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abril 20, 2026Quem são os “filhos de Deus” em Gênesis 6?
No século XX, o especialista bíblico alemão Rudolf Bultmann fez uma crítica severa às Escrituras, ao argumentar que a Bíblia está repleta de referências mitológicas que devem ser removidas caso queira ter relevância nos dias atuais. A principal preocupação de Bultmann era com as narrativas do Novo Testamento, particularmente aquelas que incluíam relatos de milagres, que ele considerava impossíveis. No entanto, outros estudiosos afirmaram que também existem elementos mitológicos no Antigo Testamento. Exemplo A para este argumento é, em geral, uma narrativa que alguns acreditam ser paralela aos mitos antigos gregos e romanos sobre deuses e deusas ocasionalmente se acasalando com seres humanos.
Em Gênesis 6, temos este relato:
Como se foram multiplicando os homens na terra, e lhes nasceram filhas, vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram […] Ora, naquele tempo havia gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade (Gn 6:1-4).
Esta narrativa funciona como uma introdução ao relato do dilúvio que Deus enviou para destruir toda a humanidade da terra, exceto a família de Noé. De fato, o relato do dilúvio costuma ser interpretado como mito, mas esta seção introdutória, que lemos sobre o casamento entre “os filhos de Deus” e “as filhas dos homens”, é considerada como um mito óbvio.
A suposição nesta interpretação de Gn 6 é que “os filhos de Deus” se refere a seres angelicais. Por que alguns intérpretes da Escritura adotam essa hipótese? A resposta simples é que as Escrituras às vezes se referem aos anjos como filhos de Deus, e se presume que a referência em Gênesis 6 signifique o mesmo. Essa é, sem dúvida, uma conclusão possível, mas é necessariamente a inferência correta? Eu responderia que não; não acredito que este texto ensine necessariamente a ideia de relações sexuais entre anjos e seres humanos.
Para entender esse texto difícil, é necessário examinar o sentido mais abrangente da expressão “filhos de Deus”. Preeminentemente, é usado para o próprio Jesus; Ele é o Filho de Deus. Conforme mencionado, às vezes é usado para se referir a anjos (Jó 1:6; 2:1; Sl 29:1). Além disso, às vezes é usado para falar dos seguidores de Cristo (Mt 5:9; Rm 8:14; Gl 3:26). Assim, o conceito de filiação divina nas Escrituras nem sempre está ligado a uma relação biológica ou ontológica (relação de ser). Em vez disso, serve sobretudo para expressar um vínculo de obediência. Isso significa que Gênesis 6 poderia simplesmente estar falando sobre o casamento entre aqueles que manifestavam um padrão de obediência a Deus em suas vidas e aqueles que eram pagãos em sua orientação. Em outras palavras, este texto provavelmente descreve casamentos entre crentes e descrentes.
O contexto imediato de Gênesis 6 apoia esta conclusão. Após a narrativa da queda em Gênesis 3, a Bíblia registra as genealogias de duas famílias, os descendentes de Caim e de Sete. A descendência de Caim é relatada em Gênesis 4, a qual manifesta uma maldade crescente, que culmina em Lameque, que foi o primeiro polígamo (Gn 4:19) e que se regozijava no uso assassino e vingativo da espada (Gn 4:23-24). Em contraste, a descendência de Sete, que se registra em Gênesis 5, demonstra retidão. Essa descendência inclui Enoque, que “andou […] com Deus, e já não era, porque Deus o tomou para si” (Gn 5:24). Na descendência de Sete nasceu Noé, que era “um homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos” (Gn 6:9). Assim, vemos duas genealogias, uma que obedece a Deus e a outra que lhe desobedece de forma deliberada.
Portanto, diversos estudiosos do hebraico sustentam que Gênesis 6 não está descrevendo o casamento entre anjos e mulheres humanas, mas o casamento entre os descendentes de Caim e Sete. As duas descendências, uma divina e outra perversa, se unem, e de repente todos participam na busca do mal, de modo que era continuamente mau todo desígnio do seu coração [do homem]” (Gn 6:5). Não precisamos supor uma invasão da terra por anjos para entender este capítulo.
Resolver as dificuldades interpretativas de Gênesis 6 nos lembra de ser muito cuidadosos de não fazer inferências das Escrituras que não tenham respaldo claro. Os termos descritivos “filhos de Deus” e “filhas dos homens” não nos permite fazer a suposição de interação entre seres celestiais e humanos. Devemos ser muito cuidadosos ao analisar um texto difícil como este a fim de entender o uso da linguagem dentro do contexto geral da Bíblia. É um princípio muito importante que a Escritura seja interpretada pela Escritura.
Artigo publicado originalmente em Ligonier.org.

