O amor inseparável de Deus

junho 15, 2026

O amor inseparável de Deus

junho 15, 2026

O amor inseparável de Deus

No século XI, um dos pensadores mais brilhantes da igreja, Anselmo, arcebispo de Canterbury, escreveu três obras importantes que influenciam a igreja até hoje. No campo da filosofia cristã, ele nos deu seu Monologium e seu Proslogium; no campo da Teologia Sistemática, ele escreveu o grande clássico cristão Cur Deus Homo, que traduzido significa “Por que o Deus-Homem?”

Nessa obra, Anselmo expôs os fundamentos filosóficos e teológicos para um aspecto importante da compreensão da igreja sobre a expiação de Cristo, em particular a perspectiva da satisfação na expiação. Nele, Anselmo argumenta que era necessário que a expiação ocorresse para satisfazer a justiça de Deus. Esse ponto de vista se tornou a peça central da ortodoxia cristã clássica na Idade Média, em termos da compreensão da igreja sobre a obra de Cristo em Sua expiação. No entanto, desde então a visão de satisfação na expiação não ficou isenta de críticas.

Na Idade Média, surgiram questionamentos sobre se é correto pensar que a expiação de Jesus foi necessária devido a alguma lei abstrata do universo que exigia que a justiça de Deus fosse satisfeita. Isso deu origem ao chamado debate Ex Lex. No debate Ex Lex, foi questionado se a vontade de Deus funcionava à parte de qualquer lei ou fora de qualquer lei (ex lex), ou se a Sua vontade estava sujeita a alguma norma de retidão ou lei cósmica que Ele era obrigado a seguir e, portanto, Sua vontade operava sob a lei (sub lego). A questão era: Deus está separado da lei ou sujeito à lei?

A resposta da igreja foi rejeitar em essência esse dilema e declarar que Deus não está separado da lei nem sujeito à lei nesses respectivos sentidos. Em vez disso, a igreja respondeu afirmando que Deus está separado da lei e sujeito à lei, na medida em que Ele está livre de quaisquer restrições impostas a Ele por alguma lei que existe fora dEle mesmo. Nesse sentido, Ele está separado da lei e não está sob a lei. Porém, ao mesmo tempo, Deus não toma decisões de forma arbitrária ou impulsiva e opera segundo a lei de Sua própria natureza. A igreja declarou que Deus é uma lei para Si mesmo. Isso não reflete um espírito de ilegalidade nEle, mas que a norma para o comportamento e a vontade divina se baseia no que os teólogos ortodoxos do século XVII chamavam de “lei natural de Deus”.

A lei natural de Deus, como expressão teológica, pode ser com facilidade mal compreendida ou confundida com o conceito mais amplo que encontramos na teoria política e na teologia da chamada “lei da natureza” (lex naturalis). Nesse sentido da frase, a lei da natureza se refere àquelas coisas que Deus revela no mundo da natureza sobre certos princípios de ética. Em distinção ao uso comum do termo lei natural, o que os teólogos de Westminster do século XVII tinham em vista quando falavam sobre a lei natural de Deus era isto: que Ele opera segundo a lei de Sua própria natureza. Ou seja, Deus nunca age de uma maneira que contradiga Sua própria santidade, retidão, justiça, onipotência e assim por diante. Deus nunca compromete a perfeição do Seu próprio ser ou caráter naquilo que faz.

Quando a igreja confessa a necessidade da satisfação da justiça de Deus, essa necessidade não é algo imposto a Deus de fora, mas é uma necessidade imposta a Deus por Seu próprio caráter e natureza. É necessário que Deus seja Deus, sem pôr em risco Sua santidade, justiça ou retidão. É nesse sentido que uma expiação que satisfaça Sua justiça é considerada necessária.

Em tempos mais recentes, pensadores modernos se opuseram à visão de satisfação da expiação, ao alegar que ela lança uma sombra sobre a livre graça e o amor de Deus. Se Deus é um Deus de amor, por que Ele não pode simplesmente perdoar as pessoas gratuitamente pela pura motivação de Seu próprio amor e graça, sem se preocupar em satisfazer algum tipo de justiça, seja uma lei de Sua própria natureza ou uma lei imposta de fora? Mais uma vez, essa visão da expiação não consegue entender que Deus nunca negociará Sua própria justiça, até mesmo por Seu desejo de salvar pecadores.

Na expiação, vemos que Deus manifesta Seu amor gracioso por nós e, ao mesmo tempo, manifesta um compromisso com Sua própria justiça e retidão. A justiça é satisfeita pela obra de Cristo, quem satisfaz as exigências da justiça divina, e mantém o compromisso de Deus com a retidão e a justiça. Deus satisfez as exigências de Sua justiça dando-nos um Substituto que fica em nosso lugar e oferece essa satisfação por nós. Isso demonstra maravilhosamente a graça de Deus em meio a essa satisfação. A graça de Deus é ilustrada pela satisfação de Sua justiça, que é feita por nós por Aquele a quem Ele designou. É da natureza de Deus como Juiz de todo o mundo fazer o que é certo. E o Juiz que faz o que é certo nunca, jamais quebranta os cânones de Sua própria justiça.

A Bíblia explica a cruz em termos de propiciação e expiação, as duas obras de Cristo em nosso favor. Propiciação se refere especificamente à obra de Cristo de satisfação da justiça divina. Ele paga por nós a penalidade que nossos pecados merecem. Somos devedores que não podem pagar a dívida moral que contraímos por causa de nossa ofensa contra a justiça de Deus, e a Sua ira é satisfeita e propiciada pelo sacrifício perfeito que Cristo faz em nosso favor. Contudo esse é apenas um aspecto da obra. A segunda é a expiação. Na expiação, nossos pecados são removidos de nós, remidos quando são transferidos ou imputados a Cristo, que sofre indiretamente em nosso lugar. A justiça de Deus está satisfeita, e nosso pecado é removido de nós na perfeita expiação de Jesus. Isso cumpre o duplo sentido em que o pecado era expiado no Dia da Expiação da antiga aliança, tanto pelo sacrifício de um animal quanto pela transferência simbólica dos pecados do povo para o bode emissário, que então era enviado ao deserto e removia os pecados do povo.


Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

R.C. Sproul

R.C. Sproul

O Dr. R.C. Sproul foi fundador do Ministério Ligonier, primeiro pastor de pregação e ensino da Saint Andrew's Chapel em Sanford, Flórida, e primeiro presidente da Reformation Bible College. Seu programa de rádio, Renewing Your Mind, ainda se transmite diariamente em centenas de estações de rádio ao redor do mundo e também pode ser ouvido online. Ele escreveu mais de cem livros, entre eles A Santidade de Deus, Eleitos de Deus, Somos todos teólogos e Surpreendido pelo sofrimento. Ele foi reconhecido em todo o mundo por sua defesa clara e convincente da inerrância das Escrituras e por declarar a necessidade que o povo de Deus tem em permanecer com convicção em Sua Palavra.