
Jesus é Deus?
agosto 7, 2026Quem foi Jó?
O profeta Ezequiel menciona Jó junto com Daniel e Noé como exemplos de homens piedosos, e sugere que Jó foi uma pessoa histórica em vez de uma mera figura literária. Como os patriarcas hebreus, Jó viveu mais de cem anos (Jó 42:16). A menção de saqueadores sabeus e tribos caldeias sugere que Jó viveu durante o segundo milênio, talvez na época de Abraão ou Moisés (Jó 1:15, 17).
Jó é o tema de todo o livro, embora seja mais preciso dizer que o livro de Jó é sobre Deus em vez dele. O livro começa com um prólogo que nos informa sobre a esposa de Jó, seus dez filhos (sete filhos e três filhas) e, especialmente, sua piedade (três vezes no total: uma vez pelo autor e duas vezes pelo próprio Deus) (Jó 1:1-2, 8; 2:3, 9). Ao atuar como sacerdote para seus filhos, Jó teme que as celebrações de aniversário possam exigir uma oferta queimada para cada um de seus filhos (Jó 1:4-5).
No primeiro capítulo contém dois relatos de intensa provação: o primeiro quando grupos de saqueadores sabeus e caldeus o roubaram de seu gado (sua riqueza), e mais tarde, um “grande vento” matou seus dez filhos (Jó 1:15-19). A resposta imediata de Jó é de fé: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!” (Jó 1:21).
No cap. 2, mais uma provação recai sobre Jó quando ele é atingido por uma doença mortal descrita como “tumores malignos, desde a planta do pé até ao alto da cabeça” (Jó 2:7). Quando sua esposa lhe diz: “Amaldiçoa a Deus e morre”, um conselho de incredulidade e insensatez, Jó de novo responde com fé: “Temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (Jó 2:9-10). O autor deixa claro que a causa das provações de Jó não residia em nenhum pecado de Jó: “Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios” (Jó 2:10).
O que Jó não sabe, e o que nos é dito em particular, é que por trás dessas provações terrenas está uma batalha cósmica entre o bem e o mal, Deus e Satanás (Jó 1:6-9, 12; 2:1–7). Satanás aposta que a única razão para a piedade de Jó é que ele não sofreu. Satanás diz a Deus que se Jó fosse posto à prova através de provações, ele perderia sua fé e blasfemaria “contra ti na tua face” (Jó 1:11; 2:5).
De um ponto de vista, a causa do sofrimento de Jó é satânica. Porém o autor do livro de Jó quer que vejamos que isso, embora seja verdadeiro, não é a única causa. Por mais difícil que seja entender, o autor deseja que compreendamos que a razão geral para o sofrimento de Jó está na soberania de Deus. Em um dia em que os anjos prestam contas, Satanás também é chamado a prestar contas (Jó 1:6; 2:1). É Deus, não Satanás, quem sugere que Jó se torne o alvo de Satanás: “Observaste o meu servo Jó?” (Jó 1:8; 2:3). Não recebemos uma explicação de como Deus é totalmente soberano e não o autor do pecado, embora essa questão moral permeie todo o livro.
Após uma resposta inicial de fé, conhecemos os três “amigos” de Jó, Elifaz, o temanita, Bildade, o suíta, e Zofar, o naamatita (Jó 2:11). Antes de emitirem seus conselhos, Jó desce a um poço de desespero, deseja nunca ter nascido, palavras sombrias que Jeremias ecoa após seu julgamento (Jó 3:1-26; Jr 20:7-18).
Os amigos de Jó têm apenas um conselho: a causa raiz do sofrimento dele está em seu próprio pecado, do qual ele precisa se arrepender. Nesta visão, o sofrimento é o resultado da punição de Deus por nossos pecados. É uma retribuição instantânea por atos errados. Pode se resumir nas palavras iniciais de Elifaz, que se diz terem sido dadas a ele por alguma fonte secreta:
Seria, porventura, o mortal justo diante de Deus?
Seria, acaso, o homem puro diante do seu Criador?
Eis que Deus não confia nos seus servos
e aos seus anjos atribui imperfeições;
quanto mais àqueles que habitam em casas de barro,
cujo fundamento está no pó,
e são esmagados como a traça! (Jó 4:17-19).
Mais tarde no livro, conhecemos outro amigo, Eliú, filho de Baraquel, o buzita, quem “acendeu-se a sua ira contra Jó, porque este pretendia ser mais justo do que Deus” (Jó 32:2). Os comentaristas divergem quanto a se Eliú acrescenta algo ou apenas repete a narrativa de retribuição instantânea dos três amigos de Jó. Parece que, pelo menos inicialmente, Eliú sugere que Jó pode aprender algo sobre si mesmo através do sofrimento que de outra forma ele não saberia, mas também parece que, à medida que continua, ele se apoia na explicação de retribuição instantânea.
Três vezes Jó fala de alguém que entende sua inocência, um “árbitro”, uma “testemunha” e, como é famoso (porém com frequência mal interpretado), um “Redentor” (Jó 9:33; 16:19; 19:25). Em cada caso, Jó não está procurando alguém para perdoá-lo, senão alguém que defenderá a justiça de seu caso como alguém inocente. Não é que Jó não tenha pecado; é que o pecado não é a causa do sofrimento, como seus amigos (e Eliú) insistem.
Jó não tinha conhecimento da voz divina nos dois primeiros capítulos, e apenas no cap. 38 que Deus convoca Jó para prestar contas. Jó vinha usando “palavras sem conhecimento” (Jó 38:2). Em vez de Jó fazer as perguntas e Deus responder, Ele inverte a situação e faz mais de sessenta perguntas, nenhuma das quais Jó pode responder. Em um momento revelador, Deus pergunta:
Acaso, quem usa de censuras contenderá com o Todo-Poderoso?
Quem assim argui a Deus que responda (Jó 40:1).
Nesse momento, Jó coloca a mão sobre a boca. Entretanto, Deus não terminou, e mais perguntas seguem. Em uma ocasião, Deus menciona uma criatura terrestre (Jó 40:15), e uma criatura marinha (Jó 41:1). Os comentaristas divergem, mas um bom argumento pode ser feito de que estas são descrições poéticas de um hipopótamo e um crocodilo. Por que Deus os criou? A resposta é, em certo nível, “não sei”. E o problema do sofrimento é assim. Por que um sofre e outro não? Não sabemos. Porém há outra resposta, à qual Jó concorda:
Eu te conhecia só de ouvir,
mas agora os meus olhos te veem.
Por isso, me abomino
e me arrependo no pó e na cinza (Jó 42:5-6).
Não é importante que Jó entenda a causa do seu sofrimento; ela está nos propósitos insondáveis e misteriosos de Deus. É necessário apenas que Jó confie em Deus como ele fez no início.
O livro de Jó termina com um relato da oração de Jó por seus três amigos (Jó 42:8-9). Nada é dito sobre Eliú. Também nos é dito que seus irmãos e irmãs o consolaram, que a riqueza de Jó foi restaurada e que ele teve mais sete meninos e três filhas, e que viveu até os cento e quarenta anos (Jó 42:10-16).
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

