em comum? Essas revelações divinas ocorrem em vários momentos de crise na vida do povo de Deus. Tanto Isaías quanto Moisés estavam prestes a ser enviados em uma grande missão para proclamar a grandeza do Senhor a pessoas de coração endurecido. O que eles mais precisavam em um momento como aquele? Não é uma promessa de sucesso, na verdade, Isaías foi informado de que sua mensagem endureceria corações (Is 6:8-13). Não, o que precisavam era de uma compreensão sobre o caráter do Senhor. Quando Deus quis lhes dar segurança, Ele lhes deu a Si mesmo. O mesmo aconteceu com Abraão e Oséias. Humanamente falando, Abraão tinha poucas evidências para acreditar que Deus lhe daria muitos descendentes. Assim, o Senhor assegurou ao patriarca Sua fidelidade ao se comprometer com Sua própria destruição — algo impossível — caso Ele não cumprisse Sua Palavra. Oséias viveu em uma época em que parecia que Deus havia total e finalmente rejeitado Seu povo por sua infidelidade. Que esperança poderia o Senhor oferecer de que Ele amava Israel com um amor eterno? Foi a revelação de Si mesmo como o Marido que é perfeito em amor e fidelidade.
A doutrina sobre Deus na teologia reformada e sua ênfase em todos os Seus atributos em cada etapa da revelação redentora a distingue de outras compreensões cristãs sobre o Senhor. E nossa doutrina sobre Deus tem sua base em Gênesis até Apocalipse, tanto do AT quanto do NT. Então, será que não deveríamos assimilar todo o conselho de Deus e ler o Antigo e o Novo Testamento com profunda devoção?
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

