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Um fogo consumidor

A sarça ardente tem sido um símbolo importante ao longo da história da igreja, e por boas razões. No relato de Moisés e a sarça ardente, vemos a autorrevelação de Deus. Deus apareceu a Moisés e entregou uma revelação de suma importância: Seu nome eterno e de aliança, Yahweh. A sarça ardente, como símbolo, significa um encontro com o Deus transcendente e Sua revelação divina.

O relato da sarça ardente é uma história sobre a santidade divina. O que aconteceu na sarça ardente foi uma teofania: uma manifestação visível do Deus invisível. Algo misterioso chamou a atenção de Moisés. Ele viu uma sarça que estava em chamas, porém não se consumia. Quando Moisés se aproximou da sarça, Deus falou e lhe disse: “Tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa” (Êx 3:5). O solo era sagrado não por causa da presença de Moisés, mas por causa da presença de Deus. Era um solo sagrado, porque naquele momento, ocorreu uma interseção entre o céu e a terra. O próprio Deus apareceu, através da manifestação de Sua presença na sarça.

Um dos maiores problemas da igreja é que não entendemos quem é Deus. Contudo naquela revelação — na teofania em que Ele apareceu a Moisés — a majestade transcendente de Deus foi parcialmente revelada. O que era invisível se tornou visível através da teofania. Parte do nosso problema é que, quando algo está fora de vista, está fora da mente. Mas de tempos em tempos ao longo da história bíblica, Deus se manifesta aos olhos humanos. Deus se manifestou na sarça ardente e foi algo de grande impacto.

Falamos em teologia sobre a transcendência de Deus e Sua imanência. Por um lado, Deus não faz parte da ordem criada. Ele está acima e além. É isso que queremos dizer por transcendente.

No entanto, Ele não está distante. Aristóteles pensava em Deus como um rei que não faz nada, que reina, porém não governa. Seu deus não se envolve com os assuntos dos seres humanos. Contudo, Deus não é assim. Ele é imanente, isso significa que Ele está próximo. Ele é imanente no sentido de que se manifesta na ordem criada. Ele é imanente através da presença do Espírito Santo e, em última análise, em virtude da encarnação de Cristo.

A Escritura descreve Deus como um fogo consumidor, o que se refere à Sua majestade transcendente (Dt 4:24; Hb 12:29). Entretanto, Ele teve comunhão com Suas criaturas no jardim do Éden. Naquela comunhão original, antes da queda, Adão e Eva se alegravam quando Deus caminhava na brisa do entardecer. Eles mal podiam esperar para desfrutar de Sua presença. Porém após a queda, se não houvesse graça divina, então haveria apenas juízo e estaríamos sem esperança.

A Bíblia inteira é a história de Deus se inclinando e condescendendo com Seu povo envergonhado, assustado e fugitivo, que se esconde porque sabe que está nu e se sente constrangido. E o primeiro ato de redenção na Bíblia é que Deus se inclinou e cobriu a vergonha dos nossos primeiros pais (Gn 3:21). Ele cobriu o pecado de Adão e Eva, ao confeccionar para eles túnicas de pele de animal.

O tema da redenção de Gênesis a Apocalipse é o ato de cobrir. É um ato de cobrir, pois em nossa condição caída, estamos nus diante de Deus. Estamos despidos e precisamos de algo que nos cubra de forma aceitável a Ele. Por natureza, outras criaturas já têm sua cobertura dada por Deus. Os pássaros têm penas. Outros animais têm suas peles. No entanto, precisamos de roupas artificiais. Isso por si só testemunha nossa necessidade universal de algo para nos cobrir. Inclusive no sistema sacrificial do AT, o trono de Deus no Santo dos Santos estava coberto de sangue, o que representava o encobrimento do pecado do povo. O NT fala sobre trocar nossos trapos imundos pela justiça de Cristo. A ideia que temos no NT é que estamos cobertos, estamos vestidos, com a justiça de Cristo (Rm 4:7-8; 2 Co 5:21).

Outra história familiar no AT é a visão de Isaías do Senhor. Tal como Moisés, Isaías experimentou a transcendência e a imanência do Senhor:

No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os seus pés e com duas voava. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória. As bases do limiar se moveram à voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça. Então, disse eu: ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos! Então, um dos serafins voou para mim, trazendo na mão uma brasa viva, que tirara do altar com uma tenaz; com a brasa tocou a minha boca e disse: Eis que ela tocou os teus lábios; a tua iniquidade foi tirada, e perdoado, o teu pecado (Is 6:1-7).

Quer tenha essa visão ocorrido no templo da terra ou no templo celestial, um dos itens do mobiliário sagrado era o altar de incenso. O altar de incenso simbolizava as orações do povo de Deus. E no altar havia brasas, que Ele usou para representar a impureza de Isaías. Quando Isaías viu o Senhor exaltado em Sua majestade, de imediato se deu conta do terrível contraste entre ele e Deus. Ele exclamou: “Sou homem de lábios impuros!”. Ele exclamou, pois seus olhos tinham visto o Senhor dos Exércitos.

Isaías compreendeu quem ele de fato era tão logo percebeu quem Deus é. Ele percebeu que era impuro. Mas todos nós também, Isaías entendeu, somos imundos. E assim, para purificar Isaías para sua missão, Deus enviou um serafim para levar uma brasa viva do altar e colocá-la nos lábios de Isaías. Não foi por castigo; foi para purificar. Era para tornar o que era impuro em alguém puro.

Do mesmo modo que Moisés na sarça ardente, Isaías deve ter ficado apavorado com sua experiência. Agostinho afirmou que a autoconsciência traz consigo uma consciência imediata da finitude de alguém. Logo que tomamos consciência de nós mesmos, sabemos que não somos Deus e que estamos sujeitos a Ele. João Calvino expressou que não entendemos realmente quem somos até entendermos quem é Deus; não compreendemos Ele antes de nos depararmos conosco.

Calvino continua dizendo que, em nossa condição caída, com frequência nos estimamos mais do que deveríamos. Observamos uns aos outros e nos julgamos segundo o padrão de este mundo. Sempre podemos encontrar alguém que é mais corrupto do que nós, ou pelo menos que parece ser. No entanto, quando olhamos para o céu e consideramos quem Deus é, então nos vemos dominados pelo temor. Não correspondemos ao padrão que Ele exige.

O Senhor é santo, exaltado e elevado. Ele é um fogo consumidor. Se não fosse por Sua graça, seríamos consumidos. A seguinte verdade ainda se aplica a nós hoje: se não fosse pela justiça de Cristo que nos cobre, se não fosse pela purificação de nossa impureza, seríamos consumidos. Porém Deus, em Sua graça, condescendeu em tornar possível que estivéssemos em Sua presença através de Cristo e vivêssemos. O que Moisés experimentou na sarça ardente é o que o povo de Deus experimenta hoje: um Deus santo, transcendente e totalmente consumidor que desce para habitar com Seu povo. Ele nos conhece.


Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

R.C. Sproul

R.C. Sproul

O Dr. R.C. Sproul foi fundador do Ministério Ligonier, primeiro pastor de pregação e ensino da Saint Andrew's Chapel em Sanford, Flórida, e primeiro presidente da Reformation Bible College. Seu programa de rádio, Renewing Your Mind, ainda se transmite diariamente em centenas de estações de rádio ao redor do mundo e também pode ser ouvido online. Ele escreveu mais de cem livros, entre eles A Santidade de Deus, Eleitos de Deus, Somos todos teólogos e Surpreendido pelo sofrimento. Ele foi reconhecido em todo o mundo por sua defesa clara e convincente da inerrância das Escrituras e por declarar a necessidade que o povo de Deus tem em permanecer com convicção em Sua Palavra.