
O que a Bíblia ensina sobre o dízimo cristão?
julho 27, 2026Onde Agostinho errou
A vida, o ministério e a teologia de Agostinho nos oferecem muito que é fiel e útil. Muitos de seus escritos, como Confissões e A cidade de Deus, são grandes clássicos da literatura e teologia cristã. B. B. Warfield relata que Agostinho “foi de maneira impressionante chamado de incomparavelmente o maior homem” que a igreja cristã possuiu “entre o apóstolo Paulo, e Lutero, o reformador”. Ao lermos os escritos de Agostinho, há muito que podemos admirar e aprender; há muito pelo que agradecer ao Senhor. Ele foi um homem que amava a Deus, a Sua Palavra e a igreja com um coração pastoral. Ao mesmo tempo, é bom estar ciente de algumas áreas importantes onde Agostinho errou.
Uma dessas é o casamento. Na época da conversão de Agostinho, o movimento relativamente novo do monasticismo estava se espalhando pela Europa mediterrânea. Em consonância com o exemplo de homens como Antônio, o Egípcio, jovens, muitas vezes de origens de classe média a alta, doavam seus bens e se dedicavam a uma vida comunitária e celibatária como monges ou freiras. Enquanto a cultura do mundo mediterrâneo mais amplo era muito marcada por uma busca desenfreada do hedonismo sexual, esses jovens viam a si mesmos como seguindo o chamado de Cristo através do apóstolo Paulo “aos solteiros e viúvos digo que lhes seria bom se permanecessem no estado em que também eu vivo” (1 Co 7:8). Contudo, a fraqueza dentro do movimento era que o celibato era elevado acima do casamento; sexo e desejo sexual no casamento eram considerados inerentemente pecaminosos: uma visão enraizada em influências ascéticas estóicas e gnósticas, em vez das Escrituras. Essa visão já era evidente nos escritos de homens como Orígenes (c. 185-283) e Tertuliano (c. 155-220) e nos contemporâneos de Agostinho, como Jerônimo (c. 345-420).
Embora Agostinho tenha se mostrado mais moderado em suas opiniões sobre sexo e casamento do que Jerônimo e tenha escrito de forma positiva sobre o casamento cristão, ainda assim via o celibato como mais sagrado do que o casamento cristão. Suas opiniões tiveram uma influência lamentável em sua própria vida: em vez de se casar com sua amante de mais de quinze anos, quem o amava, tinha dado à luz seu filho, Adeodato, e também tinha se convertido ao cristianismo, Agostinho cortou todas as relações com ela após sua conversão, e a enviou para o norte da África e manteve Adeodato com ele. A mulher ficou devastada e se tornou freira em sua profunda tristeza. Em sua subsequente vida monástica, conforme relatado por seu biógrafo contemporâneo, Possídio, Agostinho buscou uma cuidadosa integridade moral e encorajou outros a fazerem o mesmo. Entretanto, em parte por sua influência, não seria até a era da Reforma, através dos casamentos de pessoas como Martinho e Catarina Lutero, que a igreja recuperaria uma visão bíblica sobre o casamento. Se ao menos a doutrina de Agostinho sobre o casamento tivesse sido biblicamente sólida, talvez tivesse tido um casamento e uma vida familiar felizes. Se tivesse escrito a favor do casamento, a cultura e a sociedade da igreja europeia medieval poderiam ter sido muito diferentes.
A visão de Agostinho sobre o celibato e o casamento continua a ser influente e apreciada no catolicismo romano. O mesmo se aplica a outras áreas de sua doutrina. Warfield, em uma reflexão mais extensa sobre Agostinho, afirma que ele foi “tanto o fundador do catolicismo romano quanto o autor daquela doutrina da graça que tem sido o esforço constantemente perseguido do catolicismo romano para neutralizar […] Duas crianças estavam lutando no ventre de sua mente.” Gavin Ortlund observa que isso é evidente em:
sua complexa sacramentologia, com doutrinas de regeneração batismal, uma compreensão sacrificial da missa e uma compreensão ex opere operato da eficácia sacramental; sua eclesiologia hierárquica, com uma doutrina do papado, crença na autoridade da igreja […] e suas doutrinas de intercessão dos santos, purgatório, penitência e a virgindade perpétua de Maria.
As suas doutrinas sobre a justificação e perseverança podem ser adicionadas a esta lista.
A doutrina dos sacramentos de Agostinho era, em alguns aspectos, claramente diferente da visão posteriormente desenvolvida pelo catolicismo romano. Ao contrário dos teólogos posteriores, entre eles os da era da Reforma e pós-Reforma, Agostinho não apresentou uma definição distinta do que é um sacramento, porém falou dos sacramentos como sinais que se relacionam com, embora sejam distintos das coisas que representam: sinais visíveis da graça invisível. Ainda que aspectos de seu pensamento permaneçam úteis e sejam ecoados na Confissão de Fé de Westminster, o uso indistinto do termo sacramentum por Agostinho teve ampla aplicação em seus escritos, que abrange desde sinais e símbolos do Antigo Testamento até a própria Escritura, casamento, ordenação e, claro, o batismo e a Ceia do Senhor. Em sua aplicação do termo, Agostinho não se encaixa perfeitamente nem no sistema católico romano dos sete sacramentos nem na recuperação reformada da compreensão bíblica dos dois sacramentos do batismo e da Ceia do Senhor. É provável que ele considerasse que o casamento, a ordenação, o batismo e a Ceia do Senhor são sacramentos segundo definições posteriores do termo, apesar de ver o batismo e a Ceia do Senhor como primários. É indiscutível que o uso pouco rigoroso do termo sacramentum por ele e por outros autores patrísticos favoreceu a proliferação dos “sacramentos” nas eras patrística tardia e medieval.
A compreensão de Agostinho sobre como os sacramentos do batismo e da Ceia do Senhor operam também era problemática. Em vez de considerar o batismo como um sinal e selo das promessas do evangelho em Cristo, efetivado para os eleitos através da obra regeneradora do Espírito Santo pela Palavra, Agostinho sustentava que, no batismo, Cristo opera através do ministro que realiza o sacramento, de modo que todo receptor do batismo é regenerado pelo Espírito Santo e recebe o perdão dos pecados. O batismo aqui funciona de uma maneira que prefigura a posterior doutrina católica romana do ex opere operato: quando o batismo é realizado por um ministro da igreja, a graça de Cristo sempre passa para o receptor. Diante disso, surge, é claro, uma pergunta: e quanto àqueles que se revelam hipócritas ou que apostatam em algum momento após o batismo? A resposta de Agostinho era que a regeneração e o perdão através do batismo não coincidem necessariamente com a eleição eterna para a salvação: alguém poderia nascer no reino da graça apenas para perecer eternamente. Apenas aqueles predestinados à salvação seriam capacitados a continuar em uma fé e amor perseverantes através do dom adicional da graça preservadora.
Relacionado a isso está o entendimento de Agostinho sobre a justificação. Enquanto os eleitos são justificados pela fé, Agostinho ensina que essa justificação ocorre através da santificação e perseverança. Justificação e santificação se entrelaçam. Enquanto ele continua a exaltar a soberania de Deus na salvação através de Cristo e exorta os membros batizados da igreja a viverem em arrependimento, fé e amor a Ele, a doutrina do batismo de Agostinho — juntamente com seu ensino sobre regeneração, justificação e perseverança — tem muito em comum com a doutrina católica romana posterior.
O mesmo se aplica em aspectos de sua doutrina sobre a Ceia do Senhor. Segundo Agostinho a Ceia do Senhor significava muitas coisas: a unidade da igreja como o corpo de Cristo, em união com Cristo; o pão e o vinho como alimento espiritual; e o auto-sacrifício de Cristo. Muito de seu pensamento aqui reflete ricas verdades bíblicas. Embora em alguns argumentos enfatizasse que a substância do pão e do vinho permanecem inalteradas na Ceia do Senhor, Agostinho também às vezes falava em uma linguagem que prefigurava a posterior doutrina católica romana da transubstanciação: “O que você pode ver aqui… é pão e vinho; contudo, quando a Palavra é aplicada a isso, [isso] se torna o corpo e o sangue da Palavra.” Assim como no batismo, Agostinho interpretava a Ceia do Senhor, quando administrada por um ministro da igreja, como um canal da graça de Cristo de uma forma que prefigurava o posterior ensino ex opere operato. Ao mesmo tempo, ele corretamente enfatizava tanto a necessidade da recepção com fé quanto os perigos da participação indigna.
Em sua doutrina da igreja, Agostinho seguiu Cipriano ao defender a necessidade da unidade visível da igreja institucional no contexto do cisma donatista. Para Agostinho, essa necessidade de unidade visível tinha relação com a eficácia, ainda que não com a validade, dos sacramentos. Comprometido com uma governança episcopal da igreja, Agostinho acreditava que bispos individuais deveriam ter uma autoridade relevante sobre a congregação local. Além disso, via o bispo de Roma como superior aos demais bispos na região ocidental da igreja universal. No entanto, há boas indicações de que essas visões foram moderadas em seu pensamento e prática. Agostinho defendia a importância tanto dos presbíteros quanto dos bispos na responsabilidade mútua através de concílios locais, e permitia a possibilidade de ter co-bispos com igualdade de autoridade liderando uma igreja local, como em seu próprio ministério ao lado do bispo Valério em Hipona. Agostinho também via limites na primazia do bispo de Roma: ele não hesitava em discordar e repreender o papa Zósimo quando percebia que ele se desviava da doutrina ou prática das Escrituras.
Pouco antes de sua morte em um sitiado Hipona, Agostinho decidiu refletir sobre seus erros e corrigi-los, e os registrou em um volume intitulado Retratações. Seus escritos refletiam seu desejo de se submeter em todas as coisas à autoridade das Escrituras. Ainda que ele ficasse contente com o elogio de tudo o que era bom, certamente esperaria que fizéssemos o mesmo, agradecer pelo que é certo, observar e evitar o que é errado.
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

