Onde Agostinho errou

julho 29, 2026

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As obras de Agostinho

Agostinho de Hipona foi o teólogo mais prolífico e influente da igreja primitiva. Quanto ao volume, a seleção de suas obras incluídas na série Nicene and Post-Nicene Fathers [Pais do período niceno e pós-niceno] chega a oito volumes grandes de duas colunas. “Nas prateleiras” da própria biblioteca de Agostinho, Peter Brown observa, “havia noventa e três de suas próprias obras, compostas por duzentos e trinta e dois pequenos livros, grandes quantidades de suas cartas e, talvez, capas repletas de antologias de seus sermões.” Suas obras existentes somam mais de cinco milhões de palavras.

Quanto à influência, nenhuma tentativa de definir um cânone ocidental de literatura perderia credibilidade se excluísse Confissões e A cidade de Deus. Outras obras, como Sobre o ensino cristão, Sobre a Trindade e Sobre o livre arbítrio, permanecem fontes de referência em seus respectivos temas. Juntamente com Confissões e A cidade de Deus, seu Enquirídio e Retratações são arquétipos de seu gênero. Cada uma dessas obras provou ser influente o suficiente para garantir um lugar de destaque para Agostinho na história da igreja. Consideradas em conjunto e colocadas ao lado de seus muitos outros tratados, comentários, cartas e sermões, são um forte argumento para considerar Agostinho como o teólogo mais influente na história da igreja após o fechamento do cânone.

Corpus

Em seu corpus, temos a mente de um dos pensadores mais implacáveis, profundos e produtivos da história exposta diante de nós. Seu principal interesse, como pastor e teólogo, era apresentar a ortodoxia católica (isto é, universal) para o benefício da igreja, para testemunho ao mundo e para a defesa da fé contra os muitos e variados oponentes de sua época. Ele simplesmente propôs uma filosofia da história, linguagem, retórica e mente; adaptou antigos e desenvolveu novos gêneros literários; e moldou o desenvolvimento subsequente da teologia ocidental ao longo do caminho.

É evidente que Agostinho pretendia que seu corpus existisse após sua morte e que as gerações futuras considerassem a totalidade de seus escritos exatamente como isso: um único corpus. A maioria de seus escritos foi produzida no momento para atender às várias e sempre mutáveis demandas do ministério pastoral na África do Norte do final do período romano. No entanto, não estava satisfeito em deixar suas obras para a posteridade como uma bagunça de peças dispersas e ocasionais. Assim, dedicou bastante tempo e energia durante os últimos anos de sua vida a fim de consolidar tudo em um corpus que ele queria deixar como legado.

Retratações

Para esse objetivo, Agostinho começou a revisar todas as noventa e três obras que tinha em suas prateleiras e comentou sobre cada uma e, ao mesmo tempo (mas de maneira intencional), criou um novo gênero literário: as retratações. As Retratações de Agostinho provém de um pastor maduro profundamente humilhado pela percepção de que escreveu bastante em diversas ocasiões e sobre variados assuntos e, sobretudo, de que seus escritos, já influentes, perdurariam após sua morte. Ele quer que nós, seus futuros leitores, saibamos quando e por que ele escreveu cada obra e o que considera sua contribuição mais importante. Ele também esclarece pontos potencialmente confusos e se corrige quando necessário.

Em Retratações, em outras palavras, Agostinho assume a tarefa de ser o primeiro editor e crítico de suas obras completas, organizadas em ordem cronológica. Embora ele planejasse revisar e comentar todos os seus livros, cartas e sermões, as exigências do ministério e o caos da vida lhe permitiram abordar apenas suas obras principais. Porém este trabalho abreviado e inacabado é indispensável para leitores e estudantes de Agostinho, não apenas como um guia para seu corpus, mas como uma janela autobiográfica para a mente do bispo idoso refletindo sobre uma vida no ministério.

Confissões

Dessa forma, as Retratações de Agostinho se tornam um interessante complemento à sua obra mais conhecida pelos leitores modernos, Confissões. Reconhecido de forma ampla como um clássico literário, Confissões mostra Agostinho, o ex-professor de retórica, entrelaçando fios de teologia e filosofia em um relato da graça soberana de Deus. A obra é escrita na forma de uma oração de louvor a Deus e expõe a dinâmica interior da alma de Agostinho, outrora inquieta, mas agora satisfeita em Deus.

Escrita em algum momento nos dois primeiros anos de seu pastorado — e logo após Sobre o ensino cristão — esta obra foi a primeira de seu tipo em termos de análise espiritual implacável dos diversos estados de sua alma durante a sua vida até aquele momento. Agostinho está menos interessado em relatar as reviravoltas de sua vida desregrada, conversão e crescimento na graça do que em meditar sobre o significado espiritual de tudo isso. Ele reflete sobre a natureza do pecado e seu amor juvenil pelo pecado por si só; testemunha sua total dependência da graça divina, que tudo abarca e o leva à salvação desde a eternidade até o momento presente de sua vida; pondera sobre a relação entre a liberdade humana e a graça divina; e acima de tudo, ele confessa sua profunda satisfação na suficiência de Deus como o princípio e o fim de todas as coisas.

Em certo sentido, Confissões é uma autobiografia espiritual escrita por um homem relativamente jovem que encontrou seu lugar, o propósito de sua vida e o deleite de sua alma, em um mundo que foi feito por Deus e para Ele (os livros 1-10 são mais autobiográficos; os livros 11-13 são uma espécie de comentário sobre Gênesis 1). O maniqueísmo e a filosofia do neoplatonismo imaginaram tal lugar, contudo a fé em Cristo somente poderia tirá-lo de sua vida anterior e levá-lo a este estado abençoado de repouso total em Deus e de ser útil em Seu serviço. Confissões é um testemunho de sua confiança na graça salvífica de Deus apresentada por um homem que acabou de dedicar o resto de sua vida ao trabalho do ministério. Retratações é um testemunho de que a graça divina o sustentou através de seus muitos anos de serviço.

Sobre o ensino cristão

Se Confissões e Retratações são como suportes de livros no ministério de Agostinho, então Sobre o ensino cristão é como um roteiro de seu pastoreio. Os livros 1-3.25.35 foram escritos pouco antes de Confissões, no início de seu ministério pastoral; o restante do livro 3 e 4 foram adicionados enquanto trabalhava em Retratações. É possível que a versão incompleta tenha circulado durante sua vida. Seja como for, a versão completa provou ser uma de suas contribuições mais influentes.

O objetivo deste trabalho relativamente breve é descrever como os pregadores devem interpretar e aplicar as Escrituras como ministros da Palavra, que é a ocupação central de um pastor. Entretanto, para entender corretamente as Escrituras é necessário compreender a linguagem. Portanto, Agostinho inicia sua exposição desenvolvendo uma filosofia (ou teologia) básica da linguagem em torno de uma distinção entre sinais e coisas. Ele distingue ainda as coisas entre aquelas a serem usadas e aquelas a serem desfrutadas. Ele então argumenta que só existe um objeto supremo de satisfação: a Trindade. Todas as outras coisas devem ser ordenadas e usadas para este fim.

Como a linguagem lida com sinais, devemos entender como os sinais linguísticos funcionam para compreender corretamente as Escrituras. A linguagem nem sempre opera de maneira literal. Assim, Agostinho desenvolve regras para discernir figuras de linguagem. Às vezes, as palavras podem se referir a coisas literais, mas essas coisas devem ser interpretadas figurativamente; por isso, ele desenvolve regras para o que chamaríamos de tipologia. Em certos casos, as palavras têm significados distintos em lugares diferentes ou variados termos se usam para se referir à mesma coisa; assim, ele descreve a falácia do conceito-palavra (que afirma que uma palavra sempre significa um conceito particular ou que um conceito está ausente se uma palavra específica não for usada). Por vezes vezes, o significado de um texto é obscuro, ele admite; então procede a descrever a analogia das Escrituras (interpretando passagens obscuras à luz das claras) e a analogia da fé (usando o que as Escrituras ensinam claramente em um lugar para guiar nossa leitura em outros lugares).

Qualquer que seja o método que usemos, quando chegamos a uma compreensão correta das Escrituras — que para Agostinho é o significado que o autor tinha em mente — nunca deixará de nos ensinar a amar a Deus com um amor avassalador e a amar nosso próximo como a nós mesmos. Para Agostinho, amar a Deus e ao próximo é buscar desfrutar de Deus — Pai, Filho e Espírito Santo — por Sua própria causa e amar nosso próximo (e a nós mesmos) por causa de Deus. Se nossa compreensão das Escrituras não se dirige a esse objetivo, então é um sinal certo de que nos desviamos em nossa interpretação.

Quando se trata de comunicar o significado das Escrituras de forma eficaz à congregação, Agostinho orienta seus alunos a estudarem os clássicos greco-romanos sobre retórica. Como faz em outras partes de seu corpus, Agostinho apresenta um argumento sólido para o uso de tudo o que é verdadeiro e útil em fontes não cristãs. A mente humana, separada de Cristo, é caída e corrupta, contudo permanece capaz de percepções profundas e feitos impressionantes. A retórica é um dos muitos campos nos quais os cristãos dificilmente podem melhorar o aprendizado já disponível no mundo.

A cidade de Deus

Dito isso, os cristãos devem ser criteriosos no uso de fontes não cristãs. A sabedoria do mundo é, na melhor das hipóteses, uma mera sombra da sabedoria divina. Mais problemático ainda, é usada de forma idólatra, egoísta e, por consequência, abusiva, em vez de para o desfrute de Deus e o bem da humanidade. Em vista disso, a sabedoria do mundo está sempre misturada com erro e muitas vezes é hostil à fé. Este é o caminho das coisas na cidade caída do homem, explica Agostinho em sua maior e, possivelmente, mais influente obra, A cidade de Deus.

Portanto, os cristãos têm uma relação marcada por conflitos com a cidade dos homens. Vivemos neste mundo presente, estamos sujeitos às autoridades temporais e temos o direito de usar e a liberdade de nos beneficiar da cultura e civilização humanas. Temos até uma responsabilidade moral de buscar e promover o bem-estar de nossas comunidades. Os cristãos devem ser cidadãos exemplares, trabalhadores, vizinhos, e assim por diante. A cidade dos homens é tanto uma provisão divina para o nosso bem-estar quanto corrompida pelo pecado, animada por desejos egoístas e com atitude de desprezo diante de Deus.

A cidade de Deus é uma obra-prima de apologética escrita em resposta a uma crise. Em 410, Alarico liderou um exército de visigodos contra Roma, fez a cidade se render pela fome e permitiu que seu exército saqueasse a cidade por três dias. Foi a primeira vez que Roma foi derrubada em quase oito séculos, e foi uma demonstração clara de que o Império romano no Ocidente estava em declínio.

O mundo ficou chocado com a queda de Roma. Os cristãos não conseguiam entender como o Império romano, que havia estabelecido o cristianismo como sua religião oficial em 380, poderia estar colapsando apenas trinta anos depois. Os pagãos argumentavam que era isso que Roma merecia por abandonar os deuses que a tornaram grande e, em vez disso, adorar um estrangeiro crucificado. A resposta de Agostinho repreendeu os pagãos e desafiou os cristãos a elevarem seus olhos para a cidade de Deus que desce do alto.

Os primeiros dez livros de A cidade de Deus apresentam uma crítica sustentada da religião romana pagã em suas variadas expressões, desde a defendida pelos poetas, até a das autoridades civis, e a dos filósofos. Os doze livros seguintes desenvolvem o relato de Agostinho sobre a respectiva origem, desenvolvimento e fim da cidade dos homens e da cidade de Deus. O paganismo, ele argumenta na primeira parte, era moral e espiritualmente falido e positivamente maligno. As duas cidades, ele explica na segunda parte, são guiadas por princípios contrários: uma por uma gratificação egoísta da carne, a outra por um desejo puro de conhecer e desfrutar de Deus e servir ao bem dos outros. O Império romano pertence à primeira, a igreja à segunda. A justiça perfeita, a paz espiritual e a felicidade eterna só podem ser encontradas na cidade de Deus.

Agostinho essencialmente desenvolve uma apologética da esperança em A cidade de Deus. A cidade dos homens é temporal e efêmera, porém a cidade de Deus é eterna e permanente. Ela ainda não apareceu em toda a sua glória — isso acontecerá apenas quando Cristo retornar — mas já está aqui e é evidente nas vidas virtuosas dos santos que verdadeiramente conhecem e desfrutam de Deus. À medida que o mundo romano desmoronava, Agostinho exorta seus leitores a olharem para os céus e contemplarem as coisas gloriosas ditas sobre a cidade de Deus (Sl 87:3).

Sobre a Trindade

Agostinho tinha obsessão em conhecer e desfrutar de Deus. Nesse sentido, não é surpresa que uma de suas maiores contribuições para a história da teologia seja um exame aprofundado no mistério mais profundo da fé que ele dedicou sua vida a expor e defender: a Santíssima Trindade. Agostinho começa Sobre a Trindade com uma exposição e defesa da unidade de Deus, a plena igualdade das três pessoas divinas e suas distinções pessoais diante de tendências semi-arianas e subordinacionistas persistentes e, por vezes, sutis (livros 1-7).

Nesta exposição, ele desenvolve uma impressionante explicação das relações internas de amor mútuo que existem entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Ele argumenta que a procedência do Espírito do Pai e do Filho é o fluxo eterno de Seu amor mútuo (livro 6). Por sua vez, isso se torna uma chave para entender a Trindade através da analogia da imagem divina dentro de nós, que ele desenvolve em termos das três operações inseparáveis da mente única: memória, entendimento e vontade (livros 8-15).

A analogia de Agostinho recebe críticas mistas. Como todas as analogias para a Trindade, esta é insuficiente. Entretanto, isso é a própria natureza de uma analogia, que é uma semelhança imperfeita traçada entre duas coisas. Agostinho nunca sugere que sua analogia nos ofereça mais do que uma semelhança sombria entre o ser humano criado à imagem de Deus e a incompreensível Trindade que habita em luz inacessível.

Conclusão

Quando Agostinho estava morrendo em 430, Hipona estava sob cerco dos Vândalos, que estavam devastando o norte da África romana. Brown comenta: “Agostinho viveu para ver a violência destruir o trabalho de sua vida na África.” A própria Hipona teve que ser evacuada e foi incendiada. De alguma forma, a biblioteca de Agostinho foi preservada. De fato, logo em Hipona “não restou nada de Agostinho, além de sua biblioteca.”

Possídio, um bispo colega no norte da África romana, havia fugido para Hipona durante a invasão vândala e estava presente quando Agostinho morreu. Ele escreveu uma lista das obras de Agostinho que chegou até nós e sugeriu em sua biografia de Agostinho que ninguém poderia lê-las todas. No entanto, Agostinho, auxiliado por secretários e estenógrafos, elaborou cada obra ao longo de seu ministério pastoral.

Como podemos avaliar seu corpus? A questão é simples. Seus escritos são úteis para levar aqueles que os tomam e os leem para um desfrute mais pleno de Deus? A resposta parece óbvia. Isso, podemos ter certeza, é exatamente o motivo pelo qual Agostinho escreveu tudo o que escreveu e é o que ele mais queria para seus leitores ao organizar seu corpus para que se tornasse a única coisa que ele acreditava que perduraria após sua morte.


Detalhe da página de título de S. AUGUSTINI de Civitate Dei libri xxii, Add. 15246, fol. 28v, Bridgeman Images.

Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

Bruce P. Baugus

Bruce P. Baugus

O Dr. Bruce P. Baugus é professor de Teologia Sistemática e Apologética no Puritan Reformed Theological Seminary em Grand Rapids, Michigan, e um presbítero docente na Presbyterian Church in America. Ele é autor de Reformed Moral Theology [Teologia moral reformada].