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Por que a Sexta-feira Santa é chamada de “Santa”?

A Sexta-feira Santa, que comemora o sofrimento e a morte de Jesus, há muito tempo é celebrada na igreja cristã. O registro histórico não é claro sobre como a igreja passou a chamar este dia de “Sexta-feira Santa”, já que o termo não é mencionado nas Escrituras. Alguns sugerem que originalmente era chamado de “Sexta-feira de Deus” e mais adiante se transformou em “Sexta-feira Santa”, mas a maioria dos linguistas considera essa teoria insustentável. É mais provável que o termo venha de um significado antiquado de “santo” como “bom”, em outras palavras, “Sexta-feira Boa.”

Seja qual for a evolução histórica desse termo, o fato é que os cristãos consideram a Sexta-feira Santa como boa da maneira como entendemos o termo hoje em dia, um fato que algumas pessoas podem achar intrigante. Por que os cristãos chamariam de “santo” um dia em que seu líder sofreu uma injustiça horrível nas mãos de líderes religiosos corruptos e foi condenado à morte pelos romanos em um vergonhoso instrumento de tortura?

À primeira vista, não parece haver nada de santo nesse dia. Os seguidores de Jesus sem dúvida não interpretaram isso como algo santo quando lamentaram Sua morte naquela sexta-feira e sábado. Os discípulos que haviam abandonado seus meios de subsistência e acreditavam que seriam protagonistas em um reino messiânico que derrubaria o domínio de Roma, tiveram suas esperanças e sonhos destruídos. Na verdade, se a morte de Jesus naquele dia sombrio tivesse sido o fim da história, as pessoas corretamente veriam os cristãos como objetos de infelicidade (1 Co 15:17-19).

Então, por que os cristãos chamam esse dia de Sexta-feira “Santa”? A resposta é que o Domingo da Ressurreição interpreta e transforma a Sexta-feira Santa. Vemos ao longo das Escrituras o padrão de algo que é “não bom” sendo depois reinterpretado, à medida que Deus soberanamente o utiliza para realizar o que é bom.

Por exemplo, consideremos a história de José em Gênesis. Não há nada inerentemente bom em ser traído pelos próprios irmãos, vendido como escravo em um país estrangeiro e —justo quando as coisas parecem por fim estar melhorando — ser falsamente acusado, jogado na prisão e esquecido por um companheiro de cela que ficou livre. Seria natural carimbar “não bom” sobre essas partes da história de José. No entanto, na misteriosa, porém maravilhosa providência de Deus, Ele molda o bem a partir desses materiais brutos “não bons”, ao usar José e sua eventual posição de autoridade no Egito para salvar não apenas a família de José da fome, mas toda a região. Em retrospectiva, José pode dizer sobre a traição maligna de seus irmãos: 

Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida (Gn 50:20).

Assim acontece com os eventos malignos da crucificação e morte de Jesus. Como o apóstolo Pedro deixa claro em seu sermão no Pentecostes, Jesus foi sem dúvida crucificado e morto “por mãos de iníquos” (At 2:23) que mataram “o Autor da vida” (At 3:15). Foi maligno para essas pessoas condenar à morte, conscientemente, um homem inocente que também era Deus encarnado. Contudo, acima de todos esses eventos, Deus estava soberanamente executando um plano que havia sido profetizado ao longo dos tempos para realizar o bem supremo a partir do mal supremo. Qual foi o bem que Deus estava realizando na morte de Jesus naquela sexta-feira?

As Escrituras deixam claro que a humanidade está em uma situação difícil. Todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus (Rm 3:23). A maldade e a deformidade do pecado nos separam do Deus glorioso, perfeito e santo, que em Sua retidão e justiça deve julgar o pecado (Rm 2:5-6; 5:9-10; 1 Ts 1:10). Que esperança temos enquanto nos precipitamos rumo a um futuro de separação eterna do amor de Deus, e em vez disso enfrentamos Sua justa ira contra o nosso pecado? Carecemos da justiça necessária para estar na presença de Deus e não podemos pagar a dívida que devemos pelo nosso pecado.

Não haveria esperança além do plano do Deus triúno na eternidade passada para nos conceder uma salvação que não podemos garantir por nós mesmos. A segunda pessoa da Trindade, o Filho, se encarnou e viveu a vida perfeitamente justa que todos nós falhamos em viver. Na cruz, segundo o próprio plano de Deus (At 2:23), Jesus enfrentou muito mais do que a ira dos líderes judeus e dos soldados romanos. Ele enfrentou e satisfez (ou “propiciou”) a ira do próprio Deus pelos pecados de todos aqueles que pertencem a Ele (Rm 5:9-10; Hb 2:17; 1 Jo 2:2). O sistema sacrificial do AT apontava para Jesus, quem é tanto o Sumo Sacerdote perfeito quanto o sacrifício perfeito (Hb 9:12, 26). Sua vida perfeita e morte sacrificial e substitutiva satisfizeram a ira justa e o juízo de Deus contra os pecados de todos que confiam apenas em Cristo para a salvação. Jesus, o perfeitamente justo, tomou sobre Si o castigo pelos nossos pecados, e nós, que merecemos punição eterna por nossa injustiça, recebemos a perfeita justiça de Cristo.

Portanto, a Sexta-feira Santa é boa, pois através de Sua morte, Cristo nos redimiu da maldição da lei, tornando-se uma maldição por nós, para que pudéssemos receber a adoção como filhos (Gl 3:13-14; 4:5). Porque Jesus carregou nossos pecados em Seu corpo sobre o madeiro (1 Pe 2:24), temos a redenção através de Seu sangue e o perdão de nossas transgressões (Ef 1:7). Somos resgatados com o precioso sangue de Cristo (1 Pe 1:18-19). Somos justificados, salvos da ira de Deus e reconciliados com Ele (Rm 5:9-10).

A ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos no terceiro dia valida tudo o que Ele realizou na Sexta-feira Santa, o que revela que a morte não tem reivindicação definitiva sobre Ele (At 2:24). Seu triunfo sobre a morte em Sua ressurreição mostra que Ele tem o poder e a capacidade de garantir nossa justificação (Rm 4:25). A ressurreição prova que Ele de fato é Deus (Rm 1:4) e que a Sua ira foi realmente satisfeita pela morte expiatória de Cristo. Visto que Jesus suportou a ira de Deus pelos pecados de todos que confiariam nesta provisão pela fé somente, os cristãos nunca enfrentarão a ira divina contra seus pecados ou serão separados dEle, pois estão unidos a Cristo em Sua morte e em Sua vida.

Em resumo, a Sexta-feira Santa é boa, porque nesse dia ocorreu a maior troca: “Aquele que não conheceu pecado, ele [Deus] o fez [Jesus] pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5:21). Podemos então declarar com o apóstolo Paulo: “Graças a Deus pelo seu dom inefável!” (2 Co 9:15).


Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

Karrie Hahn

Karrie Hahn

Karrie Hahn é editora associada do Ministério Ligonier e conselheira bíblica certificada. Ela é colaboradora de Women Counseling Women: Biblical Answers to Life’s Difficult Problems [Mulheres aconselhando mulheres: respostas bíblicas para os problemas difíceis da vida].