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É uma condição triste de nossos corações caídos que, quando vemos a bondade de Deus para com os outros, muitas vezes, em vez de nos alegrarmos com eles e louvarmos a Deus, nos tornamos invejosos, antagonistas à sua felicidade e descontentes com nossa própria situação. Em vez de celebrar e abençoar a Deus pelas coisas boas que Ele lhes deu — um casamento feliz, filhos, habilidades e talentos naturais, sucesso financeiro ou ministerial — nos sentimos ameaçados, excluídos ou negligenciados.
Essa resposta pecaminosa é comum a todas as pessoas, mas é uma luta para os cristãos, porque sabemos que nossos corações não deveriam agir dessa maneira. Sabemos que Deus já foi indescritivelmente gracioso conosco ao nos dar toda bênção espiritual em Cristo (Ef 1:3), e que deveríamos estar perfeitamente contentes com o que quer que nos aconteça, pois já possuímos todas as coisas (1 Co 3:21).
Porém conhecer a Palavra de Deus e obedecê-la de coração são coisas diferentes, e muitas vezes em nossa santificação sentimos a separação entre elas. No entanto, o Espírito Santo não nos deixa preencher essa diferença por conta própria, mas nos equipa e capacita a fazer o que Ele nos ordenou.
Uma passagem que pode ser de grande ajuda na luta pelo contentamento está na instrução de Paulo à igreja em Corinto. Em 1 Coríntios, Paulo aborda um problema que a igreja está enfrentando com cultos de personalidade, onde alguns dizem: “Eu sigo Paulo”, e outros, “eu sigo Apolo”, e há disputas e divisões entre eles. Ao analisar esse comportamento, Paulo discerne que o apoio deles a pregadores conhecidos decorre de um desejo mundano de se exaltarem por meio da associação. Em outras palavras, ao favorecer um líder da igreja em particular, as pessoas estão tentando se engrandecer (1 Co 4:6). Em vez de estarem contentes com quem são ou com o que têm, estão tentando se colocar acima dos outros na igreja.
Alguns entre eles favorecem Paulo, talvez porque ele era um apóstolo e o primeiro a trazer o evangelho e estabelecer a igreja em Corinto. Muitos teriam aprendido os fundamentos da fé sob a orientação de Paulo enquanto ele lhes ensinava a Palavra de Deus por dezoito meses (At 18:11). Alguns poderiam até se vangloriar de terem sido batizados por ele (1 Co 1:14-16).
Outros na igreja favorecem Apolo. Ao contrário de Paulo, que falava “não com sabedoria de palavra”, porém “em fraqueza, temor e grande tremor” (1 Co 1:17; 2:3), Apolo era um “homem eloquente” e, enquanto estava em Corinto, ele “convencia publicamente os judeus” (At 18:24-28). Talvez os que se gloriavam por causa dele estivessem entre seus discípulos e tivessem passado a compartilhar de seus dons e reputação.
Além destes, há outros grupos na igreja que, por uma razão ou outra, fizessem de Cefas ou de Cristo o objeto de sua glória em oposição ao restante (1 Co 1:12). Cada grupo tem seu campeão escolhido, e certamente são líderes dignos de serem seguidos. Contudo Paulo discerne em todas essas facções não o nobre resultado da lealdade ou convicção espiritual, mas pura e simples mundanidade. Ela chama isso de andar “segundo os homens” (1 Co 3:4), e como parte de sua correção, ele lembra à igreja por que, em vez de estarem divididos, deveriam estar unidos. Ele escreve:
Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus (1 Co 1:26-29).
Contra o tribalismo dos coríntios, Paulo restabelece a base para a sua unidade, lembrando-os do que têm em comum: todos são essencialmente um grupo de ninguém, que, precisamente por causa de sua falta de distinção, Deus se agradou em chamar de Seus. Não importa o quanto tentem superar uns aos outros, todos são tão insignificantes que qualquer competição entre eles é inconsequente. Além disso, ser o mais sábio, poderoso ou diferente não é o que importa para Deus. De fato, como visto em 1 Coríntios 1:29-31, ser grande “segundo a carne” (v. 26) e depositar confiança nisso (se vangloriar de si mesmo) é a antítese da razão pela qual Deus os escolheu. Ele os elegeu e os uniu a Cristo Jesus para que Cristo fosse a sua “sabedoria de Deus, justiça, santificação e redenção.”
As tentativas dos coríntios de se exaltarem vão contra os propósitos de Deus para eles em Cristo, que são que “ninguém se vanglorie na presença de Deus”, entretanto, em vez disso, que reconheçam e possuam tudo o que Cristo fez por eles e se gloriem no Senhor.
Esta passagem nos lembra do que faz e do que não faz o verdadeiro contentamento. Buscar nos exaltar através de nossas próprias realizações ou associações é uma ilusão que divide a igreja de Cristo e rouba dEle a glória que lhe pertence exclusivamente. Este é o problema de invejar as bênçãos dos outros e se tornar insatisfeito: revela que estamos buscando importância em elogios terrenos, posses ou poder, todos os quais falham em última instância.
O verdadeiro contentamento ocorre quando nossa glória está no Senhor. Ela acontece quando nos lembramos de nossa completa indignidade de receber qualquer coisa boa, recebemos o dom inefável de Deus para nós em Cristo Jesus (2 Co 9:15), e reconhecemos com sincera gratidão e louvor transbordante que cada dom, seja para nós ou para outros, é dado por Ele de forma sábia e amorosa, conforme Seus bons desígnios para todo o Seu povo.
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

