Um fogo consumidor

maio 27, 2026

Um fogo consumidor

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Jesus esteve no túmulo por três dias?

O célebre padre da igreja, Agostinho de Hipona, escreveu: “O que é então o tempo? Desde que ninguém me pergunte, eu sei. Se tento explicar a quem pergunta, percebo que não sei.”1 Ele fez essa observação após um longo debate sobre a natureza do tempo e da eternidade. Embora sua discussão fosse mais abstrata do que a questão em pauta, a declaração de Agostinho nos lembra que o conceito de tempo é complexo. Ainda assim, todos operamos com uma compreensão bastante direta de minutos, horas, dias, semanas e anos.

Porém a nossa maneira de contar o tempo não é a única. A Bíblia foi escrita por autores de diversas origens, em um período e cultura muito diferentes dos nossos. De fato, nenhum desses fatores compromete a autoria divina geral das Escrituras. Por outro lado, reconhecer essas diferenças nos ajuda a entender o que os autores quiseram dizer — e o que não quiseram expressar — quando usaram a linguagem cotidiana para registrar quando um evento aconteceu.

Na verdade, o NT está ansioso para que o leitor entenda que está documentando eventos que ocorreram na história espaço-tempo, como a entendemos no sentido cotidiano. Marcadores de tempo abundam em suas páginas, desde quando Jesus encontrou os discípulos aterrorizados no mar turbulento (Mc 6:48), até o momento em que Ele foi crucificado (Mt 27:45), até quanto tempo Ele esteve no túmulo (Lc 9:22; 24:7; 1 Co 15:4).

Como indicam os textos acima, os autores bíblicos ensinaram que Jesus esteve no túmulo por três dias. Os evangelhos nos contam que Ele foi crucificado na sexta-feira e ressuscitou do túmulo no domingo (Mc 15:42-47; 16:1; Mt 27:57-61; 28:1; Lc 23:50-56; 24:1; Jo 19:38-42; 20:1). Porém parece haver uma dificuldade que surge quando comparamos esses relatos da crucificação e ressurreição de Jesus com as palavras de nosso Senhor em Mt 12:40: 

Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra. 

Críticos alegam que não podemos reconciliar as palavras de Jesus com os relatos do evangelho sobre Sua morte, que a situam na “hora nona” (Mc 15:34), ou 15h na linguagem de hoje. Se Jesus morreu às 15h na sexta-feira e ressuscitou na manhã de domingo, como podemos conciliar esses fatos com a declaração de Jesus em Mt 12:40? As Escrituras parecem inconsistentes aqui. Os céticos há muito tempo se aproveitam dessa aparente contradição para desacreditar a doutrina da inerrância bíblica.

A dificuldade é aparente, não real. Ao retornar à nossa discussão anterior sobre a natureza do tempo, precisamos recuar e reconhecer que os judeus do primeiro século contavam os dias de maneira diferente da que fazemos hoje. Segundo a compreensão deles sobre os dias, parte de qualquer dia era contada como um dia inteiro. Novamente, a maioria de nós não conta o tempo assim. Por exemplo, se uma reportagem de jornal descreve uma certa pessoa fazendo algo por três dias, de imediato pensamos em três dias de vinte e quatro horas.

Mas, uma vez que entendemos como Jesus e a maioria dos judeus ao seu redor compreendiam os dias, a aparente contradição desaparece. A morte de Jesus às 15h na Sexta-feira Santa contou como um dia, seu sepultamento durante todo o sábado contou como o segundo dia, e sua ressurreição na manhã de domingo contou como o terceiro dia. Portanto, a profecia de Jesus em Mt 12:40 e os fatos de Sua crucificação, sepultamento e ressurreição não se contradizem, mas simplesmente refletem a maneira comum de entender os dias no primeiro século.

Assim como muitas outras supostas contradições da Bíblia, um pouco de reflexão e alguma compreensão das diferenças culturais nos ajudam a entender que não há inconsistência alguma. Somos mais uma vez lembrados de que a Bíblia é a verdade (Jo 17:17). Podemos confiar nisso. Os fatos que registra aconteceram, mesmo que tenham sido apresentados de um modo diferente à nossa maneira moderna de pensar.

A questão mais urgente é: “Acreditamos na Bíblia?” A busca fútil dos críticos para encontrar discrepâncias na Bíblia, como a discutida aqui, revela um coração incrédulo. Devemos garantir que tal ceticismo não caracterize nossos próprios corações. Em vez disso, “guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel” (Hb 10:23).


Este artigo faz parte da coleção Como responder as supostas contradições e foi originalmente publicado em 30 de junho de 2022.

Saint Augustine, Confessions: A New Translation [Santo Agostinho, Confissões: uma nova tradução] por Henry Chadwick (Oxford: Oxford University Press, 1998), 230.↩je: um Deus santo, transcendente e totalmente consumidor que desce para habitar com Seu povo. Ele nos conhece.


Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

Gabriel N.E. Fluhrer

Gabriel N.E. Fluhrer

O Dr. Gabriel N.E. Fluhrer é pastor titular da First Presbyterian Church em Chattanooga, Tennessee. Ele é editor de Atonement [Expiação] e Solid Ground [Terreno sólido] e autor de The Beauty of Divine Grace [A beleza da graça divina] e Alive: How the Resurrection Changes Everything [Vivo: como a ressurreição muda tudo].